P.O.V Bella

_Bella. -Senti mãos me tocarem. _Filha acorda, chegamos.

Pisquei várias vezes tentando espantar o sono e esfreguei os olhos para enxergar melhor. O sol já estava se pondo, mas não podia vê-lo, era Forks, realmente a cidade sem sol. Olhei para a grande e estranha casa que agora eu poderia chamá-la de nossa. Não muito interessante, branca, com um pequeno jardim na frente, onde as ervas daninhas já tomavam conta de toda extensão.

Respirei fundo, não posso dizer que sentiria falta de Phoenix, não depois do ultimo ano, enfrentar os pesadelos que vieram com força total e ainda ter a desilusão de ver meus amigos, ou ao menos achava que eram, se afastarem cada vez mais de mim.

Saí do carro para ajudar Charlie com as malas. Ele tirou as malas grandes e as pequenas eu as levei pra dentro da casa.

A decoração dentro era um pouco rustica, tinha algumas pedras nas paredes deixando-as bem sofisticadas, os móveis eram os mesmos, a casa tinha um leve cheiro de eucalipto que me confortava, a escada era feita com pranchas de carvalho, fiquei admirada com o bom gosto da pessoa que a fez e bem no fundo, no cantinho tinha uma escadinha de cactos, bem bonitinhos, eram três, um grande, um médio e um pequeno. Subi as escadas com um pouco de dificuldade por conta da quantidade de bolsas que eu carregava, abri direto a porta de meu quarto, costumava ficar aqui quando criança, nas visitas a casa de meu pai em férias ou feriados, mas desde que os pesadelos começaram decidi que não era uma boa ideia dormir fora de casa.

O quarto era azul bebê, tinha algumas fotografias coladas em um mural, eram fotos de quando criança parecia que o tempo tinha parado naquele quarto, minha cama estava ali com a mesma roupa de cama roxa que Charlie me dera quando fiz 10 anos, eu amava aquela colcha, e combinava com a cor do quarto; arrumei minhas roupas na cômoda e tomei um banho para relaxar, como estava um pouco frio, resolvi colocar um moletom, uma regata branca e chinelos, amarrei meus cabelos em um coque frouxo e desci as escadas até a cozinha, era bem pequena até, mas aconchegante.

Charlie estava conversando sobre alguma coisa pelo celular, devia ser a trabalho. Sentei-me então na mesa, assim que ele desligou, suspirou e me olhou sorrindo fraco.

_Algum problema pai? -perguntei percebendo sua mudança de expressão, Charlie sentou-se em minha frente.

_Não queria ter que te deixar sozinha hoje, justo em seu primeiro dia em casa, mas tem um problema para resolver.

_Pai, é seu trabalho, pode deixar vou ficar bem.

_E os… você sabe…

_Os pesadelos? Acho que vou ficar acordada até o senhor chegar.

_Filha vai demorar, sabe encrenqueiros, estes jovens de hoje não sei o que acontece com eles, ou se juntam para fazer arruaça ou brigam entre si.

_É muito grave o que houve?

_Olha filha, mesmo sendo uma cidade pequena ando tendo problemas com um rapaz e se não fosse para piorar, seu tio Marcos trouxe seu primo para cá há alguns meses, e ele também não é flor que se cheire, é um filhinho da mamãe mimado e chegou à cidade, e como aqui já tínhamos o nosso garoto problema, agora acho que há uma disputa entre quem vai ser o ganhador do posto.

_Ual, achei que estas coisas só aconteciam nas cidades grandes, então Cam esta morando aqui também?

_Sim, mas filha ele não é mais o garotinho que conhecíamos, mantenha-se a distância, seja simpática, mas não ande com ele e sua turma.

_E quem é o problemático da cidade que não foi a cara de Cam?

_Bem, quase ninguém foi mesmo, mas Edward, ele parece ser um garoto bom, sua família é maravilhosa, o pai dele é o melhor doutor que esta cidade poderia ter, mas o garoto parece ser revoltado com algo e sempre está por aí se metendo em brigas, cuide-se filha tenho que ir que vou ter que levar cada um destes pestes a casa deles e falar com os pais, novamente!

Charlie pegou se cinturão de armas, sua jaqueta e saiu, do lado de fora uma fina camada de chuva deixava Forks ainda mais nebulosa, naquele instante me toquei, estava sozinha em uma casa que seria meu lar, mas ainda não me trazia o conforto de tal, lá fora a chuva, era neste momento que meu coração apertava intensamente.

Peguei um pacote de torradas no armário, abri a geladeira, enchi um copo com leite e me direcionei a sala de star, era ampla e iluminada, ainda bem assim poderia esquecer um pouco de onde eu estava, uma tela plana de 45 polegadas tomava conta da parede, um dos poucos luxos que meu pai se prestigiava, os jogos eram sagrados, sentei no sofá cruzando minhas pernas sobre as almofadas, zapeei pelos canais e me surpreendi com a quantidade de canais esportivos que uma teve a cabo poderia ter.

Parei em um canal retro e um filme antigo estava passando, orgulho e preconceito, eu amo este filme o livro nem se fala, mas tudo que dizia respeito ao século passado, me encantava, os vestidos, os penteados, o modo de falar, de se portar.

Até mesmo os jovens daquela época eram refinados e educados, às vezes achava que nascera no século errado, seria mais feliz vivendo em um mundo menos complicado.

Terminei meu leite, coloquei o copo na mesinha, com o que sobrou das torradas, puxei a manta que estava no braço do sofá em minhas pernas e recostei a cabeça nas almofadas, fiquei admirando o filme, ver o Mr. Darcy com seu amor afogado em meio ao preconceito da sociedade, ver Elizabeth com aquele orgulho indomável, tudo era magico e romântico.

(***)
“Em vão tenho lutado comigo mesmo, nada consegui. Meus sentimentos não podem ser reprimidos e preciso que me permita dizer-lhe que eu a admiro e amo ardentemente.” *(nota: trecho do livro orgulho e preconceito, Jane Austen)

A voz do Mr. Darcy saia melodiosa de seus lábios que tocavam a mão da bela moça, mas assim que seus olhos encontraram o dela, percebi que era a mim que ele olhava, mas neste mesmo momento enquanto ele levantava-se e olhava em meus olhos, não era mais o Mr. Darcy, era outro rosto belo, outro jovem bem apessoado, ele sorriu e me fez sorrir também.

_Sabe o quanto o senhor me deixa desconcertada recitando trechos de orgulho e preconceito, e confesso que em sua boca as palavras saem com maior esplendor.

_Minha cara senhorita Isabella, vejo que seu antigo pretendente não gosta muito de minha companhia ao seu lado.

_Senhor Cullen, veja a situação, antes de sua chegada a cidade, ele estava certo de meu compromisso futuro com ele, no entanto meu coração hoje só existe lugar a uma única pessoa.

O vestido que usava era azul, e com o colete rosa claro, eu carregava uma sombrinha de ombro e o rapaz estava enganchado em meu braço, caminhávamos em um extenso jardim, e muitos cavalheiros e pessoas estavam ao redor, os olhos eram voltados a nós dois.

_Creio que os pensamentos de todos aqui hoje senhorita, são demasiadamente inconvenientes, como podem ser tão hipócritas, em um momento estão nos cumprimentando por nosso compromisso e no outro estão pensando atrocidades?

_Senhor, não seja tão grosseiro, só por ter esta vantagem sobre as pessoas de ler seus pensamentos, não quer dizer que deva.

_Desculpe senhorita, mas são gritantes, mas sempre gostaria de ouvir um deles que não ouço.

_Seria muito atrevimento e falta de decoro ler a mente de uma dama. – meu sorriso era farto, como se fosse um triunfo. _Gosto de ser uma exceção neste seu dom, não sentir-me-ia bem sabendo que estaria lendo todo e qualquer pensamento que deveras eu houvesse de estar tendo._O senhor é um ser de sorte por possuir tal dom.

_Não dever crer minha cara senhorita que este seja um privilegio._Quanto melhor conheço o mundo, menos ele me satisfaz e cada dia vejo confirmada a minha crença na incoerência de todos os carácteres humanos e na pouca confiança que se pode depositar nas aparências do mérito ou do bom senso. _Minha cara Isabella, olhe para mim, se não fosse por te encontrar, meu mundo jamais faria sentido e nem os dons que possuo, nem os bens que tenho, e nem minha imortalidade seriam de valor algum, se não tivesse descoberto este sentimento tão intenso.

O passeio seguia agradável, até que veio uma forte chuva e arrastou todos para dentro da propriedade, no meio da correria, me afastei do rapaz que estava comigo, e logo estava ao meu lado outro rapaz bem apessoado e me puxou pelo braço.

_Senhor, está me machucando.

_Senhorita Isabella, o que pensa estar fazendo, assumindo compromisso com aquele… Aquela criatura?

_Não entendo ao que se refere senhor Grigori?

_Sabe-se muito bem senhorita Isabella, não se faça demasiadamente desentendida por um assunto que está na boca de todos, ele não é certo para a senhorita, justamente para sua pessoa.

_Senhor Grigori, o senhor está sendo inconveniente, peço que me deixe voltar à sala com os convidados de meu pai e festejar o retorno dele da guerra.

Neste momento ele puxou meu braço com força e me carregou até a chuva.

_Pare! _Onde está me levando?

No caminho havia sombras escuras e me deixaram com medo, arrepiada, meu vestido agora estava em estado lastimável, todo cheio de lama, e as sombras continuavam a rodear, o medo me invadia, sentia meu peito apertado e sufocado.

_Sei que é um mal que vou lhe fazer, mas um mal necessário, é para o seu bem e de todos.

Foi neste instante que senti a entrada de uma adaga em meu ventre.

_Por quê?- foi um sussurro que saiu de minha boca.

_Não! _ Grigori você não fez isso?

A voz do rapaz estava aflita e sentia que o mundo rodava, percebi que a vida estava sendo tragada de mim, consegui ver que as sombras estavam agora mais perto, os olhos lindos me encaravam com dor.

Eu via a escuridão e a luz juntas e não sabia para onde ir.

_Meu amor, não me deixe! _Grigori, você vai se ver comigo.

_Meu caro, saiba que só faço o melhor a todos.

Sentia que estava sendo sugada, mas ouvia sussurros e gritos, e não era bom como todos dizem, era dor, sim, os monstros eram horríveis, eu tentava gritar e a voz tentava fazer ouvi-la.

_Não vá ate eles Bella, vá para a luz, vá para a luz.

As sombras estavam tentando me tragar…

Mas a dor me sugava e sentia que que tudo estava perdido.

(***)

_NÃO, NÃO, NÃO!

_Calma filha foi só um pesadelo estou aqui!

Charlie afagava meus cabelos, imediatamente pulei em seu pescoço em busca de consolo, minha respiração estava forte e aflita, e na boca de meu estomago sentia uma dor insuportável, lembrei-me do sonho e era o lugar onde estava ferida, a dor era tanta que parecia tão real.

_Calma Bella, vou buscar água!

_Não vá, não me deixe sozinha, papai!

_Filha, são somente sonhos, pesadelos, ninguém vai lhe fazer mal.

_Pai, é tudo tão real, como falei para mamãe, é como se estivesse acontecendo de verdade, a dor, tudo.- Sentia-me como se estivesse realmente levado uma facada na boca do estomago.

_Fique calma, volto já.

Era insuportável a dor, ergui a minha blusa e na altura de onde a dor brotava estava uma marca, era uma mancha de nascença, das muitas que tinha, mas era exatamente no local onde a adaga de meu sonho entrara.

O pior era que podia me lembrar de tudo no sonho, as sombras que me perseguiam sempre, tudo que fora dito, os atos, no entanto, nunca conseguia lembrar os rostos, só lembrava que era eu, sempre eu e mais alguém, mas os rostos sumiam, viravam borrões assim que acordava.

_Está aqui filha, tome.

_O que é isso?

_Seu remédio.

_Pai, já disse que vim para cá para parar com estas porcarias, eles me deixam fraca, tonta e meu desempenho na escola diminui, o doutor falou que a medicação não estava resolvendo, os pesadelos até pioraram, eles pioram a cada dia.

_Sei que é difícil, mas vamos resolver de alguma forma, vamos descobrir como resolver isso.

_Pai, eu tenho muito medo.

_Não tenha medo, são sonhos não podem te fazer mal.

_Mas sempre…olha nunca contei isso para mamãe, eu a contei sobre as sombras e demônios dos sonhos, mas nunca o final dele…

_E o que acontece?

_Eu sempre estou morrendo, de alguma forma diferente, em algum lugar diferente, em épocas diferentes, mas sempre acabo morrendo no sonho.

_Vamos, está tarde, demorei de mais e te deixei sozinha. _Desculpa, vou evitar isso.

_Resolveu tudo?

_Sim, levei Cam até seu tio, ele não ficou feliz por ele estar novamente brigando com os Cullens.

_Cullens?

_Sim, a família Cullen, te falei deles agora à tarde, o médico.

_Sim, o garoto problemático, lembro, mas já ouvi este sobrenome em algum lugar.

_Devo ter falado.

_Não falou, mas deixa para lá.

_É, deixe, você já tem tanto a se preocupar, querida amanhã é seu primeiro dia de aula, vai ir?

_Sim claro.

_Tem certeza? _Podemos adiar.

_Não, já estou afastada a tempo demais da escola, e alias lá eu não durmo, então não teremos problemas com os pesadelos.
(***)
Hoje ia para a escola, aprender a fazer novos amigos já que os antigos se foram desde as seções psiquiátricas e a medicação, se tornei a estranha, esquisita e louca. Cheguei lá na escola e todas as pessoas começaram a olhar para mim e eu corei de vergonha e de timidez, continuei andando, tirei do meu casaco o papel amarrotado dos horários, que meu pai fez o favor de pegar para mim, andava pelo corredor cheio de armários procurando o numero de minha matricula, até que apareceu uma menina e me disse:

– Oiiieee, você deve ser a nova aluna, não é? – disse ela, com um sorriso …

– Sim, eu sou nova aqui!

_Filha do Chefe de policia?

_Sim

– Eu sou a Jéssica, sou uma tagarela, seja bem-vinda a Forks e a está escola… – disse ela feliz, ela tinha razão, ela era uma tagarela kkk….

– Eu sou a Isabella, mas podes me tratar por Bella e obrigado. – disse eu, ela era muito simpática.

O barulho irritante soou, era hora de encarar as novas aulas, os novos colegas, tratei de apressar a procura por meu armário, e logo que encontrei joguei os livros, peguei somente o material da primeira aula, seria Biologia, bem eu preferia escolher bioquímica, mas estava cheia a turma, rumei à sala e estava atrasada.

– Olá professor, desculpe o atraso, mas eu estive á procura da sala…- disse eu, quando o professor me interrompeu.

– Não tem problema, Isabella, seja bem-vinda á escola, o seu lugar vai ser ali,… – disse o professor apontando para o único sitio vazio, onde estava sentado um rapaz, lindo, … eu fui me sentar ao lado dele, ele nada disse, virou-se encarou diretamente meus olhos e juro, que ele ficou pálido, ou talvez ele fosse assim mesmo, mas seu olhar foi de total espanto, entretanto ele rapidamente revirou o olhar, virou-se para o lado da janela, fiquei espantada com certa atitude e tentei quebrar o gelo.

– Olá, eu sou a Isabella.- disse eu, mas ele apenas virou-se, e secamente disse:

– Eu sou o Edward.- rapidamente voltou a olhar para fora, ele virou a cara, para a janela , mas eu percebi que ele estava a sorrir, era um sorriso estranho, podia ser sarcástico, mas logo foi substituído por uma linha fina em seus lábios, meu olhar foi para seu punho que serrava, e estava apertando tanto a caneta que logo ela se quebrou espalhando tinta por seu caderno e roupa.

_Que merda!

Sua voz mesmo com um palavrão saindo dela, era impressionantemente linda.

_Senhor Cullen? _Algum problema?

“Cullen”, seria… Oh sim Edward Cullen, a lembrança do dia anterior e meu pai contando sobre o problemático da cidade.

_Preciso sair Professor, a minha caneta estourou!

_O Céus, que bagunça, vá imediatamente. _Swan?

_Tudo bem, não me sujou.

Durante o resto da aula não nos falamos mais, a aula acabou, saí e fui ao meu armário, só teríamos aula novamente daqui à uma hora, a professora de história havia faltado, e a substituta estava de férias, o que nos deu uma aula vaga. Ao me virar tive a surpresa de me deparar com uma figura em pé atrás de mim, ele estava sério, porém seus olhos estavam negros ele enrugou a testa suspirou fundo e um leve sorriso saiu de seus lábios, parecia que queria me dizer algo.

 

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