12º Capítulo – “Black Smoke”
A espera depois da luta foi particularmente insuportável. Havia uma calmaria anormal a nossa volta. Por onde quer que passássemos, só havia silêncio. Eu esperei… No amanhecer do segundo dia, estávamos contornando a praia à leste quando finalmente conseguimos sinal nos telefones. Embora estivesse péssimo, conseguimos enviar uma mensagem de texto para o celular de Carlisle. Eu estava meio louca com a falta de notícias deles também. Estavam todos na Turquia – meus pais, Carlisle, Esme e mais tarde eu soube que Sam permitiu que Seth e Leah fossem com eles, o quê, a propósito eu achei uma insanidade. Era fato, nós precisávamos de toda ajuda possível, mas eu nunca simpatizei com a idéia de Seth e Leah participarem de algo desse porte. Stephan e Vladimir eram tão ou mais velhos que os Volturi, e não seria fácil se aproximar deles. Eu esperava, sem muitas esperanças, que meu pai ao menos conseguisse chegar perto o bastante para se infiltrar em suas mentes. Aro estava criando mais filhos da lua, e se alguém sabia algo sobre isso, com certeza seriam aqueles dois. Os planos que meus pais fizeram falharam, um após o outro, desde o momento em que coloquei meus pés nessa ilha, e o tempo estava correndo, nós não podíamos ficar parados, à espera do próximo movimento de Aro. Não era seguro para nós, e não era um bom plano sob nenhuma circunstância. Jake queria recuar, Lavínia achava melhor permanecer no vale… Eu dei a eles dois dias e disse que partiria com ou sem eles. Bem, eles estavam comigo, mas não gostavam nem um pouco da idéia de perseguir Aro. Eu discordava. Era bem simples. Quando você faz pressão, algum lado tem de ceder, e Aro já havia feito seu primeiro movimento quando jogou seus “novos” filhos da lua em cima de nós. Agora era minha vez. Contudo, eu não estava avançando irresponsavelmente por território inimigo, e nem faria a loucura de partir para um ataque aberto sobre Aro. Eu iria rodeá-lo, observá-lo, deixá-lo sentir minha respiração em sua nuca, como uma sombra. Longe o bastante para resistir a outros possíveis ataques, e perto o suficiente para não perder nenhum de seus passos. E quando a hora chegasse… quando ele baixasse a guarda… Eu estaria lá. Mais três dias se passaram sem nenhum sinal de Aro. O cheiro dos filhos da lua impregnavam os campos, os vales e as florestas, e ocultavam quase todos os traços que nos importava seguir. De início seguimos os rastros das criaturas, mas não demorou muito para percebemos que elas andavam em círculos, geralmente atrás do nosso próprio rastro. Quando finalmente paramos, já era possível ouvir o mar na costa oposta da ilha. Eu não conseguia acreditar que havia perdido o rastro de Aro novamente. Um ano havia sido preciso para encontrá-lo, e eu o perdera de novo. Aquilo me perturbou muito, sentia raiva, um ódio tão intenso que tive de socar alguns troncos de arvores e algumas rochas cobertas de musgo. Aquilo, tampouco me acalmou.


– Ness, você precisa dormir um pouco. – Disse Lavínia. A noite há muito havia caído e a escuridão embebia cada centímetro a nossa volta. Eu estava sentada na relva, com as costas apoiadas num velho e largo tronco, encarando o céu pontilhado de estrelas acima de nós. Era a primeira vez que eu via estrelas naquele céu, que sempre estava tão carregado de nuvens. Havia um vento cortante soprando do norte e a terra úmida abaixo de mim estava gelada. Nenhum animal se movia e não havia outro som além do vento e do restolhar das folhas. Lavínia estava de pé, do lado oposto da clareira que nos servia de abrigo. Seus olhos estavam negros e encoberto por sombras, mas ainda assim mostravam-se preocupados comigo. Olhei-a com desagrado.
– E você precisa caçar. Quanto tempo acha que vai agüentar até atacar um humano? – Eu odiava ser dura com ela, mas a raiva dentro de mim me consumia como um fogo, enegrecendo meus pensamentos e palavras. Dei-lhe um olhar de desculpas e me voltei novamente para meus pensamentos. Lavínia se desculpou e saiu, desaparecendo pelas árvores. A sede dela devia estar tão crítica quanto a minha, mas eu não iria caçar, não ainda.
– Ela vai ficar bem. – Disse Jacob. Assenti sem nada dizer. Me dei conta de que era a primeira vez que ficávamos sozinhos desde que nos reencontramos.
– Você se transformou novamente, pensei que havia desistido de seu lobo. – Falei, evitando olhá-lo.
– Eu não tive muito tempo pra pensar no assunto quando aqueles monstros fedidos vieram pra cima da gente. – “Pra cima de mim, você quer dizer” pensei. Jacob saltara na garganta da criatura um segundo antes dele me acertar e esmagar meu flanco esquerdo.
– Obrigada. – Falei, sentindo minha garganta se apertar. – Por tudo. O silêncio era sempre sufocante quando estávamos frente a frente, mas de uma forma estranha, era como se eu entendesse tudo o quê ele gostaria de dizer e que substituía por aquele silêncio perpétuo e fumarento. Da mesma forma, eu sabia que ele entendia o quê “tudo” significava.
– Eu entendo o quê você fez, sabe. – Ele disse mais tarde, recostando a cabeça num tronco de árvore enquanto esticava as pernas longas pela relva úmida. – Lavínia é boa no quê faz, e também é uma amiga fiel. Ela se preocupa com você.
– Eu a matei Jake. – Retruquei, virando o rosto.
– Ela já estava morta quando deixamos Volterra aquela noite. Estava morta no instante em que trouxeram o corpo de Willian para ela.
– Assim como minha mãe estava condenada no momento em que conheceu meu pai? Ou quando descobriu que estava grávida de um monstro? Você desistiu dela Jake? Desistiu de tentar salvá-la, de mantê-la humana e viva? – As palavras pulavam para fora de mim monotonamente, mas meus olhos ardiam na escuridão. Uma dor aguda e profunda despontou dentro de mim, e aos poucos ganhou todo meu corpo. Velhas feridas que se abriam novamente, feridas que nunca cicatrizariam dentro de mim.
– Acho que o quê aconteceu comigo foi diferente. Eu sabia que Bella queria isso, sabia que era o destino que ela tinha escolhido. Lutei tanto por que estava cego, mas no final… quando ela estava lá agonizando naquela mesa, eu estava rezando para o veneno fazer efeito, para consertá-la. Não havia fogo para todo lado, e monstros do passado nos caçando. Não havia um exército Volturi na minha porta, perseguindo minha família, matando meus amigos. Você não teve escolha nenhuma, teve que lutar. Assim como Lavínia. Algo foi tirado dela, e ela fez o quê podia para revidar, para lutar por ela mesma e por quem ela amava. Não a culpo por ter nos seguido e por ter escolhido a imortalidade, era a única maneira dela sobreviver a tudo isso. E você deu a ela força para lutar. – Ele parou, podia sentir os olhos dele em mim, me queimando. – Quem mais teria feito o quê você fez por ela? Eu gostaria de ter dito algo, de ter revidado, de ter tentado explicar a ele a sensação de ter o sangue de alguém fluindo para dentro de você, junto com sua vida e com as batidas de um coração que está quase desistindo, mas minha mente estava vazia de palavras, de modo que apenas fiquei ali, em silencio, contemplando o som da voz dele na noite fria. Acho que adormeci, não sabia bem em que momento. Num segundo eu estava lá, em silêncio na escuridão, tentando não encarar o homem que eu amara toda minha vida, tentando ser forte, resistir… E no outro eu já mergulhava para um tipo diferente de escuridão, mais macia e mais acolhedora. Um lusco-fusco de lâmpadas incandescentes, presas na garganta de tulipas brancas como leite, pendiam das paredes aveludadas e lançavam sombras no carpete negro. Eu estava deitada lá, com as costas nuas no veludo espesso e macio, encoberta apenas pelas sombras da grande sala. Alguma coisa no fundo da minha mente dizia que aquela era a sala da casa de Rosalie, a decoração medieval não me deixou dúvidas. Foi lá, naquela mesma sala que… Ah, não, pensei. Eu estava sonhando, estava sonhando com ele. Foi como chamar seu nome, no momento em que pensei nele senti suas mãos sobre mim, deslizando feito seda escaldante pela minha pele nua. No sonho, eu arfei e meus olhos se abriram para encarar o teto. Ele estava ali, encobrindo minha visão, pairando sobre meu corpo como uma nuvem carregada que esconde o sol e faz parecer que só existe a tempestade. Ele me beijou, primeiro devagar, depois com mais força, até que toda força de meus membros haviam sidos sugados. O gosto dele invadiu minha língua, o cheiro da pele dele inundou minhas veias, meus pulmões. Ele suava de encontro a mim e sob ele, eu estava inteiramente molhada, como se tivesse sido tragada pela tempestade. Senti as mãos dele me erguerem no ar e me pousarem sobre ele. Um grunhido estranho escapou por meus lábios no momento em que ele entrava em mim. Minhas mãos agarraram o couro negro do sofá no qual ele se encostava, e rasgaram, abrindo fendas estreitas de onde brotaram vísceras brancas de algodão e penas. A pele morena ardia, lustrosa de suor e desejo. A boca dele se abria para a minha como se estivesse sedento, implorando por mim. Eu o beijei por toda parte, com urgência, incapaz de controlar minha fome por ele. Apertei os punhos ao tentar conter um grito e no mesmo instante em que sentia minhas pernas me abandonarem fechei minhas mandíbulas na carne macia e fumegante dele. Senti o gosto de seu sangue tarde demais. Quando me afastei, horrorizada com o quê havia feito, a cabeça dele já pendia, inerte, para o lado, e um rastro de sangue fresco descia numa linha fina por seu peito nu. “Jake” eu gritava, “Jake não morra, por favor, me desculpe” mas ele já estava frio em meus braços. O cheiro do meu veneno revirou meu estômago e eu gritei uma vez mais.
– Ness! Ness acorde! – Abri os olhos para uma madrugada cinzenta. Jacob me chacoalhava pelos ombros, seus olhos fitavam, ansiosos, meu rosto tenso.
– O-o quê… – olhei em volta, e depois para ele. Me senti estúpida e de imediato me coloquei de pé, afastando-me dele.
– Você teve um pesadelo. – Disse ele.
– Está tudo bem, não foi nada. – Falei, dando-lhe as costas. A aurora rompia por trás das montanhas, tingindo as árvores de um verde oliva intenso, triste.
– Chamou meu nome enquanto dormia. – ele disse, estudando meu rosto. Devolvi o olhar e tendei parecer calma como águas paradas.
– A luta me deixou preocupada, não sei o quê vamos enfrentar daqui em diante, me preocupo com sua segurança. – Tentei improvisar, e tive de admitir que estava ficando boa nisso. O rosto dele vacilou apenas por um segundo.
– Não tem por quê se preocupar comigo. – Ele falou, uma carranca se formando em sua expressão.
– Digo o mesmo a você. – Respondi e tratei de mudar de assunto. – Lavínia não voltou ainda?
– Você dormiu por duas horas Ness. Ela deve voltar logo. E então nós esperamos. O dia terminou de nascer e uma garoa fina começou a cair. Lavínia voltou a tempo de apagarmos os rastros na clareira. Seus olhos derramavam-se num Âmbar quente e sua pele estava mais corada. Resolvemos partir, seguir a trilha até o fim – e o fim não estava longe. Havia uma hora que estávamos em movimento quando o celular de Jacob tocou. Ele atendeu, nervoso.
-Alô. – Jake, nós temos problemas. – Disse meu pai do outro lado da linha, no mesmo instante em que eu pousava meus olhos na entrada de uma pequena caverna subterrânea. Meu olfato ardeu. Eu e Lavínia trocamos olhares cheios de tensão.
– Acho que encontramos a toca deles. – Murmurei para ela.

Continua…
Posição da Autora Sobre a Postagem de Nightfall leia AQUI
Anúncios