Rising Sun Cap 27 A Droga do Relógio Não Corre


Capítulo 27.  A Droga do Relógio Não Corre…

Lago Manoucane, Québec, Canadá. 3:29 AM

Jacob
O vento frio passava por mim como um chicote, a nevasca já durava cinco horas. Eu era o único corpo quente naquela imensidão de neve e silêncio, um coração barulhento que desafiava os cinco graus negativos daquela madrugada. Eu observava em silêncio a quietude do lago de águas negras a minha frente, um espelho refletindo o céu e meu próprio rosto inexpressivo. Eu encarava o silêncio e ele me respondia.

Lá atrás, a loira psicopata murmurava desaforos para Emmet e Jasper. Como se já não fosse suficientemente incômodo ter tido que cuidar dela todo esse tempo.

Quanto mais eu pensava naquela noite, mais minha cabeça ameaçava explodir. Mesmo agora, quase um mês depois, eu ainda não compreendia muito bem o que houve. Em minha mente as coisas se embaralhavam até o ponto de não restar nada além do rosto dela. Lembro-me de estar olhando para ela, observando-a de longe explicar à eles tudo que aconteceu, e os olhinhos dela buscavam constantemente os meus, como num pedido mudo de socorro. E eu me lembro do silêncio que notei do lado de fora, um silêncio completo e maciço. Nada de insetos, de vento, nada de carros nem de pessoas. Nada de nada. E o silêncio cresceu, como uma bola invisível ele engoliu todos, um por um, e trouxe com ele uma escuridão desoladora. A última coisa que ví foi o rosto dela, perdendo o foco, se apagando, distanciando-se de mim como aquelas paisagens do deserto que somem quando a gente menos espera. Então eu explodi, deixei o fogo dominar meu corpo e expulsar de dentro de mim aquele medo que sentia de perdê-la. Eu não ouvia nem enxergava nada, mas meu faro encontrou o que minha mandíbula tanto desejava. Eu rasguei, destrocei, quebrei tudo que estava a meu alcance. Em meio ao caos, eu senti os cheiros já familiares para mim em movimento. Eles estavam lutando por suas vidas também. Lutávamos contra um inimigo invisível, mas de novo, estávamos do mesmo lado. E tão de repente quanto veio, a escuridão se foi, e levou com ela minha Nessie. Corri pela floresta a noite inteira, atrás do cheiro dela, atrás de qualquer rastro dos malditos que a levaram de mim, mas não encontrei nada que me indicasse uma direção. Nada.

Quando voltei, eu ví o doutor tentando acalmar Jasper. Alice havia sumido também. Nem tivemos tempo de pensar direito sobre aquilo tudo. Edward os ouviu chegando, e em meio aos pedaços desmembrados dos malditos que abatemos mesmo cegos e surdos, nós tentamos resistir. Lutamos mais. Eu grunhi e avancei, lutei até cada músculo do meu corpo arder em brasas. Mas eles eram muitos e a única coisa que pudemos fazer, foi justamente o que eu jurei a mim mesmo que jamais faria. Nós fugimos.

Eles nos caçaram, muitas vezes nos encurralaram e eu tive que abrir caminho a dentadas. Não sei bem como ou quando aconteceu, mas em certa parte da confusão, eu estava sozinho com a loira maluca, destroçando os últimos sanguessugas que avançavam para nós como bestas sem consciência. Nos perdemos uns dos outros, se ficássemos juntos, morreríamos todos. Cada um de nós foi para um lado, levando atrás de si um contingente de vampiros ensandecidos. Nos espalhamos, separamos o inimigo para ter uma chance de viver, mas depois disso foi difícil nos reencontrar. Não passava uma só noite na qual podíamos relaxar, nem lembro a última vez que dormi. E para piorar minha situação, a única que lutou ao meu lado foi a loira. Tivemos que ficar juntos, mesmo eu desejando correr para o lado oposto daquela louca. Corremos juntos pelas florestas geladas desse país estranho e silencioso por semanas, sempre retornando ao ponto onde nos vimos pela última vez, tentando encontrar qualquer rastro conhecido. Novamente nada.

Eu entendia o por quê os outros não podiam facilitar, afinal, não era apenas eu e Rose que estávamos atrás deles. Dessa forma, não tivemos escolha. Esconder nosso rastro se tornou cada vez mais difícil, e cada vez mais necessário para nossa sobrevivência.

Depois de semanas correndo por aquelas terras, a única coisa que eu queria era ir a La Push, mas ir até lá significava levar o perigo até meu povo. Mesmo assim, contatei o Sam. Deixei-o em alerta máximo, pronto para luta. Sam me prometeu procurar por ela, mas eu fui obrigado a pedir a ele que não fosse muito além com sua busca. Proteger a tribo era o trabalho dele. Protegê-la era o meu, e eu tinha falhado.

Durante aqueles dias em que estive constantemente em movimento, as vezes fugindo, as vezes lutando, eu pensava nela. E se não fosse unicamente por ela, bem, eu sei que teria desistido. Eu odiava admitir, mas a loira estava sofrendo tanto quanto eu. Nenhum de nós conseguia explicar o que havia acontecido, mas ambos concordamos em uma coisa: aquele ataque, aquela investida invisível que sofremos, foi unicamente para levar Alice e Nessie, e se meu faro não estava gozando com minha cara, eu podia jurar que, um dos cheiros que senti em meio a zona de sanguessugas aquela noite, era daquele Volturi metidinho. O irmão daquela anã que parecia ter um limão atravessado na garganta o tempo todo, sempre torcendo o nariz pra tudo. Se tem uma coisa em que confio nessa minha merda de vida, é no meu faro. Rose concordou comigo sobre isso, disse que fazia sentido, já que o talzinho podia acabar com todos os nossos sentidos, e que estava impressionada que meu cérebro ainda servisse para alguma coisa. Aquela ingrata ainda tinha moral de tirar com minha cara, depois de tantas vezes que salvei o traseiro belo e imortal dela. Foi um alívio quando, duas semanas depois, nós encontramos Jasper e Emmet nos arredores de Québec. Finalmente eu estava a salvo da companhia desagradável daquela reclamona. Como se algo mais pudesse piorar meu estado…

Jasper trouxe notícias do doutor, pelo que eu pude entender da conversa, eles se encontraram alguns dias depois da luta que separou todos nós. Jasper e eu conversamos durante horas sobre estratégias e planos, mas tudo que podíamos fazer naquele momento era continuar fugindo. Isso me enlouquecia tanto, que as vezes eu me sentia totalmente fora dos eixos. Não conseguia pensar numa maneira de ir atrás dela sem ser morto pelo caminho. Eu não me importava em morrer, nunca me importei com a droga da minha vida, mas eu não poderia, não aceitaria morrer antes de vê-la novamente, a salvo. Depois disso eu não me importava com o que acontecesse comigo. Mas por hora, ela era minha prioridade, e foi apenas isso que me manteve longe dela até agora. Contrariando cada fibra do meu corpo, eu tive que esperar, ser paciente, tive que continuar brincando de cão e gato. Uma puta ironia, já que o cachorro nessa história era eu. Mas o cachorro agora precisava ficar na defensiva, se esquivando dos passos ardilosos que nos seguiam de perto aonde quer que fôssemos. Até o momento que eu pudesse dar o bote e arrancar algumas cabeças. Droga, essa espera… Essa expectativa enfadonha… Eu nunca fui de me esconder, e a ausência dela só deixava tudo mais insuportável. A idéia dela tão perto do perigo, tão longe de mim, sozinha… Deus, isso era como um punhal envenenado cravado bem fundo no meu peito. Eu tentava preencher esse poço de angústia com planos, estratégias, qualquer coisa que me desse a ilusão de que eu não estava parado enquanto ela estava lá fora, longe da família e de tudo que ela conhece. Jasper nessas horas era a única pessoa com quem eu conseguia conversar. Nossa angústia era a mesma, nossa agonia tinha o mesmo gosto amargo. Mas mesmo com todo desespero que eu e ele compartilhávamos, Jasper ainda assim conseguia se manter mais frio perante ao perigo iminente, e isso foi algo que eu comecei a admirar nele. Uma força estranha que brotava nele e que me contagiava estranhamente. Mas quem pode confiar num sanguessuga que controla os sentimentos? Bem, era ele ou a Rosalie, não preciso mencionar minha escolha.

Minhas mãos formigavam em meus bolsos. Ignorei a dormência. O capuz que cobria minha cabeça deixava meus olhos ocultos, imersos nas sombras de onde já não havia luz alguma. O silêncio parecia gritar em meus ouvidos, acordando lembranças e pensamentos doloridos dentro de mim. Tudo a minha volta estava congelado, mas meu coração estava estranhamente quente, como se estivesse envolto numa bola de fogo que me queimava aos poucos, sem pressa de terminar com meu sofrimento. A fera dentro de mim arranhou minha garganta, pedindo para sair, pedindo para que eu a libertasse e a deixasse cravar as patas naquela neve intocada e correr. Correr até que todas aquelas imagens tivessem desaparecido e levado com elas aquele fogo que me consumia em partes pequenas. Eu queria fugir como havia fugido antes. Eu era um covarde que não suportava a idéia de perdê-la, que não era capaz de resistir diante do pensamento de jamais voltar a vê-la. Mas para onde eu poderia correr? Em que lugar desse planeta eu encontraria uma forma de me esconder de mim mesmo? Em que droga de mundo eu poderia existir sem ela?

Percebi, estranhamente nítido e palpável, um rastro quente percorrer meu rosto para então cair sem som na neve branca e imaculada. O quê é isso Jacob Black? Uma lágrima? Está chorando? Está chorando seu imbecil inútil?

Engoli com força a bola que se formava em minha garganta e cerrei meus olhos, na esperança de que aqueles pensamentos se apagassem dentro de mim. Tentei repetir a mim mesmo as palavras do doutor, repassando em minha mente a conversa que tivemos por telefone dois dias atrás. “Você precisa ter calma Jacob, se dermos um passo errado agora podemos deixá-la numa situação ainda pior. Nós já sabemos com quem estamos lidando, e Aro também sabe que não vamos perdoar o que ele teve a ousadia de fazer. Edward e Bella concordam com meu plano, é a única maneira de nos aproximar, com calma e um passo de cada vez.” Era fácil para ele falar, ficar sentado, escondido no meio do nada era uma idéia realmente brilhante. Até Seth pensaria em algo melhor. A única coisa que me manteve aqui, seguindo esse plano ridículo, foi uma coisa que Jasper me disse uma certa noite. “Aro pretendia nos eliminar aquela noite, por quê do contrário, ele não enviaria tantos membros da guarda, e ainda mais na liderança de Alec. Pelo que eu pude observar, Alec nunca lidera, é sempre Félix ou Demetri. Há algo que não se encaixa nessa história, quero dizer, eu entendo os motivos de Aro. Ele queria Alice desde aquele maldito encontro deles em Volterra, e bem, a vontade dele por nossa destruição não é nenhuma novidade, ainda mais depois do vexame que ele passou da última vez.” Eu entendia o que Jasper queria dizer com aquilo. Significava que Aro tinha uma arma secreta, uma carta na manga que nós desconhecíamos. Ou isso os poderes de Alice simplesmente foram pro beleléu, do contrário ela teria visto, eu sei que teria… Droga, parecia que tudo estava conspirando contra nós ultimamente. Mas amanhã, quando nos encontrássemos com Edward e Bella em Port-Cartier as coisas finalmente entrariam em movimento, e eu veria se aquele plano idiota resultaria em alguma coisa. Bem, eu já tinha meu próprio plano caso aquele não funcionasse e de qualquer forma, eu teria que esperar por eles, afinal, eu não fazia idéia de onde ficava o tal “castelo” subterrâneo dos sanguessugas italianos. Eu esperava sinceramente que o plano do doutor funcionasse, eu até tinha que admitir que fazia uma certo sentido as coisas que ele dissera, mas esse entendimento não ajudava em nada a amainar meu desespero.

Ouvi passos lentos na neve, não precisei me virar para saber que era Jasper. A figura branca sentou-se a meu lado no tronco velho as margens do lago. Não olhei para ele, nem ele tão pouco olhou para mim. Durante alguns minutos não trocamos palavra, mas o silêncio entre nós sempre dizia muito mais do que aparentava. Nunca imaginei sentir esse tipo de empatia por um sanguessuga, mas Jasper era diferente, até mesmo entre os esquisitões ele conseguia ser uma aberração em destaque. O fato é que a droga da presença dele me acalmava e mesmo que eu quisesse acertar o nariz dele algumas vezes por manipular meus sentimentos daquele jeito, eu sentia-me bem demais para fazê-lo.

– Já vai amanhecer, você devia dormir um pouco. – Resmungou ele, encarando a imensidão de gelo e neve a nossa frente. Como se eu conseguisse pregar os olhos apenas um segundo sem que a voz dela soprasse em meus ouvidos pedindo ajuda. Nem me dei o trabalho de responder, o que de qualquer forma era algo significativo se tratando de mim. Minha garganta parecia ter fechado, minha língua não se movia. Eu tinha medo de forçar uma palavra e acabar desmoronando a barreira na qual eu estava trabalhando noite e dia, uma barreira que tentava conter todo desespero dentro de mim, uma barreira que de alguma forma me mantinha de pé. As vezes eu sentia que o peso era tão grande, que eu não poderia mais carregá-lo. Minha vida já não era mais a mesma a muito tempo, mas quando ela me tocou, eu senti que pertencia a alguém nessa merda de vida, senti que havia um lugar no mundo para mim. Eu sempre fui acostumado a ter pouco, a ser o segundo, a me conformar com as sobras. Nunca fui o mais importante pra alguém, nem mesmo para minha matilha, na qual eu era visto como um alfa legítimo, nem assim eu conseguia sentir que era necessário para eles, Sam fazia esse trabalho muito melhor que eu. Mas ela… Ela trouxe naquele sorriso um lugar em que eu poderia estabelecer um lugar, meu lugar.

Jasper levantou-se, vendo que aquela noite eu passaria na companhia de minhas lembranças. Deu alguns passos até as árvores, e já imerso na escuridão ele disse:

– Se eu fosse capaz de chorar, eu estaria chorando por ela. – Jasper, seu maldito, não fale assim comigo! Ele desapareceu entre as árvores e me deixou a sós com minhas lamentações, e eu me senti ainda mais acabado. Pensei nas palavras dele, será que eram verdadeiras? Eu não conseguia imaginar Jasper chorando, nem em meus mais extraordinários surtos de imaginação. Aquele rosto marcado e muitas vezes inexpressivo era um escudo intransponível, do qual eu imaginava que apenas Alice tivesse acesso. Relutantemente agradeci ele em minha mente, afinal de contas, se nada mais me restasse, eu ainda seria capaz de chorar. Jasper não poderia nem ao menos chorar por ela… Pedras não choram. Mas no que minhas lágrimas poderiam ser úteis? Isso só me deixava mais puto. Eu não precisava chorar agora, eu precisava dela. Precisava mais que o próprio ar, mais que qualquer coisa da qual eu já tenha necessitado nessa vida. Era estranho, esses sentimentos dentro da gente, principalmente em gente como nós. Vampiros, lobos ou seja lá do que chamem minha espécie. No fim das contas por dentro nós éramos os mesmos humanos frágeis, distorcidos por uma idéia de imortalidade. Isso era uma droga, por que apesar dessas bizarrices em nosso sangue, nós éramos tão humanos quanto eles, com sua fome de amor, de aceitação, com medo, com sua ganância e mediocridade. Nada mais, nada menos que isso.

A única coisa que talvez seja diferente em nós é a intensidade das coisas. Assim como esses olhos podem enxergar praticamente tudo num raio de duzentos metros, assim como esse nariz capta qualquer traço de qualquer cheiro… Esse coração também pode sofrer com a intensidade sobrenatural que tudo mais em nós partilha. E nessas horas, quando a dor nos toma assim tão violentamente, nós ainda temos que lidar com a perfeição cruel de nossas memórias. A todo momento eu me lembrava dela, com uma claridade perturbadora o rosto dela se desenhava em minha mente. O cheiro, o toque, a voz dela sussurrando em meu ouvido… Tudo isso chegava a mim com uma perfeição surreal, as vezes eu a sentia me tocando e minha pele no mesmo instante queimava, como se a lembrança dela fosse feita de brasa pura. E eu quase sempre me via preso a lembrança dela, torturado pela saudade, mas impotente à imagem dela formigando em minha mente. Eu apenas me entregava, como agora, e deixava que ela me tragasse o último fio de sanidade que ainda pudesse haver em mim. Era como uma droga, consumindo meu corpo e minha mente, e em troca dando-me um torpor sem o qual eu sentia que não poderia suportar sua ausência. Lembrar dela era a única coisa que me acalmava, mas era também um veneno cruel que me castigava cada vez que eu recorria a ele. Mas que escolha eu tinha? Enquanto estava aqui, obrigado a ficar longe dela, o que mais eu poderia fazer? Desde que ela se fora, não sobrara nada além que um buraco vazio e a ausência dela fazendo silêncio em todo lugar, não importava aonde eu colocasse meus pés. Obriguei meu corpo a se mover, e com um movimento cadenciado eu deitei sobre o tronco, que era um pouco menor que eu. Me aninhei ali, com um dos braços dando suporte a minha cabeça e o outro sobre meu peito, fiquei olhando para aquele céu enegrecido, pontilhado por estrelas distantes que brilhavam intensamente sobre mim. O barulho do vento fazia as árvores cantarem, a nevasca tinha diminuído, apenas alguns flocos de neve se despendiam da escuridão e eram levadas pelo vento para longe. Fechei os olhos e quase que imediatamente eu a vi. Os cabelos acobreados caindo pelos ombros delicados, os cachos brincando na brisa da floresta em que caminhávamos. O sorriso se abrindo como o céu após uma tempestade, alcançando delicadamente os olhos grandes, aqueles olhos marrons que me esquentavam sempre que me fitavam. “Jake não me olhe assim” ela ria, cobrindo o rosto com as mãos pequenas. As imagens se alternavam depressa, minhas memórias sendo tragadas por um turbilhão de ventos que atendiam pelo nome dela, até que uma nova cena ganhou espaço em minha mente. E com uma dor aguda atravessando meu peito, eu lembrei da nossa última noite juntos, a última noite em que a tive em meus braços. Parecia um sonho. Eu precisava me esforçar para convencer a mim mesmo de que tinha sido real…

“Me avise se eu te machucar” ela disse, resfolegando eu meu ouvido. Eu sentia os dentes dela afundando-se em minha pele, arrancando de mim sensações estranhas, muito mais fortes do que eu julgava ser capaz de sentir. Todo meu corpo pedia por ela, meu sangue fervia em minhas veias. Ela passeava por meu pescoço, por meu peito desnudo e traçava uma linha quente pela minha barriga. Trouxe o corpo dela junto ao meu, nossa pele grudada uma na outra. Eu suava frio com ela sobre mim, meus músculos retesavam-se até o ponto de tremerem sob os toques dela. Ela pressionava os lábios contra os meus, e eu a beijava intensamente, dando tudo de mim. Nunca senti nada como aquilo, nunca senti nada como ela. E quando nos unimos, quando nos tornamos um só corpo, os braços dela me envolveram, a pele clara suavemente iluminada pelas luzes que entravam pela janela. A boca dela entreaberta, roçando levemente minha orelha. O cheiro dela entrava por minha narinas e incendiava-me por dentro. Eu não podia acreditar que algo tão bom um dia foi real em minha vida. Na escuridão gelada dessa noite, qualquer pensamento que envolvia ela e seu calor junto a mim, parecia ser uma invenção de outro mundo, uma peça pregada pela minha mente. Era estranho como não havia espaço para mais nada em mim.

A madrugada já estava empalidecendo quando Jasper retornou, eu não fazia idéia que horas eram, mas o céu estava prateado. Eu estava tão longe com meus pensamentos que não percebi a escuridão cedendo a minha volta. Jasper parou na beira do lago, de costas para mim. Levantei-me da posição em que estava, e percebi minhas costas rígidas e dormentes pela falta de movimento. Coloquei-me de pé, estiquei um pouco as pernas e parei ao lado dele. O lago Manoucane nessa parte mais ao sul de Québec não estava congelado, mas bastaria mais uma noite de nevasca como aquela para congelar aquelas águas escuras e imóveis. Na margem oposta, as árvores altas balançavam com o vento, e as montanhas lá longe desenhavam uma névoa branca no horizonte. Todo esse lugar parecia uma gaiola, não se via o céu durante o dia, apenas uma massa perolada pairando sobre nossas cabeças. Jasper olhava para além das montanhas, percebi pelo rosto enrubescido que ele andou caçando.

– Quanto tempo até Port-Cartier? – Perguntei, minha voz soando rouca e áspera. Pigarreei de leve para ocultar as provas de que eu andara chorando escondido.

– Se corrermos estaremos lá antes do anoitecer. – Respondeu ele. Concordei silenciosamente e me coloquei em movimento em direção ao lugar onde estávamos escondidos.

– Então vamos correr.

Uma hora depois nós estávamos cruzando as florestas geladas de Québec, eu estava nas quatro patas, dando passadas rápidas e firmes no solo fofo, me esgueirando entre as árvores estreitas. Jasper estava bem atrás de mim, seguido por Emmet e a loira reclamona. A única coisa ruim de estar na forma de lobo é não poder falar, e se não fosse pelo cheiro intenso bem nas fuças de Rosalie, ela também me preferiria assim, incapacitado de falar. Em outras ocasiões eu rosnaria, faria algum barulho irritante, mas hoje… Hoje eu estava imerso em silêncio. Dentro de mim havia uma gritaria desordenada, acho que isso fez eu me calar e prestar atenção em tudo que me cercava, inclusive o caminho tortuoso que atravessávamos para encontrar Bella e Edward. Eu estava focado demais no plano, sabendo que qualquer passo em falso que qualquer um de nós déssemos seria o bastante pra tudo ir pro saco. Eu ainda tinha minhas dúvidas sobre o que íamos fazer, mas eu confiava em Edward para me esclarecer algumas coisas. Ele sempre teve mais paciência comigo nesses casos, sem contar que eu nem precisaria pronunciar minhas perguntas.

Olhei de esguelha para Jasper, ele estava tão longe quanto eu. A expressão que vi no rosto dele gelou minha espinha. Forcei minhas patas contra o solo, impulsionando meu corpo para frente, mais rápido, mais rápido… Jasper me seguiu na mesma hora, e lá atrás eu ouvi a loira reclamar. Eu via nos olhos dele exatamente o mesmo desejo que pulsava dentro de mim como um hematoma dolorido, eu quis acelerar, por ele e por mim. Corremos em silêncio e velozes até as primeiras horas do entardecer. Em algumas partes da floresta nós captamos um rastro fraco dos sanguessugas que nos seguiam desde Surrey. Era uma rastro de três ou quatro dias, eles provavelmente já estavam longe. Quando o céu já recebia as primeiras estrelas pequenas e opacas, nós alcançamos os arredores de Port- Cartier. O combinado era nos encontrar na baía, para que pudéssemos fugir pela água caso algum sanguessuga inimigo nos alcançasse. Quem se ferrava nesse plano era eu, que era o único que precisava respirar, mas nem me dei o trabalho de reclamar, o que novamente surpreendeu a todos. Quando chegamos ao local que Edward especificou, eu procurei um local em que eu pudesse mudar de forma e assim que saí das árvores em direção ao píer, vestindo o mesmo jeans e a jaqueta do dia anterior, eu logo pude ver a cabeleira desgrenhada de Bella e a cara de zumbi de Edward. Aquelas últimas semanas não tinham sido fáceis pra nenhum de nós.

Abraçei minha amiga apertado e senti o desespero dela escapando por aqueles olhos que me lembravam os de Ness, só que não eram mais os olhos marrons que eu tanto gostava.

– Como está Jake? – Ela perguntou baixinho, longe da conversa dos outros. Ela me olhou, analizando-me como ela costumava fazer sempre. – Você está péssimo. – A voz dela estava apagada, assim como os olhos. Engoli em seco ao presenciar o quanto ela estava sofrendo também. Isso era algo que não morreu com a Bella humana que conheci, eu sempre pude ler os sentimentos dela e isso ainda era possível, mesmo agora.

– Não vou mentir e dizer que estou bem, você me conhece bem demais para isso. Então, acho que a resposta é, estou resistindo. – Ela baixou a cabeça, encarou o chão em silêncio por um minuto. Eu fiquei alí, quieto, respeitando a dor dela e tentando controlar a minha. Edward falava rápido e baixinho com Rose e Emmet, Jasper apenas ouvia.

– Por quê fizeram isso Jake? Por quê tinham que levá-la de mim? – Era extremamente desconcertante o modo como aquelas palavras soavam. Eram frias e duras, os olhos de Bella estavam vazios como eu jamais os vira antes. Eu sabia que aquela era uma pergunta retórica, e mesmo se não fosse, eu não seria capaz de dar a ela uma resposta. Edward se aproximou de nós. Ele olhou para mim com o mesmo desespero contido que eu vi nos olhos de Bella e pareceu encontrar o mesmo traço dolorido em mim. Contudo, Edward estava mais firme quando falou:

– Nós vamos partir hoje para a Itália, já fiz meus preparativos. Nos encontraremos com os outros em Roma e de lá seguiremos para Volterra seguindo o esquema que combinamos com Carlisle. Conto com você para executar a sua parte quando a hora chegar Jacob. – Assenti. Em minha cabeça meu dever desenhava-se como um mapa imaginário. Eu sabia exatamente o que devia fazer e não falharia. A única coisa realmente difícil nesse plano era a espera infinita.

Deixei Edward e Bella sozinhos e fui me juntar a Jasper na beira do píer, olhando a escuridão monótona e fria da baía de Port-Cartier.

– Finalmente chegou a hora hein. – Tentei puxar conversa, minha voz tão sem vida quando aquelas águas escuras. Jasper balançou a cabeça, concordando discretamente com meu comentário carregado de tensão.

– Você acha que os outros vão dar conta? – Perguntei, começando a me sentir apreensivo com a efetividade daquele plano.

– Nós pensamos bastante sobre isso, foi tudo planejado para que saiamos todos vivos. Mas na guerra existem coisas que não se podem prever. – Disse ele em seu tom usualmente sério. Apesar do medo que anuviava meu coração, eu tive que concordar com ele. Eu tinha medo pelos outros, tinha medo de falhar, mas nenhum medo se quer comparava-se ao medo que eu tinha de perdê-la, e por mais destemido que Jasper seja nessa história de guerra, eu sabia que o medo que ele sentia de perder Alice era tão grande quanto o meu. Eu entendia também essa frustração dele, pude perceber o quão desconcertado ele ficava com isso, como se não soubesse lidar com esse sentimento opressivo dentro dele. Eu entendia, pois também sentia-me fraco e confuso diante do medo. Homens como nós não aprenderam o significado da palavra medo. Não antes de conhecer o motivo pelo qual nós arriscaríamos nossas vidas, para sempre.

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1 opinião sobre “Rising Sun Cap 27 A Droga do Relógio Não Corre”

  1. Gessica sousa disse:

    Coitado do jake sofrendo pela nessie me dá um aperto no coraçao

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