17 Os Cullen

 

Fiquei ali, imóvel, respirando cautelosamente para não acordá-la. Eu podia muito bem ficar sem respirar, mas me privar de seu cheiro, era ainda mais torturante do que me privar de seu sangue.

A janela estava iluminada pela lua.

Eu nunca tinha tido um dia tão completo como o de hoje.

Quase matei o motivo da minha existência e minutos depois, me declarei a ela. Talvez esse tenha sido o momento mais tenso que vivi até agora.

Bella se mexeu resmungando: “Fique!”

Eu fico meu amor, sempre e por você.

Inalei seu perfume mais uma vez, tentando não acordá-la. Eu me esquecia as vezes de suas necessidades humanas; mas vê-la dormir, era quase tão fascinante quanto conversar com ela, entender seus pensamentos que ficavam cada vez mais claros pra mim em suas expressões.

Me recordei dos momentos na clareira. A fascinação de Bella ao me ver a luz do sol. Eu sempre pensei que isso assustaria os humanos, que pensariam ser anjos ou demônios. Se bem que, pra mim, seria a segunda opção.

Eu dividia agora a minha existência em duas vertentes, antes e depois de Bella.

Antes, eu perambulava neste mundo, um vulto entre os da minha espécie e os homens. Um predador lutando contra sua natureza. Um monstro.

Assim eu me via, todos os dias.

Depois, Bella. Perdi a razão, o controle absoluto das coisas, perdi a vergonha de ser quem sou. Um leão apaixonado, um leão faminto, mas não da sede natural deste ser, mas do amor, da pele, dos seus pensamentos, da sua graça, de suas virtudes. Um homem reencontrando seu caminho, não mais o monstro, o predador, o vampiro. Pela primeira vez neste século de existência, vi algum sentido nesta imortalidade: eu a esperei e ela está aqui. Uma vida eterna, para amá-la.

Perdido em meus pensamentos, nem percebi quando amanheceu.

Bella estava em meus braços e cuidadosamente me retirei, sem que ela se mexesse um milímetro.

Sai pela janela sem barulho e corri para casa.

Todos estavam em seus quartos. Não repararam quando entrei.

Tomei um banho e troquei a roupa rapidamente, sentindo a ausência de Bella, como nunca senti falta de alguém. Voltei e não haviam se passado 15 minutos.

Me sentei na cadeira de balanços do quarto a tempo de ouvir Charlie levantar e me esconder quando ele espiou Bella dormindo.

Um homem fascinante Charlie, cauteloso como Bella. Dedicado. Ouvi quando ele saiu, em silêncio e desconectou as baterias da picape de Bella. Como se isso a segurasse se quisesse sair.

Bella se mexeu na cama, fazendo um barulho bem baixo com a garganta, deitando-se com o braço na frente dos olhos; bocejou e rolou pra o lado.

“Oh!” – ela levantou bem rápido.

Os cabelos desajeitados, o rosto mais pálido que o normal.

“O seu cabelo parece um monte de palha… mas eu gosto” – falei tranqüilamente.

“Edward! Você ficou”

Ela atravessou o quarto e se jogou em meu colo, entusiasmada. Segurei o riso e a felicidade de vê-la feliz por me ter ali, era uma sensação diferente, o amor correspondido. Dando-se conta do que fez, Bella congelou em meus braços e me encarou.

Eu ri.

“É claro” – respondi um pouco assustado, mas feliz, esfregando suas costas com minhas mãos. Ela cuidadosamente deitou a cabeça em meu ombro.

 “Eu tinha certeza de que tinha sido um sonho”.

“Você não é tão criativa” – zombei.

“Charlie!” – ela deu um pulo correndo para a porta.

“Ele foi embora há uma hora – depois de desconectar os cabos da sua bateria, eu devo dizer. Eu tenho que admitir que fiquei decepcionado. Será que só isso seria necessário pra te parar, se você quisesse sair?”

Ela ficou parada na porta, sem responder.

“Você geralmente não fica tão confusa de manhã” – reparei. Abri meus braços pra que ela voltasse pra perto de mim.

“Eu preciso de outro minuto humano” – informou ainda na porta.

“Eu vou esperar”

Ela foi para o banheiro e rapidamente já estava de volta.

Eu abri meus braços para recebê-la novamente, satisfeito, me levantei e fui até ela, aninhando-a em meus braços, seu coração batendo erraticamente.

 “Bem vinda de volta” – cochichei.

 “Você foi embora?” – ela acusou tocando o colarinho da minha camisa.

“Eu não podia sair daqui com as mesmas roupas que cheguei. O que os vizinhos iam pensar?”

Ela fez biquinho.

“Você estava profundamente adormecida; eu não perdi nenhum detalhe. Você só começou a falar hoje cedo”.

“O que você ouviu?” – ela gemeu.

“Você disse que me amava”. – informei, segurando seu olhar no meu.

Me recordei do momento exato que coloquei os pés janela a dentro nesta manhã.

“Edward, amo você!” – ela murmurou e se virou para o outro lado, resmungando mais alguma coisa que não compreendi, preso nestas palavras.

Minha respiração parou. Eu a encarei sorrindo e sussurrei: “Também a amo Bells!”

“Você já sabia disso” – ela informou abaixando a cabeça.

“Foi bom ouvir, do mesmo jeito”.

Ela apertou sua cabeça contra meu ombro e sussurrou – “Eu amo você”.

“Você é minha vida agora” – respondi.

Não havia mais nada a dizer no momento. Ficamos ali, enquanto o quarto se iluminava com a claridade do sol.

“Hora do café da manhã” – eu disse, após um momento, me lembrando de suas necessidades.

Então ela tapou o pescoço com as duas mãos e me encarou com os olhos arregalados.  Eu fiquei chocado, sem ação.

“Brincadeirinha” – ela riu silenciosamente -“E você disse que eu não sabia atuar”.

Fiz uma careta de desgosto – “Isso não é engraçado”.

“Foi muito engraçado e você sabe disso”. – ela respondeu examinando minha expressão, que eu procurei suavizar.

“Será que eu devo refrasear?” – perguntei – “Está na hora do café da manhã para os humanos”.

“Oh, tudo bem”.

Eu a joguei sobre o ombro gentilmente enquanto a carregava pelas escadas, ela tentou sem sucesso, protestar.

Na cozinha eu a coloquei sentada numa cadeira.

“O que tem pra o café da manhã?” – ela perguntou prazerosamente.

Hum… o que será que ela come pela manhã? Ovos, bacon? Leite? E onde ela guarda essas coisas? – pensei por um breve momento – “Er, eu não tenho certeza. O que você quer?” – ergui uma sobrancelha.

Ela sorriu, ficando de pé.

“Está tudo bem, eu sei me cuidar sozinha. Me observe caçar”.

Eu a observei carinhosamente. Ela pegou uma tigela e uma caixa de cereais, pegou o leite e uma colher, colocando a comida na mesa e então parou.

“Eu posso pegar alguma coisa pra você?” – ela perguntou educadamente.

 “Só coma, Bella” – rolei os olhos.

A comida dela me parecia… hum…. um horror.

Ela se sentou na  mesa me observando enquanto comia um pouco.

Continuei acompanhando seus movimentos, imaginando o gosto, vendo suas reações.

Me lembrei das apostas ontem, antes de levá-la à clareira e das novas quando comuniquei que a levaria a mansão dos Cullen hoje.

“Edward, não sei se é uma boa idéia trazê-la aqui, com uma família de vampiros que se abstém de sangue humano!” – disse Jasper num tom preocupado. Em sua memória, a lembrança do gosto, que eu logo tentei dissipar.

“Meu amor, ninguém vai atacá-la e vai ficar tudo bem!” – disse Alice no seu tom soprano mais suave.

Em sua visão do futuro, Bella estava sentada ao meu lado no piano, um sorriso deslumbrado  no rosto.

“Eu aposto que ela não passa de amanhã e que teremos que nos mudar mais uma vez!” – disse Rosalie, num tom não muito amigável. Prefiro não lembrar o que ela estava pensando.

“Edward, pode trazê-la meu filho, ela será muito bem vinda. Eu já a amo querido, por que ela trouxe de volta a música para esta casa!” – disse-me Esme, num tom maternal mais amoroso possível.

“O que está na agenda pra hoje?” – Bella perguntou me trazendo de volta de minhas lembranças.

“Hmmm” – tentei formar a pergunta – “O que você diria de conhecer minha família?”

Ela engoliu.

“Você está com medo agora?” – perguntei esperançoso.

“Sim” – ela admitiu.

“Não se preocupe” – sorri -“Eu vou te proteger”.

“Eu não estou com medo deles” – me explicou – “Eu estou com medo que eles… não gostem de mim. Eles não vão ficar, bem, surpresos por você levar alguém…como eu… pra casa pra conhecê-los? Eles sabem que eu sei deles?”

“Oh, eles já sabem de tudo. Eles fizeram apostas ontem, sabia?” – sorri, mas minha voz se tornou um pouco dura, pela lembrança – “Eles apostaram se eu ia te trazer do volta ou não, apesar de eu não ter idéia do porque eles apostaram contra Alice. Sob qualquer perspectiva, nós não temos segredos na minha família. Não é nem possível, já que eu leio mentes e Alice vê o futuro e tudo mais”.

“E Jasper fazendo você ficar mais calmo quando você estava com vontade de botar tudo pra fora, não se esqueça disso”.

“Você estava prestando atenção” – sorri com aprovação.

“Eu aprendi a fazer isso de vez em quando” – brincou – “Então Alice me viu voltando?”

Voltando sim. Transformada. Mortificada em meus braços.

 “Algo assim” – foi o que consegui responder, mas ela me encarou curiosa.

“Isso ai é bom?” – perguntei, me virando pra olhar pra o seu café da manhã com uma cara brincalhona, tentando desviar o assunto -“Honestamente, não parece muito apetitoso”.

“Bom, não é um urso pardo irritado…” – eu fiz uma careta. Ela olhou para o cereal, fazendo especulações.

Fiquei parado ao seu lado, pensando.

“E eu acho que você devia me apresentar ao seu pai também, eu acho”. – afirmei.

“Ele já te conhece”

“Eu quero dizer, como seu namorado”.

 “Porque?” – ela me encarou com um olhar suspeito.

“Não é esse o costume?” – perguntei inocentemente.

“Eu não sei. Isso não é necessário, sabe. Eu não espero que você… finja por minha causa”.

“Eu não estou fingindo”. – sorri pacientemente.

Ela mordeu o lábio, empurrando o cereal para as bordas da tigela.

“Você vai dizer pra Charlie que eu sou seu namorado ou não?” – perguntei.

“É isso que você é?”.

“Eu tenho que admitir que já não sou mais um garoto”.

“Na verdade, eu tinha a impressão de que você era algo mais” – ela confessou olhando fixamente para a mesa.

“Bem, nós não temos que massacrá-lo com todos os detalhes agora” – me inclinei sobre a mesa para levantar o seu queixo com um dedo, gentilmente – “Mas ele precisa de alguma explicação pra o motivo que eu fico aqui tanto tempo. Eu não quero que o Chefe Swan me dê uma ordem de prisão”.

“Você vai ficar?” – ela perguntou -“Você vai ficar aqui mesmo?”

“Até quando você me quiser” – assegurei.

“Eu sempre vou querer você” – ela avisou – “Pra sempre”.

Pra sempre – repeti na minha cabeça.

Eu preferi afastar esse pensamento novamente.

Dei a volta na mesa vagarosamente parando a alguns passos de distância, me inclinando para tocar a sua bochecha com a ponta dos dedos.

“Isso te deixa triste?” – ela perguntou.

Não respondi. A olhei nos olhos por um período de tempo.

“Você já acabou” – perguntei.

Ela se levantou num pulo. “Sim”.

“Vá se vestir- eu vou esperar aqui”.

Enquanto Bella subia para seu quarto, parei ao pé da escada para esperá-la. Eu podia imaginar como seria a recepção em casa, principalmente por Rosalie.

As apostas que fizeram imaginando que eu a feriria. Ah! Mas hoje será diferente. Eles prometeram se comportar e Jazz não vai atacá-la, Alice jurou que não, eu prefiro acreditar nela.

Ouvi os passos de Bells saindo do quarto e me aproximei.

Ela usava uma saia longa, cor de kaki, a blusa azul que eu gosto e prendeu o cabelo num rabo de cavalo.

Ela acabou se chocando comigo e eu a equilibrei, segurando-a cuidadosamente longe de mim, provando a mim mesmo meus instintos e a trazendo pra mais perto novamente.

“Errada de novo” – murmurei em seu ouvido – “Você está muito indecente- ninguém

devia ser tentadora assim, não é justo”.

“Tentadora como?” – ela perguntou – “Eu posso me trocar…”

Eu suspirei, balançando a cabeça. “Você é muito absurda” – beijei sua testa delicadamente.

“Será que eu devo explicar como você é tentadora pra mim?” – lhe disse.

Passei meus dedos vagarosamente pela sua coluna, respirando forte próximo de sua pele. Suas mãos estavam no meu peito, me sentindo aquecer a pele gelada. Abaixei minha cabeça devagar e encostei levemente meus lábios nos dela por um segundo, muito cuidadosamente, fazendo eles se abrirem.

Então ela desabou nos meus braços.

“Bella?” – eu tentava mantê-la em pé.

“Você…me…deixou…tonta” – ela explicou.

“O que é que eu faço com você?” – gemi atordoado – “Eu te beijei ontem e você me atacou! Hoje você desmaia nos meus braços!”

Ela sorriu fracamente, enquanto ainda a segurava em meus braços. Os olhos perdidos.

“É isso que eu ganho por ser bom em tudo” – suspirei.

“Esse é o problema, você é bom demais. Muito, muito bom”.

“Você está passando mal? – perguntei aflito.

“Não- não é o mesmo tipo de tontura. Eu não sei o que aconteceu” – ela balançou a cabeça pedindo desculpas – “Eu acho que esqueci de respirar”.

“Eu não posso te levar a lugar nenhum desse jeito”.

“Eu estou bem. Sua família vai pensar que eu sou louca do mesmo jeito, qual é a diferença?”

Observei sua expressão por um instante.

“Eu gosto muito do tom da sua pele” – lhe disse observando ela corar e desviar o olhar – “Olha, eu tô dando muito duro pra não pensar no que eu estou fazendo, então será que já

podemos ir?” – perguntei. – “E você está com medo não porque vai pra uma casa cheia de vampiros, mas porque você tem medo que esse vampiros não aprovem você, correto?”

“É isso mesmo” – Bella respondeu imediatamente.

Balancei a cabeça – “Você é incrível”.

 

Caminhamos até a caminhonete de Bella e saímos a caminho de casa, passando sobre a ponta do rio Calawah, pegando a estrada que ia para o norte, dirigindo na direção da floresta, virei numa estrada sem pavimento, sem sinalização, entre as árvores. A floresta se estendia pelos dois lados, deixando a estrada á frente visível discernível apenas por causa de umas curvas em formato de serpente, ao redor das árvores antigas.

Fiquei observando Bella enquanto dirigia, os olhos examinavam todo o trajeto, observando o caminho, as arvores.

Fiquei quieto, tentando não pensar nela como humana numa casa cheia de predadores, mas em Bella como minha namorada, futura esposa.

Continuei pela estrada passando por uma pequena clareira. avistando logo mais a Casa dos Cullen.

Nossa casa era antiga, pintada de um branco suave, com três andares, era retangular e bem proporcionada. As janelas e portas faziam parte da estrutura original.

“Uau”.

“Você gostou?” – sorri.

“Tem…um certo charme”.

Dei um puxãozinho na ponta do seu rabo de cavalo e soltei uma gargalhada.

“Pronta?” – perguntei, abrindo a porta.

“Nem um pouquinho- vamos lá” – ela fingiu um sorriso, passando a mão no cabelo nervosamente.

“Você está adorável” – peguei sua mão.

Caminhamos pelo longo portal de entrada. Ela estava tensa, a respiração ofegante, mesmo tentando suavizá-la, o coração estava batendo erraticamente e suas mãos tremiam um pouco. Eu fazia círculos nas costas de sua mão com o polegar, tentando tranqüilizá-la, mas eu também estava tenso.

Abri a porta e Bella entrou devagar, observando tudo.

Muito clara, muito aberta e grande. O fundo, virado para o sul foi inteiramente em vidro e , além da sombra das árvores, o quintal terminava num rio enorme. Uma escada dominava o lado oeste da sala. As paredes, o teto baixo, o chão de madeira, e os finos tapetes, eram todos de tons variantes de branco.

Meus pais estavam esperando por nós, em pé no lado esquerdo da porta.

Eles dois estavam vestidos casualmente, com roupas claras. Nos deram um sorriso de boas vindas, mas não fizeram nenhum movimento para se aproximar, na tentativa de não assustar Bella.

 

 

“Edward, bem vindo filho!” – Carlisle pensou olhando em meus olhos, sem movimentar um músculo de seu rosto.

“Linda!” – suspirou Esme em seus pensamentos.

Sorri para ela aprovando.

“Carlisle, Esme” – falei quebrante o silêncio – “Esta é Bella”.

“Seja bem vinda, Bella” – disse Carlisle, aproximando-se devagar, cuidadosamente. Ele ergueu sua mão e Bella deu um passo á frente balançando a mão dele.

“É bom vê-lo de novo, Dr. Cullen”

“Por favor, me chame de Carlisle”.

“Carlisle” – ela sorriu.

Toda a tensão do momento se dissipou. Bella nos tratava como iguais, a impressão que me dava, é que ela se esquecia que estava numa casa  com vampiros e que seu perfume era um dos mais atrativos.

Esme sorriu e também deu um passo á frente, indo na direção de Bella, com um aperto de mão firme.

“É muito bom conhecer você” – ela disse sinceramente.

“Obrigada. É bom conhecer você também” – Bella respondeu. .

“Onde estão Alice e Jasper?” –  perguntei, mas ninguém respondeu, eles apareceram no topo da escada.

“Ei, Edward” – Alice me chamou entusiasmada – “Minha amiga chegou!” – ela pensou sem olhar para mim.

Ela correu escada abaixo, uma mistura de cabelos pretos e pele branca, parando na frente de Bella. Carlisle e Esme olharam para ela com olhos cheios de avisos e em seus pensamentos pedindo cautela.

“Oi, Bella” – ela disse dando um beijo na bochecha de Bella.

Carlisle e Esme ficaram alarmados e havia choque nos olhos de Bella também, apesar do sorriso que suspendeu suas bochechas.

Fiquei rígido, cauteloso. Esquecendo-me de respirar como os humanos.

“Nossa! Ela realmente cheira bem!” – pensou Alice ao se afastar de Bella.

“Não vou atacá-la! Não vou machucá-la!” – pensava Jasper a uma distancia razoável de Bella.

 “Você realmente cheira bem, eu não tinha reparado antes”. – comentou Alice.

Ninguém mais parecia saber exatamente o que dizer e então Jasper estava lá- alto e

leonino. Um sentimento de paz passou pelo meu corpo, e de repente eu estava

totalmente a vontade a despeito de onde eu estava.

Olhei pra Jasper, levantando um sobrancelha.

“Ninguém vai fazer besteira aqui hoje Edward!” – Jasper pensou devolvendo-me o olhar.

 “Olá, Bella” – Jasper disse, mantendo a distância.

“Olá, Jasper” – respondeu timidamente pra ele, e depois para os outros-“e vocês têm

uma casa linda” – comentou.

“Obrigada” – Esme disse – “Estamos muito felizes por você ter vindo”.

“Filho, temos visitantes por perto. Tome cuidado. Eles não são vegetarianos e estão próximos de Forks”. – Carlisle pensou enquanto me encarava.

Com um aceno de cabeça mostrei que entendi.

Os ânimos estavam se acalmando e com a presença de Jasper, melhoravam mais.

Percebi Bella olhando para o piano na saleta de musica, mas quem comentou foi minha mãe.

 “Você toca?” – ela perguntou, inclinando a cabeça na direção do piano.

Ela balançou a cabeça – “Nem um pouco. Mas é lindo. É seu?”

“Não” – ela riu – “Edward não te contou que é um músico?”

“Não” – ela me olhou enquanto eu revirava os olhos para Esme – “Mas eu já

devia saber, eu acho”.

Esme ergueu suas sobrancelhas delicadas, confusa.

“Edward consegue fazer tudo, não é?” – Bella explicou.

Jasper riu silenciosamente e Esme me deu  uma olhada de reprovação.

“Eu espero que você não tenha ficado se mostrando- é rude” – Ela me repreendeu.

“Só um pouquinho” – sorri.

O rosto dela se suavizou com o som.

“Toque para ela Edward, a canção maravilhosa que compôs”. – Esme falou em seus pensamentos.

 “Na verdade, ele foi modesto demais” – Bella comentou.

“Bem, toque pra ela” – Esme encorajou novamente, agora em ávida voz.

“Você acabou de dizer que ficar me mostrando era rude” – lhe disse.

“Pra toda regra há uma exceção” – ela replicou.

“Eu gostaria de te ouvir tocar” – Bella informou.

“Está resolvido, então” – Esme me empurrou na direção do piano. Eu a puxei comigo, fazendo com que se sentasse ao meu lado no banco. Lhe dei um olhar longo, exasperado antes de virar as chaves.

Sonhei tantas vezes com esse exato momento. Eu estava realmente nervoso.

Então toquei meus dedos nas teclas e comecei a tocar.

Bella estava com a boca semi aberta, surpresa.

Alice estava atrás de mim e soltou gargalhadas pela reação de Bella.

“Ela é maravilhosa Edward!” – pensou Alice, enquanto vasculhava no futuro algum ataque contra Bella.

Olhei para Bella casualmente – “Você gosta?”

“Você compôs isso?” – ela gaguejou.

Afirmei com a cabeça. “É a favorita de Esme”.

Ela fechou os olhos, balançando a cabeça.

“Qual é o problema?”

“Eu estou me sentindo extremamente insignificante”.

Troquei a musica, tornando-a mais leve. A canção de Bella.

“Essa é inspirada em você”, lhe disse suavemente.

Atrás de mim, vozes. Vozes em minha cabeça.

“Ela é linda!” – “Realmente, parece entender nossa família!” – “Ela não tem medo!” – pensamentos misturados de minha família.

“Eles gostam de você, sabe” – disse convencionalmente – “Especialmente Esme”.

Ela olhou pra trás, mas todos haviam saído para nos dar privacidade.

“Onde eles foram?”

“Estão tentando nos dar privacidade, eu acho”.

Ela suspirou. “Eles gostam de mim. Mas Rosalie e Emmett…” – ela parou.

Fiz uma careta – “Não se preocupe com Rosalie” – lhe disse – “Ela vai aparecer”.

Seus lábios se contorceram ceticamente. “Emmett?”

“Bem, ele acha que eu sou um lunático, e é verdade, mas ele não tem nenhum problema

com você. Ele só está tentando apoiar Rosalie”.

“Porque é que isso aborrece tanto ela?”

Suspirei longamente – “Rosalie tem mais problemas com… com o que você é. Pra

ela é difícil ter alguém de fora sabendo da verdade. Ela está com um pouco de inveja”.

“Rosalie tem inveja de mim?” – ela perguntou incrédula.

“Você é humana” – ergui os ombros – “Ela também queria ser” – ter filhos… Continuei em meus pensamentos.

“Oh” – ela murmurou -“Porém, até Jasper”.

“Na verdade aquilo foi culpa minha” – disse – “Eu te disse que ele foi o último de nós

a tentar se adaptar ao nosso meio de vida. Eu pedi que ele mantivesse distância”.

Senti Bella tremer.

“Carlisle e Esme?” – continuou rapidamente.

“Eles estão felizes por me ver feliz. Na verdade, Esme não se importaria se você tivesse

três olhos e pés gigantes. Durante todo esse tempo, ela temeu por mim, achando que eu

estava perdendo algo essencial por conta da transformação, que eu era jovem demais

quando Carlisle me transformou… ela está radiante. Toda vez que eu te toco ela fica

prestes a explodir de alegria”.

“Alice parece muito… entusiasmada”.

“Alice tem a sua própria forma de enxergar as coisas” – lhe disse com os lábios apertados.

“Você não vai me explicar isso, vai?”

Um momento de comunicação sem palavras passou por nós. Ela se deu conta de que estava escondendo alguma coisa, mas que eu não iria contar. Dar mais idéias a Bella? Melhor não.

“Então o que Carlisle estava te dizendo mais cedo?”

Minhas sobrancelhas se juntaram. “Você percebeu, não foi”.

 “É claro” – ela levantou os ombros.

A olhei pensativo por alguns segundos antes de responder.

“Ele queria me contar uma novidade- ele não sabia se era algo que ele devia compartilhar com você”.

“Você vai?”

“Eu tenho, porque eu vou ficar um pouco… insuportavelmente super protetor nos próximos dias – ou semanas – e eu não quero que você pense que eu sou naturalmente

insuportável”.

“O que há de errado?”

“Nada errado, necessariamente. Alice viu alguns visitantes se aproximando. Eles sabem

que estamos aqui, e estão curiosos”.

“Visitantes?”

“Sim, bem…eles não são como nós, é claro- nos seus hábitos alimentares, eu quero

dizer. Eles provavelmente nem vão aparecer na cidade, mas eu certamente não vou tirar

os olhos de você de jeito nenhum, até que eles tenham ido embora”.

Ela se arrepiou.

“Finalmente uma resposta racional!” – murmurei – “Eu já estava começando a acreditar que você não tinha o menor senso de auto-preservação”.

Ela não respondeu, olhando ao redor, seus olhos admirando a sala.

Segui meu olhar – “Não é o que você esperava, não é?” – perguntei com uma voz presumida.

“Não” – ela admitiu.

“Sem caixões, sem caveiras empilhadas nos cantos; eu nem acho que temos teias de

aranha… que decepção isso deve ser pra você” – zombei.

“É tão clara… tão aberta”.

“É o único lugar onde não precisamos nos esconder”.- respondi seriamente.

A música que ainda estava tocando, foi chagando ao fim, as notas finais mudando para um tom mais melódico. A última nota ecoou no silêncio.

“Obrigada” – ela murmurou com lágrimas nos olhos, que ela enxugou envergonhada.

Toquei o canto dos seus olhos, enxugando-o. Levantei o dedo, sentindo a textura e a umidade da gota e coloquei o dedo na boca para experimentá-la, curioso.

Ela me olhou questionadoramente, e a olhei  por um momento e sorri.

“Você quer ver o resto da casa?”

“Não tem caixões?” – com sarcasmo e ansiedade na sua voz.

Sorri, pegando sua mão, levando-a pra longe do piano.

“Sem caixões” – prometi.

Nós subimos a enorme escadaria, sua mão passando pela superfície delicada do

corrimão. O longo corredor que se seguia ás escadas era revestido com uma madeira cor

de mel, a mesma das madeiras do chão.

“O quarto de Rosalie e Emmett… o escritório de Carlisle… o quarto de Alice” – apontando para os cômodos enquanto passávamos pelas portas.

Ela parou no fim do corredor, com olhar incrédulo para o ornamento pendurado na parede acima de nossas cabeças. Soltei uma gargalhada por causa da sua expressão.

“Você pode sorrir” – disse – “É mesmo um pouco irônico”.

Ela não riu, levantando a mão automaticamente com um dedo erguido para tocar a grande cruz de madeira. A madeira escura contrastava com o tom claro das paredes.

“Deve ser muito antiga” – adivinhou.

Ergui os ombros – “Do início da década de 1630, mais ou menos”.

Ela desviou o olhar da cruz pra olhar pra mim.

“Porque vocês mantêm isso aqui?” – perguntou.

“Nostalgia. Pertenceu ao pai de Carlisle”.

“Ele colecionava antiguidades?” – ela perguntou duvidosa.

“Não. Ele mesmo a fez. Costumava ficar na parede sobre o altar da sacristia onde ele

pregava”.

Seu rosto ficou chocado enquanto ela desviava o olhar de volta para a cruz, ficando totalmente em silencio.

 “Você está bem?” – fiquei preocupado.

“Quantos anos Carlisle tem?” – ela perguntou baixinho, ignorando minha pergunta, ainda olhando pra cima.

“Ele acabou de celebrar seu aniversário de trezentos e sessenta e dois anos” – disse.

Ela me olhou com olhar curioso e aflito.

“Carlisle nasceu na Inglaterra, na década de 1640, ele acha. Naquela época o tempo não

era tão contado quanto hoje, pelos menos não para as pessoas comuns. No entanto, foi

logo antes da lei de Cromwell”. – respondi cuidadosamente, estudando suas expressões.

“Ele era filho de um pastor Anglicano. A mãe dele morreu no parto. Seu pai era um homem intolerante. Quando os protestantes chegaram ao poder,ele foi a favor da perseguição dos católicos romanos e de outras religiões. Ele também acreditava muito

fortemente no poder do mal. Ele comandou caçadas por bruxas, lobisomens… e vampiros.” – ela ficou muito rígida quando disse, mas continuei.

“Eles queimaram muitas pessoas inocentes- é claro que as criaturas que eles estavam

procurando não eram tão fáceis de pegar. Quando o pastor ficou velho, ele ordenou que seu filho obediente ficasse em seu lugar. No começo, Carlisle foi uma decepção; ele não via ninguém pra acusar tão rapidamente, não via demônios que não existiam. Mas ele era insistente e mais inteligente que o seu pai. Ele realmente descobriu um covil de vampiros de verdade que viviam se escondendo nos esgotos da cidade, só saindo durante a noite, pra caçar. Naqueles tempos, quando essas criaturas não eram só lendas e mitos, era assim que eles viviam.

“As pessoas pegaram suas tochas e lanças, é claro”- dei um sorriso sombrio, como se somente isso pudesse parar um vampiro e continuei – “e esperaram onde Carlisle havia visto um deles saindo para a rua. Finalmente, um deles saiu”. – falei com voz baixa.

“Ele devia ser muito velho, e fraco com fome. Carlisle ouviu ele chamando os outros

em Latim quando sentiu o cheiro das pessoas. Ele correu pelas ruas, e Carlisle -que tinha

vinte e dois anos e era muito rápido – estava liderando a perseguição. A criatura poderia

facilmente despistá-los, mas Carlisle acha que ele estava com muita fome, então ele se

virou e atacou. Ele pulou em Carlisle primeiro, mas os outros estavam logo atrás, e ele

virou pra se defender. Ele matou outros dois homens, se alimentou de um terceiro e deixou Carlisle sangrando na rua” .

Parei, tentando não dar muitos detalhes e nem novas idéias para Bella. .

“Carlisle sabia o que seu pai ia fazer. Os corpos seriam queimados- tudo que haviam

sido infectado pelo monstro tinha que ser destruído. Carlisle agiu instintivamente pra

salvar sua vida. ele saiu da rua rastejando enquanto o resto do bando corria atrás do demônio. Ele se escondeu numa plantação, se escondendo numa colheita de batatas por

três dias. Foi um milagre que ele tenha conseguido se manter em silêncio, permanecer

em segredo sem ser descoberto. Então tudo acabou e ele descobriu no que havia se transformado”.

Sua expressão era indecifrável então parei.

 “Como você está se sentindo?” – perguntei.

“Eu estou bem” – me assegurou.

E de repente ela mordeu o lábio com hesitação, a curiosidade queimando nos seus olhos.

Sorri – “Eu espero que você tenha mais perguntas pra mim”.

“Algumas”.

Meu sorriso cresceu e comecei a andar pelo corredor, puxando-a pela mão. “Venha, então” – encorajei – “Eu vou te mostrar”.

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