Rising Sun cap 31 Cinzas


 

Cap. 31 Cinzas 

– Eles nos cercaram! – Murmurou Alec. As mãos grandes e delicadas tocando as pedras enegrecidas, apoiando seu corpo contra a parede como se estivesse cansado, como se não suportasse mais o peso sobre seus ombros.

Eu o olhava atônita, tentando não perder a movimentação que meus ouvidos seguiam do lado de fora como um cão atrás da caça. Eles nos cercaram pelos corredores até as galerias que levavam para fora, pelos túneis úmidos e escuros onde as escadarias da nave central se estendiam como um tapete de mármore negro.

A respiração pesada de Willian era tudo que se ouvia dentro da escuridão tensa que nos envolvia dentro daquela sala. Estávamos presos, sem saída, sem recursos, sem idéias. Do lado de fora toda a guarda Volturi à nossa espreita. Eu via o desespero mudo nos rostos marmóreos de Alec e Willian e sabia que estávamos ficando sem tempo. Meu coração perdia o compasso a cada movimento ligeiro, a cada deslocamento sutil que ocorria a cada um quarto de hora. Eu pensava: o quê eles estão esperando? Por que hesitam atrás de portas e paredes infinitamente mais frágeis que seus membros rígidos e imortais? E então Willian tranqüilizava-me: “Eles não vão entrar aqui sozinhos. É suicídio. A única que poderia nos derrubar é Jane, mas o poder dela é inútil contra mim.” Eu entendia o ponto dele, e sabia do apreço de Aro por sua guarda, já tão reduzida pelas inúmeras lutas em que ele os meteu. Certamente ele não sacrificaria mais soldados quando podia apenas sentar-se e esperar que nós abríssemos uma brecha. Mas nós estávamos prontos para não ceder, e as horas passaram-se rapidamente, como um moinho de vento em rotação acelerada, marcando a proximidade de uma tempestade que nos espreitava por trás de cada parede de pedra, de cada porta maciça. Silenciosamente, eu lutava contra a ansiedade que se alojava em meu estômago e que inchava um pouco mais a cada minuto, tentava ser corajosa por mim, por Alec, por Willian, tentava não deixar o desespero enfraquecer a vontade esmagadora de justiça dentro de mim.

Minha cabeça dava voltas com a idéia de me entregar, de implorar pela vida daqueles dois que me protegiam como se eu fosse parte da família deles, como se nos conhecêssemos há anos. Eu imaginava se Aro aceitaria a troca, um segundo depois eu arrependia-me apenas para começar remoer tudo de novo.

– Se eu conseguisse falar com Aro… Talvez eu pudesse explicar… – Sussurrei, imóvel nas sombras.

– Ele não vai te escutar Ness, não vai escutar ninguém agora. – Consolou-me Alec.

– Nós precisamos tentar. Vamos, me deixem sair e eu dou meu jeito. – Insisti, impaciente.

– Se acalme aí pirralha, se você sair a única coisa que vai conseguir é morrer. – Retorquiu Willian, encostado na única porta do aposento. – Aro deu ordens de nos matar, ele só não sabe como ainda. – Willian suspirou, olhou mais uma vez em seu relógio de pulso, estava inquieto, ainda mais que o usual.

– Então nós vamos ficar aqui para sempre? Esperando que Aro descubra um jeito de nos matar? – Resmunguei. Eu não queria ser aquela que só reclama, mas ser paciente nunca foi uma de minhas qualidades mais assíduas. Eu sentia-me pressionada, como se os vampiros do lado de fora pudessem enxergar através das paredes, eu podia sentir o peso do olhar de todos eles sobre mim, como uma mira laser bem no meio de minha testa.

– Nós vamos encontrar uma saída. Até lá, ninguém entra e ninguém sai, não vou deixar ninguém tocar em você. – Alec moveu-se tão rápida e suavemente que não o percebi de imediato ao meu lado. Ele estendeu a mão até a minha, apertada contra meus joelhos. Eu peguei a mão fria dele com uma apreensão exagerada, e ele me ergueu do chão, onde eu estava aninhada como uma bola. Endireitei-me, ajeitando o jeans e a blusa de linho que eu usava, fazendo disso uma desculpa para me libertar das mãos de Alec.

Ele me observou enquanto eu fingia me preocupar com a aparência amarrotada de minhas roupas, e aos poucos, sem que eu notasse, eu me vi presa no rosto dele, devolvendo um olhar tão profundo quanto a escuridão que nos cercava. Eu via tanta coisa naqueles olhos… E mesmo assim não era capaz de nomear uma coisa sequer, como se aqueles sentimentos fossem estranhos demais para mim, como se não fizessem parte desse mundo.

Eu me sentia tão menor que ele, tão mais crua e rasa. Meus oito anos passaram-se como meros piscar de olhos, um após o outro, me trazendo a aparência de uma mulher, um corpo que cresceu rápido demais. E era assim, exatamente assim que eu me sentia perto de Alec. Uma criança no corpo de uma mulher. Diante dos séculos vividos por ele, eu era apenas uma semente precoce. Como eu poderia entender aquele olhar? Como eu poderia entender aquele sentimento, que se derramava diante de mim como uma bacia que transborda? Eu soube das coisas cedo demais, num tempo tão acelerado e inconstante, e nessa descida ribanceira abaixo, eu não tive tempo para entender certas coisas como o amor, o ódio, a dor, a solidão, o desespero… E agora, eu experimentava todas essas coisas de uma só vez, todas ao mesmo tempo. Em qualquer parte que eu olhasse dentro de mim, eu veria algo intenso, duelando com tantas outras coisas igualmente grandes por minha atenção, enquanto eu apenas tentava sobreviver.

– Alec, Jane está aqui. – A voz de Willian nos arrancou daquele transe compartilhado. Desviei meu olhar para longe, para o nada, enquanto esperava Alec se afastar, se esquecer de mim e de minha súbita recaída, algo que definitivamente não poderia mais acontecer.

– Onde? – Perguntou Alec, os olhos ainda presos em mim.

– Está vindo pelo corredor sul diretamente para nós. Demetri está com ela. – Informou Willian, a expressão concentrada em seu rosto deixava sulcos em sua tez polida. Ele inalava o ar gelado que entrava pelas frestas da porta e encostava a cabeça na madeira fria, escutando, sentindo o teor do que estava por vir.

– Será que ela vai tentar entrar? – Perguntei, inspirando profundamente o ar que quase não se movimentava dentro daquele cubículo.

– Se ela tentar, eu vou ter que pará-la Alec. – Ameaçou Willian, os olhos carmim gelados passearam por nossos rostos. Olhei para Alec meio envergonhada. Era algo bem complicado, Jane e Alec eram gêmeos, desde muito jovens só tiveram um ao outro, e por mais de trezentos anos permaneceram assim. Agora, depois de tudo que viveram e passaram juntos, uma pedra os separava dessa forma, e eu me sentia muito culpada e envergonhada por ser essa pedra. Eu não conhecia a história deles, tive muito pouco tempo com Alec, e o tempo que tivemos foi gasto com estratégias de fuga e conversas discretas sobre o futuro. Nada se falou sobre o passado.

– Preocupe-se com Demetri. Eu cuido da minha irmã. – Respondeu Alec num tom brando que me alarmou.

Permanecemos num silêncio tenso por minutos que me pareceram intermináveis. Em algum canto distante uma goteira pingava num ritmo funesto, o som longínquo de passos suaves aproximava-se casualmente. Jane e Demetri, caminhavam tranqüilos, como se nada houvesse de errado. Estavam deixando-se serem percebidos por nós.

Quando os sons dos sapatos de Jane cessaram bem em frente à porta, eu prendi a respiração. Meu coração martelava vergonhosamente em meio ao silêncio, eu gostaria de ser capaz de abafá-lo às vezes. Na imobilidade da cena, eu encarei novamente o rosto frio de Alec, passando depois ao rosto compenetrado de Willian. Era estranho vê-los assim, juntos e unidos em um único ideal. Ambos foram usados por Aro e agora ambos queriam se ver livres do tirano. Agora eu me via no meio dessas duas histórias, minha vida se cruzando com outras vidas que começaram bem antes de mim, e mesmo assim, agora, estávamos juntos num presente obscuro, cujo amanha era tão incerto quanto o início exato de nossa espécie.

– Alec! Seu tolo. – Falou Jane, a voz fina e infantil reverberando no espaço vazio, penetrando as paredes que nos cercavam de todos os lados. Ouvimos sem nada dizer. Ela continuou:

– Quero que saiba que me envergonho do dia em que sai do mesmo ventre que você. Você me traiu, traiu sua casa, seu criador, seu ideal, e agora se junta à escória como se esta significasse algo para você. Mas eles não podem te devolver o que nos foi tirado Alec, eles não são nossa família, nem tampouco essa mestiça tem as respostas que você tanto procura meu irmão. Você está iludido, está cego… – Aquelas palavras me cortaram fundo, caíram sobre mim como uma bola de ferro.

Jane pausou um segundo, a guarda inteira escutava o discurso. No rosto de Alec só podia-se ler o vazio.

– Você pensa que eu não te conheço mais meu irmão, mas está enganado. Só eu te conheço, melhor que qualquer um, melhor até mesmo que você. – Senti minha mão fechar-se em punho, meus dentes apertaram-se, travando meu maxilar. – Aro quer te ajudar Alec. Deixe-o te ajudar. Quando tudo isso acabar nós vamos ficar melhores, eu irei com você aonde quer que queiras ir. Não vire as costas para sua família Alec, nós somos tudo que você tem. – A voz de Jane dissolvia-se aos poucos, sem que ela percebesse, numa cadencia melancólica. Ela rogava pelo irmão, pois estava tão sozinha e perdida quanto ele, só não era capaz de enxergar isso como Alec foi.

Eu sentia meu sangue martelar nas têmporas, era como se as palavras de Jane viessem carregadas de veneno, e aquilo me corroia como ácido. Ela estava falando coisas tolas como família e respostas, mas contrariava-se por seus próprios atos. Ela estava do lado de Aro, e nada do que ela dissesse sobre família poderia ser levado em conta. Ela nunca saberia o que significa família, ela jamais entenderia essa condição, e eu a odiava por estar dizendo essas coisas quando nem mesmo as entendia de fato. Ela não tinha o direito de expor os sentimentos de Alec dessa forma, brincando com eles como se fossem algo trivial.

– Pensei que você tivesse vergonha de mim. – Respondeu Alec sobressaltando a todos. Willian e eu trocamos olhares preocupados. – Deixe-me saber como Aro pretende me ajudar Jane. O que ele quer de mim agora? – Silencio…

– Ele quer entender os motivos pelos quais você está nos abandonando. Quer ver por ele mesmo o porquê dessa deserção tão descabida. Não pode ser só por ela, isso é tolice, é insanidade. – A voz de Jane retomou o tom rude e insolente. Olhei para Alec, escondendo-me nas sombras da parede ao fundo da sala. Willian meditava sem nada dizer ou demonstrar.

– Ele quer entrar na minha mente então? Como se isso fosse mudar alguma coisa. Pois bem Jane, diga a Aro que não. Ele não vai encostar um só dedo em mim ou nela. – Alec me encarou, meu coração aumentou o ritmo. Percebi, meio fora de mim, que balançava minha cabeça lentamente, esboçando um pedido mudo para que ele não fizesse o que pretendia fazer. Sustentei aquele olhar firmemente, e bem lá, no fundo daqueles olhos vermelhos, eu pude ver que nada do que eu fizesse ou pedisse a ele poderia fazê-lo mudar de idéia.

Ele ia enfrentar os Volturi por mim.

– Não seja ridículo Alec! – Vociferou Jane. – Mesmo se ela saísse daqui com vida, você acha que ela hesitaria um só minuto em te deixar para trás? – Engoli em seco. – Acha que ela se importa com você mais do que com o próprio pescoço? Ela está te usando como escudo para sobreviver, mas nem você nem a cria nojenta de Marcus vão poder fazer alguma coisa para tirá-la das mãos de Aro. Ela vai perecer como os outros mestiços, como todas as outras aberrações que nós já erradicamos. – Eu podia sentir o ódio dela escoando pelas palavras, derramando-se como fel. Houve uma leve mudança na formação da guarda, tão sutil quanto o pouso de uma mariposa. Nós três nos olhamos, e sem precisar de palavras nos colocamos em posição de ataque. Willian encabeçando o triângulo, Alec à minha esquerda. Esperamos algum tempo. Jane estava ficando inquieta, ao contrário de Demetri que nem ao mesmo se movera uma polegada desde que chegara. Percebi que na superfície ventava muito. Rajadas de vento varriam os corredores úmidos do castelo. E os segundos se arrastavam lentamente…

– Pense bem no que vai fazer Jane. Se passar por essa porta não terá mais volta. – Falou Alec, a voz suave prolongando cada palavra como uma melodia.

– O que vai fazer Alec? – Desafiou Jane. – Vai me matar? Me mataria por ela? Você morreria por ela Alec? – E a última pergunta soou como uma maldição, a voz infantil de Jane se alterando à medida que seu ódio transbordava. Eu não queria mais ouvir nada daquilo. Eles falavam de mim como se eu não estivesse alí, presenciando aquela cena grotesca. E acima de tudo, eu não queria saber a resposta de Alec, não queria ouvi-lo dizer o que eu já tinha visto nos olhos dele, o que o condenaria junto comigo.

– S…

– Parem! – Intervi. Minha voz soou firme no silêncio soturno. Alec me olhou apreensivo, Willian sustentava minha posição com uma postura que dizia que ele concordava comigo. Avancei alguns passos na escuridão, de modo que, se esticasse meu braço, eu tocaria a superfície polida da porta. Do outro lado eu podia sentir a respiração de Jane, lufadas ásperas e ruidosas. Senti o cheiro de Demetri e mais uma dúzia de outros cheiros.

– Jane, eu quero negociar. – Murmurei num tom amigável. Uma risada de escárnio soou rouca do lado de fora.

– Ness… – A voz de Alec veio como uma súplica, leve e delicada ela pousou em meus ouvidos.

– Tudo bem. – Sussurrei sem olhá-lo. Mesmo de costas eu podia adivinhar a expressão no rosto dele, podia ver o brilho fosco que se acendeu em seu olhos. Esperei, enquanto as batidas do meu coração aceleravam-se eu tentava pensar em algo convincente o bastante para fazê-la me ouvir.

– Negociar… – Ela debochou. – Acha que Aro vai te dar mais uma chance de nos trair? Acha que vamos te dar algo? Está se iludindo mestiça, você vai morrer e isso não está aberto para negociação. – Eu podia sentir o prazer que ela sentia ao dizer aquelas palavras, mas ela estava errada. Eu não queria negociar minha vida ou minha liberdade…

– Não é isso que quero. – O que eu queria então? Em minha mente, em meu coração, em qualquer parte que eu olhasse, só havia uma resposta. – Quero que deixem Alec em paz, deixem-no seguir o caminho dele. Como você mesmo supõe, a culpa de tudo isso é minha. Eu o influenciei, eu o persuadi a me ajudar, mas agora não importa mais não é? Se eu morrer aqui hoje está tudo acabado, você terá seu irmão de volta. Mas faça esse favor a ele, deixe-o sair daqui, deixe-o partir para onde quer que ele queira ir. – Ninguém se moveu, ninguém falou. Eu continuei, sentindo o peso das verdades em minhas palavras, descobrindo-as no mesmo instante em que as pronunciava.

– Sinceramente eu não acho que isso tudo terminará com minha morte. Willian cumpriu a promessa dele, fez o serviço, deixem-no ir também, dêem a ele a humana e deixem-no ir. Quanto à Alice, bem, sinto lhes dizer que infelizmente não fomos nós quem conseguiu libertá-la, mas estou feliz por isso. – Sorri comigo mesma ao lembrar de Alice, e imaginei por um momento que Jasper a levava para longe daqui, para um lugar onde toda nossa família a aguardava em segurança. Esse pensamento fez meu peito esquentar e uma onda de esperança inundou minha mente, irrigando cada poro de meu corpo. Aquela sensação dizia algo como: eles não vão se dar bem!

– E Jane… Dê um recado a Aro por mim. Diga-o para se preparar. Minha família não vai deixar isso barato. Podem se passar mil anos, os Cullen ainda estarão aqui para ferrar com vocês – Meu sorriso se alargou, tomando proporções maldosas em meu rosto. Aquela idéia me confortava muito. Do outro lado da porta, eu ouvia a respiração de Jane acelerar, Willian riu baixinho a meu lado e logo aquela sensação inflamou em nós. Rimos como há muito não fazíamos.

Eu sentia os músculos de meu abdômen contrair e o som de nossas risadas pareciam música para meus ouvidos. Olhei para Willian, que ria largamente batendo palmas ritmadas, os dentes brancos expostos numa fileira impecável e brilhante, o rosto juvenil iluminava-se com aquele sorriso, ele ficava ainda mais belo. Alec era mais discreto, o som de sua risada era mais contido, mas igualmente delicioso. Me entrenti tão profundamente com aquele momento que nem quis dar importância para o estrondo seco que explodiu bem atrás de mim. Foi só quando senti minha garganta ser esmagada que me dei conta do que acontecera.

O braço pálido de Jane atravessou a porta, abrindo uma fenda na madeira maciça. Os dedos finos e delicados apertavam meu pescoço com uma força surreal, a pele dela era tão fria e rígida quanto um bastão de beisebol feito de gelo. Agarrei o pulso dela com as duas mãos e forcei para longe de mim, aplicando toda força que eu consegui reunir.

A nossa volta havia um tumulto barulhento, mas eu só podia distinguir borrões. Tudo diminuiu, empalideceu, eu só podia ouvir zumbidos, só conseguia sentir a força sobrenatural envolvendo meu pescoço. Estreitei ainda mais meu aperto, e aos poucos, cedendo de uma forma grotesca, a mão de Jane foi escorregando por minha pele latejante. Quando finalmente me livrei do aperto de aço, uma força maciça me lançou na parede oposta, os restos da madeira da porta quebraram-se junto às pedras, as farpas entrelaçaram-se em meus cabelos, em minhas roupas. Minhas costas chocaram-se contra a pedra num baque seco, formando rachaduras na parede.

Arfei com a falta de ar em meus pulmões. Num soluço sufocante eu fui erguida do chão novamente, porém, outro par de mãos me sufocavam agora. Olhei nos olhos do vampiro que me prendia contra a parede. Eu desconhecia aquele rosto, embora os membros da guarda sempre me parecessem iguais, aquele ali era absolutamente distinto. O rosto pálido de expressões fortes me encarava com um olhar penetrante e impassível. A mão grande e gelada rodeou meu pescoço quase completamente, levantando-me uns bons cinqüenta centímetros do chão. Meus pés balançavam inertes, como uma boneca de trapos, meus pulmões ardiam. Por sobre os ombros largos de meu sufocador, eu pude ver a figura infantil de Jane. Ela me encarava triunfante enquanto eu sufocava. Atrás de Jane, uma pilha de pedras e poeira se estendia pelo chão, entre os borrões e vultos que passavam por meus olhos, eu não pude distinguir Willian ou Alec, mas eu sabia que eles estavam lutando nesse exato momento. Havia destruição por toda parte, a nuvem de poeira envolvia os destroços como uma manta.

Jane se aproximou, passo a passo eu acompanhei a caminhada dela até mim e eu sabia que aquela era a hora de minha morte. Embora soubesse disso, eu não conseguia sentir medo ou nenhum tipo de sentimento ruim, eu estava apenas presenciando, assistindo pacientemente o desenrolar daquela cena. Minha mente tornava-se mais confusa a cada segundo, eu via coisas estranhas, coisas que não estavam ali. Era como um sonho dentro de um pesadelo, haviam relógios, haviam túneis e torres… E então Jane falava:

– Não a solte Santiago. Quero terminar isso sem pressa já que meu irmão não vai deixar eu terminar do meu jeito. – A voz dela estava distante. Outras vozes me chegavam mais nítidas, e falavam todas juntas, eu já não podia entender nada do que diziam, e novamente eu via a torre, uma fonte jorrando um líquido vermelho escuro, e sinos… Sinos que repetiam-se alternadamente no ritmo fraco do meu coração, e em seguida eram levados para longe, por aqueles túneis escuros que serpenteavam em minha mente. Eu fui me deixando embalar por todas aquelas sensações aterrorizantes e confusas até que um clarão repentino incidiu em algum lugar em minha mente. Uma lâmpada que se acendia, uma chama pálida alimentada pelas imagens que penetravam minhas memórias, e novamente eu senti a sensação atordoante que sempre vinha acompanhada dessas visões enigmáticas, novamente foi desorientador como da primeira vez, há muito tempo atrás, quando Jake teve que me arrastar para fora da sala de aula. Aquela sensação quente palpitava em minhas têmporas, e diante de meus olhos estagnados eu via tudo que Zafrina queria me mostrar.

Túneis. Novamente os túneis, eles estavam por toda parte, cortando o castelo ao meio, de leste a oeste, norte e sul. A imagem se acelerava num percurso retilíneo entre os corredores escuros e úmidos que eu já vira e percorrera tantas vezes nesse castelo. Porém aquele me parecia diferente, algo na formação das pedras das paredes, na altura do teto… As imagens se embaralhavam numa seqüência sem coesão, caótica e atemporal. Meus olhos entravam e saíam de foco, ora eu via o rosto lânguido de Jane balbuciando desaforos dos quais eu não entendia uma só palavra, ora eu voltava às visões incoerentes de Zafrina.

Santiago – ou assim ele parecia se chamar – continuava pressionando minha garganta contra a parede, e por mais que eu lutasse, eu nada conseguia produzir naquele ser imóvel e colossal. Então vieram os sinos e logo os ponteiros do relógio de uma torre marcaram nove horas, uma, duas, três badaladas ressoaram em meus ouvidos, como se eu mesma tivesse sido transportada para torre que via em minha mente. Entrementes, Jane aproximou-se, de modo que seu rosto pequeno de feições miúdas pairou ao lado do ombro esquerdo de Santiago, ela me olhou de baixo e balbuciou alguma coisa ininteligível. Eu não podia ouvi-la, pois só conseguia ouvir os sinos daquela catedral soarem de novo e de novo.

Fechei meus olhos, meu corpo estava mole, meus pulmões completamente sem ar. Vi, por uma ultima vez a fonte jorrar algo que parecia ser sangue, inundando os paralelepípedos e tingindo-os de carmim, e então eu entendi que lugar era aquele, e por mais que eu não entendesse o por quê Zafrina me queria lá, eu desejava poder acatar seu pedido. Mas eu estava perdendo as forças e Jane não esperaria mais. Eu iria morrer!

Meus ouvidos captaram o eco da ordem dela para Santiago:

– Mate-a!

Imediatamente o aperto se intensificou, senti o sangue pulsar em minhas têmporas. Tive o capricho de manter meus olhos abertos, eu queria morrer olhando nos olhos de Jane para que eu me lembrasse, para onde quer que minha alma fosse, da pessoa que ordenou minha morte.

Eu estava concentrada nisso, nesse pequeno último projeto, quando algo estranho aconteceu. Santiago estremeceu, a mão que me mantinha suspensa vacilou. Olhei para ele, estava lívido. Quando baixei meus olhos para o peito robusto de Santiago, eu vi uma mão atravessada bem no meio do coração. O punho adentrou a caixa toráxica até quase me alcançar. Jane encarava a cena imóvel, sem reação nem expressão. Com um estampido metálico a mão retrocedeu na fissura, Santiago me largou no chão e foi de lá que eu assisti Alec arrancar a cabeça do vampiro e arremessá-la numa pira que queimava um amontoado de membros irreconhecíveis. O restante da cena passou-se como um slow motion em preto e branco. Jane gritou, o som cortou meus tímpanos como agulhas. Alec veio até mim, ergueu-me nos braços e já começava a contornar as pilhas de escombros e de fogo quando Willian, ainda mais rasgado e sujo, estancou em nossa frente. Jane gritava, amaldiçoava o irmão, eu não entendia a reação dela, talvez ela e Santiago tivessem algo mais que apenas a relação de patroa e subordinado.

– Aro mandou reforços. Não vão nos deixar sair. – Ouvi Willian dizer. Eu respirava com dificuldade após ficar tanto tempo sem ar, ainda não entendia bem o que estava acontecendo. Enquanto Alec e Willian discutiam algum plano improvisado, eu olhei em volta, até onde os braços de Alec me deixavam ir, e percebi pela primeira vez as proporções da luta que foi travada ali. Estava tudo destruído, as paredes estavam derrubadas, havia pedras atravancando o chão por toda parte. Apenas a parede norte ainda permanecia parcialmente inteira. Num canto obscurecido pelas sombras das tochas do corredor sul, havia uma fissura de trinta centímetros. O ar corria livre por ali.

Forcei minha vista até as reentrâncias do buraco e com um espanto mudo eu percebi que logo atrás daquela parede, estava o túnel que Zafrina me mostrara em suas visões borradas. Ele estendia-se em linha reta, até se perder na escuridão. Estreito, de estrutura baixa e levemente inclinada para cima, o chão de terra batida, as pedras grandes recobriam as paredes, um túnel medieval em meio a toda sofisticação moderna do palácio Volturi. Tinha que ser aquele túnel…

– …então vamos lutar! – Dizia Willian, impetuosamente.

– Eles são muitos Willian, não vamos dar conta. Não posso lutar e manter os olho nela ao mesmo tempo. – Rebateu Alec, preocupado e tenso.

– Então o quê, vamos fugir? E Jane? Ela está estranha, vamos deixá-la aqui? – Willian bombardeava Alec com perguntas irrefreáveis, os olhos varrendo toda a extensão do corredor que se estendia a nossa frente, por onde mais e mais guardas Volturi estavam vindo, diretamente para nós.

– Eu não sei, eu…

– Alec, me ponha no chão. – Resmunguei ainda desorientada. Ele me obedeceu, eu dei meia volta, passei por Jane, imóvel e ofegante, olhando para a pilha de membros de Santiago que queimava em meio aos escombros. Ela nem mesmo me notou, olhei-a por um segundo e senti uma pontada de pena daquela mulher, mas eu não tinha tempo para me compadecer nem mesmo de minha própria situação.

Reuni o restante de todas as forças que me restaram e esmurrei a parede dos fundos no ponto em que ela estava mais vulnerável. Com o pouco de força que me restava, eu consegui abrir um buraco de aproximadamente um metro e meio. Ofeguei.

– Vamos! – Gritei para eles. Ambos olhavam-me sem nada entender. Atrás deles o zumbido veloz tornava-se cada vez mais próximo. – Andem, mexam-se.

Willian me seguiu primeiro, enquanto Alec aproximava-se receoso. Ele olhava para Jane com um olhar torturado. Alec parou diante da irmã, e agachou-se, tocando-a levemente no ombro. Eu passei pelo buraco com Willian em meus calcanhares. De dentro do corredor frio e estreito eu observei Alec beijar a testa de Jane e em seguida adentrar no buraco que nos levaria para algum lugar que eu desconhecia por completo. Jane permaneceu imóvel, sozinha entre os destroços que cheiravam a mofo e morte. Olhei para Alec, ele me devolve um olhar melancólico, Willian já avançava pelo túnel estreito.

– Ela vai ficar bem? Podemos levá-la conosco. – Falei. Alec me olhou, depois baixou a cabeça e começou a andar, seguindo os passos ligeiros de Willian.

– Ela vai ficar bem sem mim, é a preferida de Aro. – E continuou andando. Olhei para trás uma última vez. O fogo já alcançava o teto, bloqueando parcialmente o que sobrou da porta de entrada. A silhueta de Jane foi ficando cada vez mais longe, ofuscada pelo brilho fustigante da pira.

Virei-me em direção ao desconhecido, mais uma vez eu só podia contar com aqueles dois. Secretamente pedi ajuda a Zafrina, eu precisava que ela me guiasse como havia me guiado até ali, por quê eu não tinha idéia de onde estava indo. Lá atrás, o som de passos e vozes invadiram o espaço sufocante. Willian e Alec estavam alguns metros à frente, caminhavam calados, presos em suas próprias considerações. Enquanto os seguia, eu ia pensando, ia respirando o ar gelado que vinha de encontro à nós, e então eu ouvi algumas vozes, mas talvez eu só estive imaginando. Elas diziam:

– Jane, Jane… Venha, Aro precisa de você. O castelo foi invadido.

 

 

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4 opiniões sobre “Rising Sun cap 31 Cinzas”

  1. uou is very cool

  2. Gessica sousa disse:

    Cada cap q passa fik mais emocionante

  3. Pox, ela devia dar uma chançe pro Alec, a situação dele e de partir o coração!!

  4. Vivian P. Freitas disse:

    Posso definir em uma palavra…
    Amei!!!!!

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