Atualizado Completo

 

A História que Não foi Contada

Renesmee
17:11 pm

– Eu não acredito que tentou matar a garota.
– Se eu quisesse matá-la vocês teriam um cadáver no jardim agora.
– Isso não é brincadeira Nessie, ela é humana, você poderia ter quebrado o pescoço dela sem nem perceber. Poderia tê-la matado.
– É, mas não matei. Acho que isso já é alguma coisa. – Eu estava no quarto, retirando calmamente minhas roupas arruinadas. Enquanto me despia, tentava evitar o olhar angustiado de minha mãe. Lá embaixo meu pai tentava explicar o incidente à Sam e Emily, eu não podia ouvir o quê eles diziam do outro lado da linha, mas já havia contado nove vezes a frase: “Ela não teve a intenção, peço desculpas pelo mal entendido.”
Mal entendido! Alguém esquece de mencionar que Sara Black foi morta por vampiros e eu é quem sou responsável pelo mal entendido. Fechei a porta atrás de mim.
A pilha de roupas ia crescendo atrás de mim com terra e folhas secas se espalhando num rastro pelo carpete. No espelho do banheiro encarei meu rosto manchado de terra.
Liguei o chuveiro e me apoiei nos azulejos impecavelmente brancos. A água correu e tingiu o box de marrom e vermelho. O quê há de errado comigo, pensei. Por quê sair do controle estava se tornando algo tão comum para mim? Era pior ainda vir para casa e estar entre minha família modelo de auto controle. Talvez eu tenha desaprendido a ser humana, talvez eu tenha me tornado o quê eu era realmente.
De olhos fechados eu revia a expressão de desespero nos olhos de Quil, enquanto o corpo molenga de Claire pendia em meus braços. Acho que ele imaginou que eu a havia matado, que estava tudo acabado para ele. Posso imaginar o quê ele sentiu. Eu só queria que meu pai não tivesse me tirado do caminho, queria que Quil tivesse tido mais tempo comigo. Eu merecia a dentadas, talvez um pouco de dor me fizesse acordar para a realidade, por quê eu me sentia constantemente presa num pesadelo, onde todos eram monstros, inclusive eu.
Na melhor das hipóteses, eu jamais poderia colocar os pés em La Push novamente, principalmente agora que toda a merda sobre a morte de Sarah Black veio a tona.
O conselho quileute iria se reunir naquela noite e enquanto eles discutissem o antigo segredo, o jatinho particular dos Cullen estaria sobrevoando o espaço aéreo da distante ilha onde Aro e Jane aguardam, sem saber o quê os espera.
Algo dentro de mim dizia que eu não voltaria a ver Jacob Black depois desse dia.

Jacob Black
16:44pm

Eu nunca soube que meu pai mantinha um diário, de modo que, quando Rachel, de olhos lacrimejados, me entregou o pequeno embrulho de couro, eu de início não entendi.
A notícia se espalhara como vento na matílha. Do lado de fora, um vai e vem de patas se revezava em minha porta, espreitando entre as árvores do jardim. Mas eu não queria ver ninguém. Não tinha o quê dizer a nenhum deles e o silêncio parecia ser a coisa mais correta que eu poderia fazer agora.
Claire havia ateado fogo na palha seca, e agora o segredo mais sujo da família Black estava exposto. “Billy queria te contar há anos Jake, mas você nunca estava aqui.” disse Sue Clearwater com uma pontada de acusação na voz rouca. Ela era uma das poucas pessoas que sabiam o quê realmente acontecera com minha mãe, uma das poucas que ajudara a abafar a história que deveria ter sido contada. Só que aparentemente Sue estava certa, eu não estive muito presente nos últimos oito anos. Eu não sabia se isso melhorava alguma coisa.
O quê mais me matava, entretanto, era não poder fazer nada. O passado estava fora do meu alcance e nada do quê eu fizesse traria minha mãe de volta.
Um nome. Uma localização. O conselho não quis me dar nada, disseram que a criatura já havia sido incinerada há anos, mas como eu poderia aceitar isso? Como poderia simplesmente continuar com minha vida agora?
Um bando de desculpas burocráticas, era isso o quê eu estava tendo ao invés das respostas que havia pedido. Isso só afirmava com mais rigor minha idéia de que não suportaria liderar por muito tempo. Eu não fora feito para debates e não suportava ter que ouvir argumentos, para mim, as coisas eram bem simples. Existe o certo e o errado, o bom e o ruim, os que punem e os que devem ser punidos. Qualquer detalhe a mais é perda de tempo, mesmo para quem é imortal.
O diário de Billy foi tudo que eles puderam dar a mim e a minha irmã. Rachel, aparentemente estava segurando melhor a pedrada, talvez por quê ela fosse mais forte que eu ou talvez por quê ela não tivesse que carregar o peso de estar apaixonado por um deles. Um deles – o inimigo. E essa era a parte onde tudo se tornava um borrão. A única coisa que eu conseguia ver era ela, o fogo crispando nos olhos que um dia foram apenas doces. Ela estava indo embora, se afastando e afundando numa escuridão que eu não sabia se existia só dentro da minha cabeça ou se vinha dela mesmo, e engolia minha razão, meu corpo inteiro preso num abraço frio de quebrar os ossos.
Tudo que eu podia ver era a cratera se abrindo entre nós, talvez – e eu sentia isso na minha carne – fosse meu coração se raxando no meio.

Renesmee
18:03pm

O Guardian deslizava pela rodovia, costurando uma fila de carros cada vez mais escassos. Meu pai estava a 180km. O sol se deitava atrás das árvores, através do insufilm escuro dos vidros a última coisa que me lembro de notar foi a placa dos limites de Forks ficando para trás num piscar de olhos. Um borrão de letras meio apagadas que formavam um adeus silencioso em minha retina.
Fechei os olhos. A viajem seria longa.

Jacob
18:33pm

Não importa mais… Eu apenas tenho que fazer isso.

Renesmee
19:07pm

Só percebi que havia adormecido quando meu pai tocou meu ombro com um leve afago. Abri os olhos e demorei alguns segundos para situar as idéias, não foi algo que gostei de fazer, no entanto. Na verdade foi como puxar uma descarga.
– Chegamos? – murmurei. Meu pai deu uma olhada para fora, por cima do ombro. O Guardian estava parado no acostamento de uma estrada secundária. Minha mãe e Lavínia estavam do lado de fora. Num salto me coloquei para fora do carro.
– Que diabos está… – Ah droga, pensei. A moto ainda ronronava, fumegante, no meio fio. – O quê está fazendo aqui Jake? Veio cobrar sua dívida? – Falei, com raiva, indo de encontro a ele.
Jacob esperou, com os olhos calmos de quem não está acostumado a desistir, certas vezes eu odiava aquele olhar – como agora.
– O quê você quer? – Tive o bom senso de deixar uma boa distancia entre nós. Jacob continuou me olhando em silêncio, estava me preparando para retrucar quando ele disse:
– Vou com vocês. – Vasculhei minha mente atrás de algo para dizer a ele, mas a única coisa que conseguia sentir era raiva, e como era difícil contê-la…
– Como pretende lutar contra Aro agora que optou por sua forma humana? Trouxe algum taco de baseball? – Jacob me encarou, sustentei seu olhar e logo descobri que não era uma boa idéia. Minha raiva derreteu e em minha mente só havia lamentos, súplicas para que ele desistisse dessa idéia tola e voltasse para casa.
– Jake… – começei a dizer, ele me interrompeu, começou a caminhar tranquilamente em direção ao carro.
– Isso não é uma escolha sua e o quê aconteceu hoje não muda nada. – Ele disse. Fiquei encarando suas costas sem saber como contestá-lo. Mas eu não estava pronta para desistir.
– Você não entende não é? Nós não podemos mais ficar juntos. – Gritei. As palavras saíram geladas, cortantes… Jacob parou, virou-se para mim com um brilho estranho nos olhos. Por meio segundo seu rosto pareceu vacilar.
– Tem razão, eu não entendo, mas isso não se trata de nós. Não mais.

Pouco mais de duas horas de viajem, estávamos próximos ao local onde o jatinho nos esperava. Fiquei surpresa ao saber que o velho J. Jenks ainda tomava conta dos negócios da família, e que ainda era a fonte mais confiável quando se precisava de coisas um tanto ilegais.
Mais tarde naquela noite, enquanto nos preparávamos para decolar, Carlisle ligou dizendo que já estava com Alice em Forks e que Rose e Emmet pegariam um vôo comercial para nos encontrar, enquanto ele e Esme levavam Alice e Jasper até Alec, na Itália. Nos encontraríamos em Londres, daqui duas noites. Eu não gostava desse plano, não gostava da idéia de fazer escalas, cada segundo a mais era uma chance a menos, o tempo parecia gritar em meus ouvidos.
Percebi alguns olhares inquietos de meu pai, e por conhecê-lo tão bem eu sabia que ele também estava enxergando os furos naquele plano. Me perguntei quem teria coragem de falar sobre aquilo primeiro.

“…mais cinquenta desaparecimentos contabilizados desde a última sexta-feira na região de Thurso. Autoridades britânicas alertam os civis para não sair de casa após as 18 horas…” O noticiário balbuciava no fim do corredor estreito. Da minha poltrona ao fundo, eu tentava me concentrar no murmúrio das turbinas do lado de fora, mas o lado de dentro da minha cabeça murmurava muito mais alto.
Aro provavelmente estava se locomovendo pelo mar, era prático, rápido e cem porcento mais discreto. Nada de cheiro, de rastro ou de ser visto por humanos e não humanos. Estava se mantendo no litoral, mas relativamente longe de seu esconderijo – Islândia.
Eu escutava apenas superficialmente o balbuciar tranquilo de meus pais três fileiras a frente. Jacob cochilava, ocupando as duas poltronas mais distantes possíveis de mim. Lavínia folheava uma revista de moda mecanicamente, os olhos dela vagavam por páginas que ela não lia.
Tic tac, tic tac… eu tentava não ficar encarando os pontos da lataria onde o metal poderia ser facilmente rompido, estávamos sobrevoando o oceano, era um atalho interessante… me perguntei se o humano que pilotava o jato morreria ou se meus pais dariam um jeito de salvá-lo antes da queda. Isso provavelmente iria rebaixar meus créditos de sanidade a zero.
Fechei meus olhos por um segundo…

*******

-Eu encontrei a fonte.- Disse Eleazar do outro lado da linha.
– Onde? – perguntou meu pai, os olhos inquietos varriam o saguão vazio da pista de pouso clandestina em que pousamos há menos de cinco minutos.
-Turquia. Você tinha razão, Vladimir e Stephan estão envolvidos.
– Tudo bem. Preciso fazer uns acertos, logo retorno com as coordenadas, e Eleazar… espere por mim, não faça nada impensado. – alertou meu pai.
-Aguardo informações. – disse Eleazar, desligando em seguida.
Quatro pares de olhos encaravam aturdidos a conversa que acabara de se desenrolar.
Ele não precisava dizer nada, no entanto. Todos sabiam o quê aquilo significava.
-Eu estava certa, não é?- pensei. Meu pai cruzou meu olhar, ele não tinha escolha agora.
– Precisamos fazer uma mudança de planos. – disse ele. Um vinco de reprovação sulcou a testa lisa de minha mãe. – Eleazar e Kate estavam nos ajudando a rastrear a origem dos filhos da lua, precisávamos saber com que tipo de criatura estávamos lidando para chegar pelo menos perto de encontrar uma cura. Pois bem, eles encontraram.
– Vladimir e Stephan. – Falou minha mãe.
– Eu disse que a negociação deles com Aro era mais séria do quê imaginávamos. Não eram só os pergaminhos que eles trocaram por Alice, deve haver mais… eles sabem de algo mais. – A excitação crescia em meu peito ao mesmo passo que minhas mãos formigavam. Estávamos tão perto… a faca e o queijo estavam ali, em nossas mãos. Um silêncio pesado caiu sobre nossas cabeças a medida que a única conclusão possível se formava.
– Teremos que nos separar. – Disse Jacob. Apesar de não gostar de ouvir seus pensamentos em voz alta, meu pai assentiu.
– Eu preciso encontrar Eleazar e Kate na Turquia, eles estão perto demais. Preciso dessa informação direto da fonte, direto das mentes de Vladimir e Stephan. – disse meu pai.
– E ao mesmo tempo não podemos deixar a pista de Aro esfriar. Ele não vai esperar eternamente naquela ilha. – Falei, e naquele momento senti que finalmente o jogo começava a nos favorecer. – Pai, me deixe fazer isso. – Disse, me aproximando dele.
– Não. – grunhiu minha mãe.
– Nós não temos escolha. – Falei, minha voz saiu mais alta do quê eu esperava.
– Nós não sabemos o quê Aro está fazendo naquela ilha Ness, eu não vou mandar minha única filha para a morte.
– Eu e Lavínia estivemos seguindo o rastro dele por um ano e ele não nos percebeu, somos as únicas capazes de seguí-lo sem sermos detectadas.
– Ela está certa Bella. – Disse Jacob. – E eu não gosto disso mais do que você, acredite
– Jacob, fique fora disso! – ela ameaçou. Me aproximei de minha mãe. Éramos da mesma altura, tínhamos os mesmos ombros pequenos, a mesma fragilidade enganadora, os mesmos olhos cintilantes, obstinados por um ideal
– Quantas vezes você apostou sua vida humana, muito mais frágil e valiosa que a minha, para salvar aqueles que você amava? Quantas vezes você sangrou por eles? – Os olhos dela queimavam dentro dos meus, e lá no fundo, era como se eu visse a garota desajeitada da qual tanto me falaram na infância. A garota desajeitada que salvara a todos, oito anos antes. – Não me peça para ficar sentada enquanto todos que eu amo estão ameaçados, eu já perdi muito mais do quê você teve de perder. – Minha mãe ficou me olhando e naquele momento eu não fazia idéia do quê se passava naquela caixa lacrada, mas algo me dizia, de uma forma que eu não conseguia explicar, que ela entendia… que ela sentia o mesmo que eu.
– Ela vai nos prometer que não vai entrar em contato direto com Aro. – Disse meu pai atrás de mim. O rosto de minha mãe vacilou.
– Eu vou com ela Bella. – Falou Jacob. Olhei pra ele em represaria, ele sorriu. – São os termos da sua autorização de caça.
– Tudo bem. – Falei. – Vou segui-lo das sombras e vigiá-lo de longe. Só… por favor… se apressem.

 

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