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Seguindo com as publicações em partes para que eu consiga atualizar com mais frequência! Vamos a leitura!

Pó Amargo
A ilha exalava um cheiro de terra congelada. Troncos secos, mumificados no gelo, se levantavam do chão, seus galhos rígidos dançavam nos primeiros sopros do inverno.
Era como caminhar sobre uma grande balsa, o mar era tudo que se via de norte a sul, o cheiro do sal impregnado nas narinas, a pressão incômoda nos ouvidos e a areia grudando sob as solas do sapato. Se eu me perdesse muito a fundo em meus devaneios, eu podia ouvir o tilintar dos grãos contra a pele de Lavínia, era como grãos de vidro derramando-se sobre o mármore.
Eu e Jacob éramos aderentes demais para produzir algum som, mas eu o ouvia, como uma melodia ao fundo, como um sussurro onipresente, guiando nossos passos pelas dunas geladas e pelos campos nus que atravessávamos, sempre contra o vento.
O céu não tinha cor, exceto na aurora, quando tudo se tingia de laranja opaco, e então as nuvens derretiam num cinza perolado, homogêneo, sem começo e sem fim. A noite sempre nos enganava, escondia-se atrás das nuvens e então caía de repente, nos deixando num breu silencioso onde cada respiração soava como um trovão.
Na primeira noite caminhamos sem descanso, não podíamos correr nem avançar sem cautela por terras estranhas, e a toda hora Jake me lembrava de quê estávamos ali para seguir rastros, e não caçar. Pro inferno que aquilo não era uma caçada, eu podia ouvir o coração dele martelando no peito, sob a camisa úmida, a veias em brasa enquanto cada centímetro daquele chão era varrido pelo instinto do lobo. Eu havia visto Jacob Black caçar vezes sem conta, eu conhecia aquele andar macio de quem se aproxima da presa, o bote se armando desde a base da coluna às pontas dos dedos. O lobo podia estar encarcerado sob a pele do homem, mas naquela noite era seu instinto ali, ao meu lado, seu espírito vagando livre pela escuridão.
Lavínia não estava acostumada com uma terceira pessoa na caça, desde seu “renascimento” ela só havia caçado comigo. Em compensação, também nos conhecíamos, na luta, na caça e na vigília. Se Jake era o lobo, Lavínia era como uma coruja. Aqueles olhos viam especialmente bem, melhor que qualquer olho sobrenatural. Lavínia enxergava melhor com a mente, se arrancassem seus olhos das órbitas, eu diria que para ela – apenas para ela – não haveria muito a perder. A precisão com que ela nos guiava em um território onde nunca esteve, era espantosa, em pouco mais de doze horas rastreando, nem eu nem Jacob discordamos – em questões técnicas de rastreamento – dos caminhos que Lavínia tomou.
– Ela é boa. – disse Jacob. Foram suas primeiras palavras em pouco mais de quatro horas.
– Ela é a melhor. – Falei. A trilha que seguíamos saía da praia e entrava cada vez mais fundo nos vales descampados de Hellnar. Tivemos um pequeno desacordo quanto à que costa adentraríamos a ilha, e eu descobri que as cláusulas da minha “licença de caça” eram bem mais extensas do quê eu julgara. “É mais seguro por aqui.” Insistiu minha mãe, “Não sabemos o quê Aro está tramando ao norte da ilha, entre pelo sul e observe de longe.” Disse meu pai. Com tantos quilômetros para percorrer em passos de tartaruga, era melhor ter roubado um carro na primeira cidade em que passamos, mas aí então Jacob “sugeriu” que continuássemos a pé, pelo vale.
Eu entendia a cautela, não era estúpida, conhecia meu oponente, conhecia minha raça, mas eu sabia que cada minuto perdido dava a Aro mais uma boa chance de desaparecer. A idéia de prolongar aquela guerra infernal por mais tempo – um tempo indeterminado – fazia meu estômago se contorcer em meu ventre.
Eu nunca havia estado naquela terra, tudo ali parecia mais silencioso, até as cidades tinham um ritmo mais ameno. As encostas rochosas do litoral pairavam no horizonte como os deuses antigos, tudo era muito verde e muito cinza, e eu descobri em certo ponto que adorava aquele lugar.
Era uma pena ter sido levada para lá por motivos tão sujos: caçar e matar minha própria espécie. Não era um pensamento muito bom para se ter naquele momento, mas um dia, se eu vivesse para retornar, eu retornaria. Olhando Jacob caminhando a minha frente, era como admirar um quadro. Imaginei por um momento se ele gostaria de viver ali, naqueles campos abertos onde o céu e o mar pareciam ser uma janela para o mundo além do nosso mundo. Eu seria feliz ali, com ele.
– Ness! – Chamou Lavínia de repente. Fui ao encontro dela num rompante. Ela acenou com a cabeça para um grande espaço coberto de verde a nossa frente, aos pés de uma pequena elevação. Era um terreno plano e absolutamente estéril. Nenhuma única árvores em pelo menos três quilômetros, de leste a oeste.
O vento corria livre por ali e foi preciso apenas um sopro de brisa gelada para todo meu corpo se retesar num misto de nojo e ódio. Aquele lugar fedia à sangue de lobisomem, os filhos da lua estiveram ali.
Sim, Os Filhos da Lua, com um arrepio percorrendo minha nuca eu constatei que ali, estiveram pelo menos sete deles. Sete.
– O quê diabos está acontecendo aqui? – Arfei.

– Nós temos que sair daqui. – disse Jacob, agarrando meu pulso e voltando por onde viemos. O choque travava meus pensamentos, eu não conseguia entender o quê diabos estava acontecendo.

Por hora, talvez o mais sensato fosse recuar.

– Eu contei seis, talvez sete. – Disse Lavínia algum tempo depois.

– Sete. – Falei. – Eram sete. – Ainda estávamos correndo para o lado oposto, e eu me sentia perdida.

Jacob tirou um celular do bolso da calça e começou a discar. Eu sabia para quem ele estava ligando.

O telefone chamou sem resposta por dois minutos.

– Maldição! – Grunhiu Jacob. Onde estariam meus pais?

Estaquei de súbito, não fazia sentido correr. Aonde quer que fôssemos, os filhos da lua nos seguiriam. Havíamos cometido o erro de chegar muito perto, e ter a esperança de que eles não nos tivessem detectado, era tolice.

– O quê foi? – Perguntou Lavínia, aproximando-se de mim. Jacob parou também.

Levei as mãos a cabeça, enroscando meus dedos entre os cachos emaranhados e salpicados de neve, tentava fazer minha mente funcionar, forçando-a a encaixar alguma coisa nos espaços vazios que se abriam em minha cabeça.

– Aro está fazendo mais deles. – Falei por fim, deixando as palavras fluírem e ponderando sobre elas no momento em que as proferia. Jacob e Lavínia esperavam, a respiração de ambos presa na garganta. – É isso que ele esteve fazendo aqui esse tempo todo. Ele tem os pergaminhos que trocou por Alice e o homem desconhecido que você tanto vê certamente é uma peça importante nisso. Mas como? Como Aro está fazendo mais bestas se nós matamos e queimamos o último espécime?

– Pensei que eles se reproduziam por contágio do sangue. – Disse Jacob.

– E assim é. – Respondeu Lavínia. – Só há uma forma de fazer novas criaturas…

– Aquele não era o último. – Falei, sentindo meu coração palpitar em meus ouvidos. – Aro encontrou outra fonte e está contaminando humanos com a antiga linhagem sanguínea.

– Isso é possível? – Indagou Jacob, as sobrancelhas se uniram sobre as pestanas grossas.

– Temo que sim… – Disse Lavínia, perdendo-se em pensamentos silenciosos.

No silencio que se sucedeu, as imagens ganhavam forma em minha mente. Meus pais precisavam saber, e Carlisle, e Alec… Deus do céu, pensei, aquilo significava uma carnificina se deixássemos chegar aos humanos. De alguma forma, tínhamos que conter a guerra e impedir que os filhos da lua alcançassem o continente. Caso contrário, um banho de sangue se seguiria, e não haveria muito que pudéssemos fazer para ocultar nossa existência – ou a fome daquelas bestas. Um pensamento nauseante invadiu minha mente.

– Por isso tantos desaparecimentos… – Murmurei com um enjôo gelado se instalando em meus estômago. – Aro precisava de cobaias, e agora precisa alimentar seu pequeno exército. – Observei a cor fugir do rosto de Jacob e Lavínia cerrou os olhos fortemente.

– Os malditos estão pastando essas pessoas. – Grunhiu Jacob. – Por isso sinto cheiro de morte no ar.

Quantos já teriam morrido alí? Quantos mais morreriam se Aro levasse as criaturas para o continente?

– Não vamos conseguir chegar a Aro, e se dermos batalha à eles… Ness, nós temos que recuar. – Lavínia falava calmamente, mas eu podia sentir a agitação nos olhos dela. Assenti em silencio, mas não sabia de fato o quê fazer.

– Ainda consegue vê-lo? – Perguntei à ela.

– Sim, ainda o vejo claramente. Está na ilha e provavelmente agora já sabe que estamos aqui também. Ele está se movimentando, mas não está fugindo… não entendo o quê ele pretende. – Disse Lavínia franzindo a testa lisa como cera.

– Talvez ele esteja interessado em testar seu novo exército. Em nós. – Falou Jacob, os punhos cerrado ao lado do corpo trêmulo. Ele tinha uma certa razão, mas isso me levava a pensar algo ainda mais perturbador.

– Se ele quer jogá-los para cima de nós assim, sem cerimônias, significa que não se importaria de perder alguns na luta. Eles nos superam em número, mas nós sabemos como matá-los. – Falei. – Se esse é seu novo exército, por quê sacrificá-lo logo na primeira luta?

Lavínia e Jacob trocaram olhares inquietos, eu sabia que eles haviam entendido meu ponto.

– Isso só pode significar que ele realmente não se importa, por quê pode simplesmente fazer mais deles. – Disse Jacob. Um silêncio agourento pairou entre as árvores cerradas, seus troncos se erguiam muito perto uns dos outros, e as copas formavam um telhado verde, escondendo o céu perolado e lançando ao chão uma luminosidade carregada. O ar que caminhava por entre aquelas árvores vinha dos campos abertos mais à frente, e era um misto de sal, terra úmida e morte, como se as plantações tivessem sido regadas com o sangue dos camponeses.

– Temos que sair daqui. – Disse Jacob lançando-me um olhar carregado.

– Creio que não conseguiremos ir longe. – Falou Lavínia, virando-se para os campos lá embaixo e para o horizonte acinzentado mais além. – Ouçam…

Por um momento que pareceu durar cem anos e ouvi, sem nada escutar além do vento e do trepidar das folhas lá no alto. Não havia pássaros cantando, ou insetos zumbindo no ar, nem mesmo os sons das cidades próximas chegavam ali, tudo que havia era o vento. E então, lentamente a terra sob meus pés começou a vibrar, nada que um humano fosse capaz de sentir, era quase como uma sensação, um sentido inconsciente que se propagava pelo solo. O som só se tornara som bem depois, quando o barulho seco de patas contra o solo gelado e úmido foi se tornando maior, e impossível de se ignorar.

Mas meus ouvidos não queriam ouvir, e minha mente se entorpeceu por meio segundo. Não pode ser, pensei… Mas era.

– Eles estão vindo. -Sussurrei.
*****
Não foi bonito. Quando as criaturas saíram, se esgueirando, pelas árvores, meus olhos varreram suas formas negras e esguias, e foi como se eu tivesse retornado à Volterra.
Eu estava certa quanto ao número, eram sete realmente. Mas havia algo neles… eu não tive tempo de prestar muita atenção, mas assim que pousei meus olhos em suas caras compridas, eu soube que havia algo de diferente naquelas criaturas. Eram menores e mais lentas que o primeiro de Volterra, e de alguma forma, irremediavelmente humanos.
Abati o primeiro assim que consegui alcançar meu punhal, preso na parte lateral de minha coxa. Enterrei a lâmina no pescoço esguio e o segurei até separar a cabeça do corpo. Quando o primeiro corpo tombou a meus pés, eles jorraram de todos os lados para cima de mim. Jacob saltou – já na forma do lobo – no instante em que uma das criaturas mirava meu ombro esquerdo, e o abocanhou com um rosnado escapando pela garganta. Ouvi os ossos da criatura se estilhaçarem entre os dentes de Jacob. O tempo pareceu congelar enquanto abríamos passagem entre as bestas, minha mente se desligou e tudo que eu era naquele momento, se resumia em um punhal ensangüentado. Um deles conseguiu me acertar nas costelas e me jogar de costas na relva, mas quando saltou sobre mim eu o segurei pelo pescoço, os dentes amarelados pairavam a centímetros do meu rosto. As mãos escuras e pegajosas agarraram meus ombros e braços, então eu chutei, e chutei… a criatura guinchava de dor enquanto tentava alcançar minha garganta. Então eu consegui livrar meu braço esquerdo e com uma estocada rápida eu cortei a garganta lisa. A criatura sufocou, eu girei meu corpo sobre ele e terminei o corte. Eu estava lavada de sangue.
Olhei em volta, segui as poças vermelhas que encharcavam a grama macia. O silêncio caiu pesado assim que o último deles gorgolejou e sucumbiu aos pés de Lavínia. Havia corpos por todos os lados, e nenhum deles estava inteiro.
– Rápido, me ajudem a queimá-los antes que comecem a se recompor.- Falei. Lavínia assentiu e começou a empilhar os corpos. Jacob permaneceu na forma lupina por mais um momento, e eu podia sentir os olhos dele em mim enquanto trabalhava.
Acendi um fogo baixo, que custou a se espalhar pelas poças de sangue e pela pilha disforme, e enquanto eu observava, eu não conseguia acreditar o quão rápido foi. Apesar de não ter sido fácil… Nós éramos três contra sete monstros. Em Volterra éramos mais de dez, contando com os lobos, e mesmo assim… mesmo assim, Jasper e Willian não saíram daquela luta.
– Alguma coisa está errada. – Falei quando Lavínia se aproximou de mim. Ela me encarou.
– Não sente o cheiro neles? – Ela falou, quase num sussurro. – Ainda cheiram como humanos. São mais fracos, mais lentos, menores…
– Acho que o sangue dos filhos da lua está enfraquecendo à medida que Aro transforma mais e mais humanos. – Falei. Jacob acabava de sair das árvores vestindo apenas um shorts velho e desbotado. O peito nu brilhava de suor e sangue.
– Acho que temos que nos considerar com sorte. Se estes fossem tão fortes quanto aquele outro, nós estaríamos mortos agora. – Disse ele. -Foi uma loucura enfrentá-los.
– Nós não tivemos muita escolha. – Respondi. Ele me olhou, o rosto tenso e nublado como o céu acima de nós.
– Eu sei. -Disse ele.
A pira finalmente se levantou, e logo o ar se encheu com a fumaça pesada, que se erguia no ar, rodopiando acima das árvores. Eu esperava que Aro estivesse vendo, queria que ele sentisse o odor de suas crias queimando. Queria que ele sentisse o quê estava indo sobre ele.
Eu esperava que ele estremecesse quando o cheiro de morte alcançasse suas narinas, por que então ele saberia… ele saberia que estávamos chegando.

 

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