Rising Sun cap 32 O Destino dos Gêmeos


Cap 32 O Destino Dos Gêmeos

Jane

Alec me beijou na testa, delicado como sempre fora. Aquele beijo me fez lembrar do garotinho magricela que gostava de brincar com soldadinhos de madeira, enterrando-os em montinhos de terra feitos no chão de nossa casa. Sempre nos beijávamos na testa quando víamos o outro sofrer, era a maneira secreta que escolhemos para dizer um ao outro: está tudo bem, eu sempre estarei aqui por você. Mas isso não era mais verdade, ele me abandonou, de todas as pessoas nesse mundo de humanos idiotas, Alec sempre foi a única pessoa que eu jamais pensei que me deixaria. Desde sempre fomos apenas nós. O mundo nos abandonou. Felizmente, dos dias obscuros em que eu ainda era um ser fraco e inútil, eu pouco me lembro.

Lembro-me da pobreza, da miséria que nos rodeava e na qual nascemos e fomos criados. Lembro-me da pobre mulher que nos deu a luz. Ela vendia chás e remédios caseiros para as mulheres do vilarejo, ás vezes trocava seus serviços de vidente por comida, qualquer coisa que pudesse empurrar goela abaixo de seus gêmeos sem pai. Mas não há muito de que eu me lembre sobre ela, nem mesmo seu nome ou seu rosto sobreviveram ao tempo e aos séculos que já vivi. Mas há uma coisa que eu jamais esquecerei, algo que regeu minha vida desde o primeiro momento de minha imortalidade, o dia em que Aro me deu forças para vencer todo o sofrimento pelo qual eu e meu irmão fomos obrigados a passar.

Essa lembrança, essa única e derradeira lembrança, sobreviveu em mim como uma chama, consumindo constantemente partes infindáveis de mim. Um ódio maciço por tudo que é fraco e inferior, como a raça humana. Baratas nojentas que se proliferam na ignorância, chafurdando em prazeres fúteis e mentalidades retardadas. Eles não entendem nada, nunca entenderam… Nem quase duzentos mil anos foram suficientes para que essa espécie evoluísse, e nesses três séculos que tenho vivido, eles apenas deram voltas ao redor de seus próprios pés. Eu me lembrarei por todos os anos que eu viver do quão podre a raça humana é, e das coisas hediondas que são capazes de fazer, como queimar mulheres e crianças na fogueira, acusando-as de bruxaria e pactos com demônios imaginados por suas mentes pequenas. Pois bem, eu sobrevivi à fogueira, e me tornei o verdadeiro demônio que eles tanto temem. Hoje eu me alimento do sangue deles, a única coisa valiosa dentro de seus corpos frágeis. De qualquer forma, de uma coisa eles tinham razão. Deviam ter me queimado naquela fogueira maldita, por que hoje, quem os queima sou eu.

Aro sempre disse que eu era única, uma jóia preciosa em meio a pedras falsamente brilhantes. Ele ensinou à mim e a meu irmão tudo que precisávamos saber para sobreviver nesse mundo de feras, onde as ovelhas governam e onde seres como nós, têm que viver nas sombras de suas superstições e mitos. E eu aprendi tudo. Eu bebia as palavras de Aro como hoje bebo o sangue quente e viscoso de algum pobre mortal. Sentia-me profundamente feliz com o encantamento que via jorrar dos olhos dele toda vez que olhava para mim e para Alec, um júbilo de pai, de tutor, de mestre…

Não tínhamos nem bem feito dezessete anos quando Aro nos mudou. Foi preciso adiantar nossa transformação, os tempos eram difíceis naquela época, e Aro precisava de nós para triunfar sobre o governo ineficaz de Marcus e as atrocidades de seu filho bastardo, Willian. Quando Dídime foi assassinada pelo bastardinho, eu e Alec tínhamos pouco menos de um ano de imortalidade e mesmo tão inexperientes, fomos decisivos para a tomada do poder das mãos fracas de Marcus. Aro ficou extasiado com nosso poder, ainda mais satisfeito do que ficara na primeira vez que nos viu, ainda frágeis crianças órfãs, em nosso vilarejo longínquo, onde castigávamos as crianças que não nos deixavam brincar de pique – esconde e onde, ás vezes, fazíamos truques para impressionar turistas em troca de alguma guloseima. Foi assim que Aro nos conheceu…

Ele passava com a comitiva Volturi por um caminho tortuoso, quando eu e Alec atravessamos na frente dos cavalos, correndo desesperados dos garotos que queriam nos apedrejar. Uma das pedras acertou minha testa de raspão, abrindo um corte dolorido em minha pele. Alec ficou furioso. Ele se voltou contra os meninos e os encarou com os olhinhos azuis fulminantes de ódio. Um a um os garotos caíam na grama, rolavam e gritavam com as mãos nos olhos, inertes e desesperados. Os poderes de Alec nunca tinham se manifestado daquela forma tão maciça e raivosa. Em geral eram truques bobos e na maioria das vezes era preciso que ele tocasse as pessoas para fazê-las ter rápidos lapsos de visão ou uma surdez momentânea, mas naquele dia, tomado de raiva e desejo de vingança, Alec manifestou um poder grandioso.

E Aro assistiu a tudo, e quando Alec liberou os garotos que correram desesperados de volta a vila, Aro veio até nós, e o interesse súbito de um nobre por duas crianças órfãs e sujas como nós, nos conquistou de imediato, nós que sempre fomos visto como lixo.

Naquela tarde, Aro dispensou a guarda, não queria que ninguém soubesse sobre nós. Ele nos levou em seu cavalo até uma bela clareira próxima ao rio, onde havia uma cabana grande e aconchegante, a mais luxuosa que já tínhamos colocado nossos pés descalços. Ele nos alimentou com todo tipo de frutas e pães que mandou trazer da vila, nos vestiu com roupas quentes e disse-nos que ele cuidaria de nós daquele dia em diante. Eu estava tão contente, jamais em minha vida eu me senti tão importante para alguém, tão bem cuidada. Alec fez várias perguntas à Aro, perguntas insolentes e desconfiadas que não alteraram em nada o humor ou a paciência infindável de Aro conosco. Ele perguntava: “por que está fazendo isso? Por quê está nos ajudando?” E Aro respondia pacientemente: “eu apenas desejo que tenham uma infância melhor que a minha, que cresçam saudáveis e se tornem fortes para lutar ao lado da justiça”. Alec adorou aquelas palavras, tomou-as como um mantra, achou-as sinceras e corretas e após aquele dia, seguiu os passos de Aro, tornando-se cada dia mais aplicado em seus ensinamentos.

Duas vezes por semana, Aro ia nos ver, levava-nos presentes, livros, doces que nunca havíamos experimentado, roupas e calçados de fidalgos. Eu esperava a semana toda por ele, contando os dias secretamente.

Tínhamos aulas com professores de diversas matérias nos dias em que ele não vinha, Alec aprendeu muitas lutas, história e política, eu aprendi várias línguas, filosofia, artes… Havia ainda um professor bem peculiar, vindo especialmente do castelo Volturi para nos ensinar a usar e expandir nossos poderes. Ficávamos entretidos em todas essas atividades a maior parte do tempo, e nas horas restantes, quando Alec perdia-se nos livros que Aro trazia para ele, eu ficava só, com meus vestidos dos mais caros tecidos italianos, meus sapatos brilhantes, minhas jóias e fitas de cetim.

Os anos passaram-se depressa, e Alec continuava com suas perguntas intermináveis que sempre tinham um tom de desconfiança. Eu tinha tanto medo que Aro se aborrecesse conosco, que se fatigasse de nós… Mas ele apenas sorria para Alec e respondia qualquer pergunta com naturalidade e atenção. Lembro-me do dia em que Alec o questionou sobre seus olhos, aquilo era um tabu para nós dois, algo que eu não ousava verbalizar, mas Alec certa vez o fez: “Por que tens olhos vermelhos senhor?” Perguntou ele, encarando Aro como se procurasse por um segredo sombrio. Aro então respondeu: “Meus olhos são a marca da minha força, do meu propósito nessa terra. Quando cresceres jovem Alec, também terás olhos como os meus, tu e a adorável Jane.” E sorria, derramando-se em júbilo sobre nós. Eu o sorria de volta e Alec insistia: “E por que nunca ceia conosco senhor?” Eu envergonhava-me com as perguntas dele, Aro dizia: “Já lhe disse, sou diferente de vocês. Mas um dia seremos todos iguais, e viveremos muitos e muitos anos em meu castelo.” Eu sempre quis conhecer o castelo, mas Aro nunca nos levava até lá. Alec o questionou sobre isso também, muitas vezes, mas Aro nos manteve longe do castelo e dos Volturi até os quinze anos. Foi na noite do nosso décimo sétimo aniversário, quando Alec já era um homenzinho feito, e eu, uma jovem esguia e bem educada, que soubemos a verdade sobre nosso tutor. Aro mandou preparar uma ceia farta, nos mandou vestir nossos melhores trajes, e então chegou após o pôr do sol, com sua capa preta esvoaçando na brisa daquela noite de primavera. Quando ele terminou seu discurso, Alec e eu estávamos imóveis, estupefatos.

Bem, naquela noite eu soube para quê havia nascido, eu descobri minha verdadeira vocação e meu inevitável destino nas palavras complexas de Aro. Mas Alec… Meu irmão sempre teve dúvidas sobre nossa natureza. Ele não entendia por que tínhamos poderes, não entendia seu próprio dom, desprezava nosso potencial, não queria explorá-lo. No fundo, Alec sempre quis ser apenas humano, e eu nunca fui capaz de entender isso, por que como humanos nós só tínhamos a miséria e a rejeição por onde quer que passássemos.

Naquela mesma época, os rumores sobre nossa localização já espalhava-se pelo vilarejo. Todos falavam sobre os gêmeos da bruxa, que sobreviviam aos cuidados de um nobre italiano que fez pacto com o demônio. Não demorou muito para quê alguns camponeses supersticiosos encontrassem nossa cabana na floresta, e, algumas noites após a revelação de Aro, nossa casa foi invadida pelos aldeões.

Eu fui arrastada pelos cabelos, minhas roupas finas rasgaram-se na relva alta da floresta. Eu gritava por Alec, mas em meio ao tumulto eu não conseguia encontrá-lo. Acima dos ombros e braços que me carregavam, eu vi nossa cabana queimando. Eu iria morrer antes de receber a imortalidade do meu bondoso senhor, eu iria para fogueira como minha mãe fora anos antes, eu seria queimada viva por causa da ignorância daquele povo miserável. Eu ardia por dentro de medo e ódio, e a minha volta, dezenas de aldeões eram lançados ao chão em convulsões febris. Eles gritavam: “É a bruxa, ela está nos enfeitiçando, queimem-na!” Eu os teria liquidado se fosse capaz de fazer o que faço hoje, mas em minha forma humana, eu não podia fazer muito com meus poderes.

Na praça central havia dois mastros, rodeados por palhas secas e galhos retorcidos. Quando olhei em volta, Alec já estava sendo amarrado na pira, gritei com todas as minhas forças. Alec chutava e esmurrava, mas eram tantos… Fui amarrada também, meus pulsos delicados foram presos bruscamente ao redor do mastro, meus cabelos dourados grudavam-se nas lágrimas amargas que rolavam por meu rosto. Eles gritavam: “Queimem, queimem! Façam os bruxos arder no fogo da justiça divina.” O vilarejo inteiro esperava, os aldeões, ansiosos com o evento especial, gritavam ensandecidos, sorriam satisfeitos diante da nossa morte. Eu não conseguia mais raciocinar, virei meu rosto para Alec, a única família que eu tinha, e ele me olhou também. Naquele momento eu vi nos olhos dele tantas coisas… Eu vi a dor, inúmeras lacunas que jamais foram ou seriam preenchidas, um vazio profundo e desesperado, eu vi que ele não temia a morte, não tanto quanto eu.

Havia paz e quietude nos olhos de meu irmão aquela noite, uma esperança ingênua em algo desconhecido, algo que eu não conseguia compreender de dentro de meu ódio e desprezo por aquelas pessoas. Alec perdoava aqueles vermes que estavam prestes a nos queimar vivos! E isso foi algo que eu nunca esqueci, algo que eu nunca aceitei em meu irmão.

Mesmo depois de Aro nos salvar da fogueira, mesmo anos após nossa transformação, eu nunca fui capaz de digerir essa indolência de Alec com os humanos. Aquele respeito por existências inferiores era incompreensível para mim, como ainda hoje é.

*

Todas aquelas memórias passaram diante de meus olhos como se tivessem sido despertas pelo fogo que ardia a minha volta, consumindo os restos de tudo que encontrava. Era novamente como as chamas que um dia, há muitos anos atrás, quase me consumiram também. Era novamente minha fogueira, dessa vez acesa por meu próprio irmão.

Eu odeio o fogo, odeio o calor e a luminosidade resplandecente, a forma como se alastra, como consome tudo que é vivo e morto, inclusive nós. Santiago agora era apenas cinzas, toda complexidade de um ser de duzentos anos se perdeu em um único estalar de membros e chamas. Eu o perdera também, o único ser que se importava comigo fora reduzido a cinzas pela única pessoa com a qual eu me importava. Alec, o que você fez meu irmão?

– Jane, Jane… – Alguém chamava meu nome, mas eu não conseguia encontrar a voz, estava tão distante… Em minha mente, duas crianças vestindo trapos vagavam por um vilarejo pobre e distante, as pessoas os evitavam, olhavam-nos com desprezo…

– Jane, Jane… Aro precisa de você. – Aro, tão poderoso e magnífico em seu cavalo, os cabelos negros como a noite, a capa esvoaçando pelo vento, ele parecia ter azas, parecia um anjo… Eu não conseguia desviar meus olhos daquela imagem distante, daquele passado tão remoto e empalidecido pelos anos, no entanto agora, eu os via tão claros, tão vívidos.

– Jane, você precisa vir… Aro precisa de você, Jane. O castelo… – Lembrei-me do dia em que Aro nos trouxe para viver no castelo. Um mundo subterrâneo de ouro, prata e mármore polido. Lembro-me do êxtase que senti, da satisfação de sentir o cheiro fresco das flores e dos tecidos das roupas daqueles seres tão pálidos e esguios. Tanta beleza, tanta riqueza de detalhes, e meus novos olhos não perdiam nada.

– Os Cullen, Jane… Eles invadiram Volterra! – A voz agora gritava, mãos firmes me sacudiam pelos ombros. As lembranças oscilavam diante de meus olhos, eu as estava perdendo, elas esvaiam-se de minha mente como água que escoa pelas fendas do chão.

O rosto pálido ganhou foco, as íris vermelhas faiscaram em meu rosto. Eu acordei.

– O quê? – Disse fracamente.

– Aro mandou lhe procurar, alguma coisa está acontecendo. A cidade foi evacuada sem que percebêssemos, Demetri detectou o cheiro deles em Volterra e acabamos de descobrir que a parte norte do castelo foi invadida, foi assim que conseguiram levar a vidente. – O jovem vampiro balbuciava as palavras nervosamente, eu podia ver o pânico crescendo em seus olhos, e o pavor que sentia em estar tão próximo à pira que ainda queimava seus companheiros.

Os jovens… Eles são tão volúveis e fracos. De fato Alec tinha razão em contestar a decisão de Aro em fazer mais vampiros para a guarda. Era estupidez, mas eu jamais desobedeceria uma ordem de Aro, mesmo que se tratasse de algo estúpido como transformar humanos normais em peças descartáveis para a guarda, mera distração, números…

– JANE! – Ele desesperava-se.

– Eu já ouvi! – Grunhi de volta. Ele afastou-se.

Relutante, sentindo um peso insuportável sobre meus ombros, eu me coloquei de pé. Olhei para o buraco aberto na parede a meu lado, onde em algum lugar na escuridão, Alec percorria seu caminho para longe de mim. Eu ainda me sentia incrédula com meu irmão, mesmo depois de tantos anos servindo fielmente os Volturi e Aro, ele simplesmente virou-se para longe de nós, como se um raio o tivesse atingido na cabeça, como se algo estivesse possuindo seu corpo e sua mente. Mas eu sabia o que era, sabia qual era o motivo dessa reviravolta na vida de meu irmão. A mestiça. A monstruosidade que aquela humana colocou no mundo, misturando nossa espécie com algo tão inferior…

Ela acordou alguma coisa nele, alguma coisa que deveria ter ficado enterrado, algo que nunca deveria ter vindo à tona.

A lembrança daquela “família” fez meu estômago retesar. Toda desgraça que agora ameaçava minha casa e minha família era por conta deles. Tudo por causa de uma humana enxerida que sabia demais, tudo por causa de um vampiro idiota amante de humanos, alimentando-se de animais como ratos, aliando-se a monstros fétidos, eles me enojavam.

Encarei o rosto magro e assustado do vampiro à minha frente, ele e os outros cinco que o aguardavam em silêncio encaravam-me aturdidos, esperando que eu lhes desse uma resposta salvadora, que eu os liderasse como sempre o fizera, como meu irmão um dia tinha feito.

– Onde está Demetri? Ele deveria estar liderando agora que… – Respirei fundo. Alec nunca mais lideraria nossa comitiva. Eu estava sem tempo, sem reforços, ótima hora para Félix e Heidi morrerem, hora perfeita para Alec bancar o Romeu. Merda! – Vamos! – Ordenei.

– Dêem um jeito nessa bagunça, apaguem a droga desse fogo, será que vocês vão deixar ele se alastrar para todo castelo? Movam-se. – A minha volta os vampiros moviam-se ligeiros para cumprir minhas ordens. Olhei mais uma vez para o buraco na parede, e tomando uma decisão definitiva, virei-me para um dos jovens guardas e disse:

– Encontre Demetri, diga-o que Willian, a mestiça e Alec fugiram pelos túneis secretos. Mande-o atrás deles, e diga-o que isso é uma ordem minha. – O vampiro aquiesceu, em seguida retirou-se como um vulto pelo corredor destruído que se estendia a minha frente. A sorte de Alec estava lançada, eu não poderia fazer mais nada por ele. Daqui em diante nossos caminhos tomavam rumos completamente distintos.

– O restante de vocês vem comigo. Vamos. – E eu não olhei mais para trás. Eu tinha um propósito novamente, e ele aguardava-me na superfície, espreitava-me nas sombras. Eu não fui capaz de salvar meu irmão do destino miserável que ele escolheu, mas eu iria destruir toda aquela família de vermes que ameaçava apodrecer nossa bela e milenar macieira. Ao lado de Aro eu iria me vingar por terem me tirado meu único irmão. A mestiça iria pagar caro por isso.

Enquanto eu percorria as reentrâncias do castelo em direção a sala do trono, mais e mais coisas passavam por minha mente. Um amontoado de lembranças que emergiam do fundo de minha memória sem que eu pudesse contê-las, eu não sabia por que estava lembrando daquelas coisas, dias tão remotos e nebulosos, ainda mais enfraquecidos pela imortalidade que sempre fora minha condição única. Porém essas imagens insistiam em se acender em minha mente, como se algum interruptor tivesse sido ligado, como se o lodo no qual eu as tinha afogado todos esses anos de repente escoasse para algum outro lugar.

Às minhas costas, os três vampiros remanescentes seguiam-me como sombras sem rosto, em todos os lugares podia-se ouvir o tumulto de passos apressados, indo em todas as direções, balbuciando ordens e traçando estratégias. Cruzamos a porta central, toda a corte estava reunida lá. Os anciões, uma parcela da guarda, os conselheiros, as rainhas e Aro.

Sentado em seu trono, alheio a toda movimentação fervorosa que se desencadeava a seu redor, Aro ponderava em silêncio, as mãos juntas sobre o queixo, os dedos longos entrelaçados, os cotovelos apoiados na madeira polida de seu trono… Os olhos dele estavam distantes, perdidos em algum lugar longe daquela nave tumultuada, entretanto, ganharam foco quando me encontraram, cruzando as portas dublas. Aqueles olhos prenderam-se em mim como feixes de luz negra, varrendo cada centímetro de meu ser, buscando cada grama de minha memória, testando meu humor. Aro sempre olhou Alec e eu desse jeito, mesmo depois de nos tocar inúmeras vezes durante o dia, de experimentar cada pensamento de nossas mentes, de novo e de novo, ele nunca deixou de nos lançar esses olhares perscrutadores.

– Meu senhor. – Cumprimentei com uma reverência sutil. Ele desviou os olhos de mim, elevando-os para o lustre de cristais que pendia majestosamente sobre nossas cabeças lançando, em algumas horas do dia, centelhas prateadas nas paredes de pedra. Ao lado de Aro, Caius e Marcus observavam a cena, e alguma coisa na expressão tensa de Caius alertou-me de que Aro devia estar muito perturbado.

– O que foi feito de seu irmão ingrato? – Perguntou-me ele num tom seco e distante, ainda evitando me olhar. Abaixei os olhos, e temendo a reação dele, respondi:

– Eles fugiram senhor. – Minha voz saiu consternada, abafada. Eu queria ter sido mais firme, queria ter mostrado mais sangue frio, mas qualquer assunto a respeito de Alec deixava-me miseravelmente vulnerável.

– Deixei-o em seus cuidados, pedi para que o fizesse enxergar a razão. Fiz como me pediu e lhe ofereci uma segunda chance, mas veja só como vocês me pagam. – Eu já não sabia se ele falava ou sibilava. A voz era tão fria e cortante que fazia cada palavra parecer uma chicotada. – Vejam só como os gêmeos que criei como meus filhos me pagam.

– Eu não sei o que deu nele Aro, ele não está em sua sã consciência. Mas eu estou aqui, do seu lado, como sempre estive, como sempre estarei. – Eu cuspia as palavras rapidamente, desesperada com aquela máscara rígida que eu via no rosto de Aro, com aquele olhar gelado e impassível com o qual ele me fitava. Aro se levantou, e lentamente, degrau por degrau, ele se aproximou de mim. Os ombros estreitos estavam moribundos, seus pés arrastavam-se suavemente no chão, ele estava mais parecido que nunca com um ancião.

Ele parou diante de mim, e suavemente, tocou meu rosto com a mão direita.

– Jane, Jane… minha pequena Jane. – Ele cantarolou.

Um bofetão estalou em meu rosto, fazendo meus cabelos soltarem-se, cobrindo minha face. Por um breve segundo, pensei ter imaginado aquilo, e embora eu não pudesse sentir dor, era como se cada fibra de meu corpo doesse. Em trezentos anos ao lado de Aro, ele nunca havia sequer me olhado com indiferença ou me dirigido uma palavra dura, mas ao que parecia, o novo Aro esbofeteava-me diante de todos pelos planos que meu irmão ajudara a falir. Eu não conseguia me mover, tal era meu espanto e humilhação.

– Essa bofetada foi para que você acorde Jane. Seu irmão nos traiu, ele te deixou, ele me deixou, ele agora está do lado dos nossos inimigos, o lado que infelizmente perecerá. – Ele sussurrava em meu ouvido como se estivesse declamando um poema. – Eu vou matar todos eles minha cara, e eu não pouparei seu irmão quando a luta começar. Ele vai morrer pelas minhas mãos, pois nunca houve um Volturi traidor e não será agora que permitirei que tal vergonha caia sobre minha casa e meu clã. – Se meu coração ainda batesse, ele estaria martelando agora. Eu sentia medo pela primeira vez em muito tempo, e o mais estranho nessa sensação era que ela vinha das palavras de Aro, meu tutor, meu mestre, meu pai, a criatura que mais admirei em toda minha vida, humana e imortal. Sentia-me fraca e humilhada, mas eu sabia que Aro tinha razão, sabia que Alec tinha ido longe demais, mas parte de mim contorcia-se com a idéia de perdê-lo, de vê-lo queimar numa pira improvisada como vira Santiago, desfazendo-se em cinzas e em fumaça negra. Eu também sabia que deveria me manter forte, que deveria recuperar minhas forças e meu ódio e usá-los contra meus inimigos. Eu sentia o ar carregado que nos envolvia naquela sala, que subitamente parecia ser tão minúscula. Reunindo toda força e autocontrole que me restavam, eu ergui minha cabeça e encarei os olhos frios de Aro. Ele sorriu-me, enternecendo o olhar como quem abre uma cortina de nuvens.

– Isso, isso minha querida… Reaja, seja forte, não lamente mais por perdas iminentes, elas vão acontecer quer queiras ou não. Há ainda uma luta que precisamos vencer e eu preciso de ti mais do que nunca. – Ele virou-se, retomando a agilidade frenética que às vezes o possuía de imediato. Parou diante de seu trono e ergueu os braços, como se quisesse abraçar a todos de uma só vez. Com um olhar indolente, incitou Caius e Marcus a levantarem-se também. Os três anciões pairaram como estátuas vivas diante de toda corte Volturi. Aro nos olhou cheio de satisfação.

– Meus queridos, eis o dia que tanto esperávamos. Finalmente poderemos terminar o que começamos há sete anos. – Todos permaneciam imóveis, escutando, desfrutando das palavras cheias de lírica que Aro nos derramava. – Esse dia será lembrado no futuro como o dia em que os justos de Volterra eliminaram a ameaça que pairava sobre nosso mundo, este, que tão desesperadamente precisa de nós, os Volturi. – Eu já presenciara tantos discursos de Aro, tantos momentos cerimoniais neste clã… Contudo, hoje havia alguma coisa que parecia soar diferente, como se algo fosse mudar nosso mundo completamente. Havia essa aura negra envolvendo todos nós, eu podia senti-la nos rostos de cada homem na guarda, que se preparava para a luta silenciosamente, como lhes foi ensinado desde o primeiro momento de imortalidade. Em cada feição pálida havia uma dúvida, um receio, pela primeira vez em séculos, os Volturi estavam sentindo algo que até então nenhum de nós jamais experimentara ou conhecera.

– Nunca houve um inimigo a nossa altura, nunca houve uma ameaça notável, temos vivido nossa eternidade limpando a bagunça de nossa pequena população, mantendo as coisas em ordem pelo bem de todos. Essa é nossa missão, nosso júbilo e também nosso carma. Governar imortais… vejam só, já houve alguma vez na história uma responsabilidade maior? Uma incumbência mais importante? – Aro sorriu, lançando de um lado a outro do salão olhares entusiasmados. Percebi que ele também sentia o peso no semblante de cada Volturi, e estava tentando desesperadamente incitar a guarda, encher-nos com sua própria paixão. Caius estava ridículo ao lado de Aro, ereto como um mastro, ele empinava o queixo para o alto numa tentativa frustrada de parecer altivo e imponente. Na verdade, por mais fraco e patético que tenha sido sua vida inteira, o mais nobre daquele trio sempre fora Marcus, o primeiro Volturi a governar nosso mundo.

– Pois bem meus caros, cumpramos hoje o que nos foi incumbido nos primórdios dos tempos, sejamos hoje o que seremos para sempre. Hoje, ergueremos nossa bandeira e deixaremos que o mundo veja nosso brasão e que o inimigo caia levando-o nos olhos, que o inimigo pereça com nosso nome nos lábios… – Não foi à toa que Aro se tornou da noite para o dia o líder do clã mais poderoso do mundo, ele sempre foi talentoso, e não apenas por causa de seus poderes psíquicos. Aro sempre teve uma estranha energia atrativa, todos que estão próximos a ele simplesmente orbitam a sua volta como se ele fosse algum tipo de esfera de calor, irradiando luz aos que vivem em meio às trevas. Uma sutil mudança ocorreu na guarda, e aos poucos, percebi que Aro estava certo em querer nos animar, afinal, agora, tratava-se de matar ou morrer, e eu certamente não morreria antes de destruir cada Cullen que ainda respirasse, especialmente Bella Swan, a maldita que acendeu o pavio dessa guerra idiota. Certamente eu teria meu momento com ela, e eu devolveria em dobro o que ela nos fez há sete anos.

– Reúnam as tropas, espalhem-se pela cidade. Protejam nossos muros. – Ordenou Aro. – É hora de lembrá-los o porquê nos chamamos Volturis.

Eu já ia me retirando em direção aos túneis com o restante da guarda, quando Aro me chamou:

– Jane. – Voltei-me para ele. – Você fica comigo, logo terá sua chance de vingança. Por ora, fique! Tenho algumas tarefas para você.

Aquiesci, dirigindo-me em passos largos até o lado de meu senhor. Quando me aproximei o bastante, Aro pegou-me num abraço apertado e paternal, afagou meus cabelos e disse em meu ouvido:

– Tudo ficará bem minha querida, minha menina. Eu vou cuidar de você como sempre cuidei, você sempre terá a mim minha pequena Jane. – Fechei meus olhos e descansei meu rosto no peito dele. Eu sentia os braços dele me rodearem e o cheiro adocicado das roupas dele penetraram em minhas narinas, eu sentia um conforto de lar, uma segurança que eu poderia encontrar apenas com ele. Me senti novamente uma garotinha órfã, desprotegida e vulnerável, completamente dependente daquele ser que me envolvia em seus braços e me fazia promessas ao pé do ouvido. Sentia-me bem novamente, amparada, como me senti na tarde em que Aro nos encontrou.

E por mais que eu desejasse não lutar contra meu irmão, por mais que eu lamentasse pelas escolhas estúpidas dele, eu não poderia abandonar Aro, não poderia trair meu clã. E eu não poderia deixar de matar todos os que ameaçassem minha família. Quem sabe quando a mestiça for reduzida a pó, Alec não volte para nós… Quem sabe?

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3 opiniões sobre “Rising Sun cap 32 O Destino dos Gêmeos”

  1. Nossa ke Jane era fria eu sabia, achei ke ela n se importava nem com o irmao dela, mas agora eu vi ke pelo menos com Alec ela se importa..

  2. Aff essa Jane é muito estranha e sem sentimentos Que horror como que ela tem um irmão tão fofo como o Alec Credo !!!!

  3. Se pudesse mostrava a Jane a forca que nossa raca tem os humanoss

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