Gente, não viajem… Eu não disse que iria parar de escrever Nightfall, disse apenas que iria fazer isso no meu tempo, e ai está. A história continua até o final.
Boa leitura a todos!

 

9. Belas Mentiras

– Alice, se ficar, vai estar desprotegida, não tem fundamento algum ficar. – Meu pai havia acabado de estacionar o antigo Mercedes Guardian de minha mãe em frente a casa, eu havia me esquecido daquele carro e da garagem sempre cheia nos fundos da casa.
– Ele tem razão Alice. – Falei, ela pousou seus olhos calmos em mim, o rosto era uma máscara vazia, uma consciência superficial do sentido da palavra “perigo”.
– Não posso arriscar mais uma viajem com ele, não sabemos os riscos que isso pode apresentar para o estado dele. – Ela falou, estava impassível.
– Ele está congelado, como uma estatua. – Eu não queria ser insensível nem nada, mas em minha cabeça havia um relógio, e ele estava correndo muito rapidamente. – Olhe, eu e Lavínia desenterramos Willian há alguns dias. Ele estava exatamente o mesmo de um ano atrás. Talvez seja uma opção…
– Não. – Ela disse. – Jass fica comigo.
– Tudo bem, eu entendi… – Falei. – Não posso te pedir isso mas gostaria que considerasse sua segurança apenas por um momento. Ele precisa de você agora, e se algo acontecer a você, então tudo isso vai ter sido em vão…

Alice encarou suas mãos, ponderou em silêncio por alguns minutos enquanto eu e meu pai colocávamos algumas bolsas no porta malas. Era pouco mais de nove da manhã, mas o dia estava cinzento, carregado de nuvens. O horizonte era uma linha roxa, sólida como um muro nos cercando. Eu estava pensando no quão turbulenta seria nossa viajem quando meu pai se virou para Alice e disse:
– Acha que é uma boa idéia?
– É minha condição. – Ela disse. E subiu as escadas para o interior da casa.
– Alice vai conosco. – Disse meu pai. Suspirei aliviada. – Mas ela quer ficar com Alec enquanto caçamos Aro.
– Alec? Por quê ela ficaria com Alec? – Perguntei.
– Para ela é a opção mais segura, e eu meio que concordo. Alec vai ser capaz de protegê-la contra possíveis ataques, e ela pode ajudá-lo a antecipá-los.
Pensei sobre aquilo, e tinha que admitir que fazia um certo sentido, embora eu já me sentisse incomodada com a perspectiva de encarar Alec novamente. A alguns metros de nós, Lavínia observava em silêncio. Os olhos dela estavam mais escuros essa manhã, pareciam duas bolas de sangue coagulado. Eu sabia que ela não estava com sede, por quê ela havia me seguido noite passada e nós acabamos caçando juntas, era algo diferente ali nos olhos dela. Eu só podia especular, estava me sentindo mais acordada também, depois de tanto tempo esperando por uma chance de pegá-los – Aro e Jane – finalmente haviam despontado no horizonte, exatamente como as manchas roxas daquela manhã.
Terminamos de acomodar as bolsas no porta malas do Guardian, que em seguida foi levado por meu pai até os fundos da casa, não perguntei por quê. Sinceramente, eu não entendia a utilidade de bagagens, mas minha cabeça estava cheia demais para pensar naquilo, ou contestar. Estava às voltas com devaneios medíocres, pontas soltas, algo que me fizesse não pensar no desastre iminente que seria aquela viajem. Eu não sabia bem como, mas eu precisava pensar numa forma de despistá-los em algum momento, mas não havia perspectivas muito boas quanto a isso, tendo em vista que pensar num plano com meu pai em meus calcanhares tornava tudo um pouco mais complicado. Um pouco.
Eu não conseguia aceitar aquelas condições, não havia como conciliar a idéia de colocá-los no olho do furacão novamente – não que eu me achasse plenamente capaz de cuidar de toda aquela sujeira sozinha. Mas mesmo assim…
As vezes, quando eu conseguia pegar no sono, eu sempre sonhava com o incêndio de Volterra. Podia até sentir o cheiro da fumaça acre, dos corpos queimando entre os escombros. Eu via os túneis úmidos do castelo e era como se eu pudesse sentir a friagem das paredes me tocando. E era todo o inferno de novo… as imagens estavam vívidas demais em minha mente, eu lembrava-me dos rostos, dos grunhidos, os sons e o cheiro da luta que se alastrava pela cidade, e depois o fogo… O fogo consumindo tudo. Sempre acordava com os gritos de Alice, e o rosto inanimado de Jasper sempre permanecia estampado em minha retina, mesmo depois de abrir os olhos. Eu não sabia o quê estava por vir, mas simplesmente não podia correr o risco, não podia deixar Aro chegar tão perto quanto esteve naquela manhã.
Contudo, as coisas continuavam a escorregar por entre meus dedos, e mesmo quando eu raramente sentia que estava no controle da situação, mais e mais cartas ruíam e meu castelo, meu forte, era varrido por ventos indistintos. Eu tinha um plano, lá nas terras geladas e esquecidas do norte, eu tinha um plano e por algum tempo tudo pareceu mais limpo, mais sólido diante de mim. Agora eu percebia que talvez fosse só a neve, apenas a sensação de segurança que aquele lugar inspirava. Aqui, no mundo real, onde tudo era tão frágil e mutável, os planos não valiam de nada, e as estratégias nunca realmente funcionavam.
As regras do jogo haviam mudado novamente, e eu estava sem idéias, sem espaço para movimentar minhas peças. O tempo estava correndo, e eu estava aqui, arrastando meus pés.
Eu não gostava disso, de não ter opções, e quando digo “sem opções” é realmente no sentido literal. Eu não podia perder, não podia recuar, não podia nem ao menos me dar o luxo de morrer em batalha. Havia coisas demais em jogo.
Suspirei. Um longo e cansado suspiro.
Esperar. Era tudo que eu não podia fazer agora.
Assistí-los se reogarnizar, uma inquietação crescente se espalhando como fumaça. Eu queria ser capaz de apagar mentes, fazê-los esquecer de tudo aquilo.
Dentro da casa, apenas uma movimentação sutil de passos que iam e vinham sem som algum. Portas que se abriam e se fechavam tão sutilmente, que era como se o vento estivesse passeando pela casa. Eu ainda me surpreendia com o quão etéreos podíamos ser as vezes. Algumas criaturas simplesmente não pareciam ser reais, nem mesmo entre criaturas. Seres como Dave e seu bando, e tantos outros nômades, que vagam por muitas terras durante tantos séculos sem ao menos serem percebidos, sendo um pouco mais que sombras, alterando, aqui e ali, o equivalente a grãos de areia, e mesmo assim levando tanto do mundo consigo, tantos espólios de terras do passado e do presente. Dave… uma criatura realmente estranha, com seu sotaque inglês e sua estórias de honras e guerras, um gentleman de olhar felino. Acho que ele foi a coisa mais próxima do real conceito de eternidade que eu jamais chegara. É claro, havia Carlisle e seus tantos séculos de vida, mas meu avô, a meus olhos, era tão humano que eu simplesmente não conseguia pensar nele como uma criatura de seiscentos anos. Dave era uma representação mais sólida, mais compreensível para mim. O mesmo acontecia com Marcus. Toda vez que o via era como encarar uma estátua de pedra que sobrevivera ao tempo e aos fatos. Era assombroso observá-lo durante muito tempo, o modo como ele se movia, ou apenas como não se movia, fazia-me questionar se algum dia a humanidade simplesmente nos abandona, qualquer traço de sua presença sendo apagado pelo tempo, deixando apenas um amontoado de matéria morta, indestrutível, uma consciência aprisionada em uma réplica humana.
Um zumbido quase inaldível de palavras chamou minha atenção. Tentei identificar de onde vinham e seu eu ouvira algo de fato ou apenas tinha “escorregado” de novo para dentro da mente de alguém.
– Está ouvindo? – Perguntei para Lavínia que estava silenciosa como uma sombra, fechada em suas próprias divagações. Ela me encarou com olhos astutos e olhou em volta, escutou um pouco.
Silêncio.
Apenas as árvores se movendo com o vento, pássaros cantando em algum lugar.
Eu podia ouvir Alice no andar de cima, ela escrevia algo, o som do papel sendo riscado suavemente, uma escrita ágil, fluída…
Podia ouvir minha mãe ao telefone com Charlie, na sala de estar. Ela explicava a ele da melhor forma que podia o por quê estávamos partindo tão cedo, tão de repente.
Meu pai estava na garagem, nos fundos da casa. Ele não estava sozinho.
Franzi o cenho.
– Jacob voltou da reserva. – Falei. Lavínia assentiu. No mesmo instante pude ouvir sua voz.
Ele e meu pai estavam discutindo algo. Estavam aos murmúrios, uma conversa particular talvez? Apurei os ouvidos.
– Isso não vai dar certo Jacob. Sei o quê está pretendendo. – Disse meu pai, e em seguida se calou ao se dar conta de que eu estava ouvindo.
– Não se meta nisso e pare de entrar na droga da minha mente. – Disse Jacob, alheio ao fato de que a conversa não era mais privada.
Perguntei-me do quê eles estavam falando.
– Ness. – Chamou Lavínia, acenando para a estrada atrás de mim. Segui o olhar dela. Uma picape barulhenta fazia a curva sinuosa, descendo a encosta do vale e adentrando a propriedade. Na garagem, meu pai e Jacob pararam para escutar.
Precisei de cinco segundos para identificar o visitante.
– Que diabos essa garota está aprontando? – Falei, meio num grunhido.
– Eu cuido disso. – Disse Jacob, vindo em nossa direção. Meu pai o seguia com as chaves do Guardian pendurada nos dedos.
Ficamos ali, eu, Lavínia e meu pai, esperando a tartaruga encontrar a entrada principal. Jacob se precipitou até a entrada.
– Lavínia. – Falei. – É melhor você entrar. A garota cheira a bife mal passado. – Lavínia assentiu e subiu as escadas num rompante, sumindo no interior da casa. Pelo menos ela compreendia suas próprias limitações como uma recém criada.
– O quê ela quer? – Perguntei a meu pai enquanto observávamos o Pick up enferrujada de Seth estacionar na estradinha de cascalho.
– Está tentando fazê-lo ficar. – Disse ele, um vinco surgiu entre suas sobrancelhas.
Claire pulou do interior da Pick up e começou a derramar um jorro de palavras regadas a litros de lágrimas em cima de Jacob. Ele cruzou os braços e ouviu, impassível:
– Jake você não pode ir, não pode voltar pra essa vida. Você estava se recuperando, estava voltando a viver.
– Claire, eu não tenho tempo para explicar coisas que você ainda não é capaz de entender.
– Devemos deixá-los a sós? – Resmunguei para meu pai. Algo na expressão dele me fez fechar a boca e prestar atenção a conversa.
Seguiram-se mais “você não pode ir” e “eles são monstros”; “como pode confiar em monstros sugadores de sangue?” e toda uma variedade imensa de adjetivos do tipo. Eu tinha que admitir, Claire era corajosa. Vir até o território inimigo despejar palavras tão doces.
O som distinto de patas afundando no solo chamou minha atenção, em meio aos soluços de Claire, nossos ouvidos se voltaram para os lobos que corriam na floresta em nossa direção.
– Quil e Seth vieram buscá-la. – Disse meu pai. Assenti em silêncio, me perguntando se teria que apartar mais uma briga. Alguém deveria amarrar aquela garota numa arvore.
Mantive meus ouvidos atentos e me preparei para intervir caso Quil quisesse ir logo aos finalmente. Ouvi quando os dois lobos pararam na orla das árvores e saíram de lá caminhando com pernas humanas.
– Acho que não vai rolar sangue ou areia no olho dessa vez. – Falei, meu pai concordou. Mesmo assim fiquei atenta. A gritaria continuava:
– … é isso que ele iria dizer. Billy só queria ver você em casa. – Soluçava Claire.
Meu pai se inquietou a meu lado. Olhei-o de esguelha, algo não estava bem. Porém, não tive tempo de perguntar o quê estava havendo.
– Graças a Deus vocês vieram. – Disse Jacob, desviando de Claire e indo ao encontro de Seth e Quil. Aparentemente Jacob já havia superado o ataque de fúria do amigo.
– Vamos Claire, Emily está se descabelando de preocupação. – Disse Seth indo ao encontro dela. E então, as coisas meio que se embaralharam.
Claire resistiu – como era esperado – começou a gritar feito uma louca, havia ódio no rosto dela, diluído em lágrimas enquanto Seth e Quil a puxavam pelo braço e tentavam colocá-la dentro da caminhonete.
– Não! Parem! Vocês não entendem, ele não pode ir. Eles vão matá-lo… vão matá-lo como fizeram com Sarah Black. Parem, me soltem.
– O quê você falou? – Disse Jacob e então todo mundo pareceu se dar conta do quê fora dito na mesma hora. Era como se todos estivessem duvidando de seus ouvidos, inclusive eu.
Meu pai foi até Jacob, em alguma parte do meu cérebro eu me dera conta disso. Forcei meus pés a acompanhá-lo, mas só o quê consegui foi um caminhar lento, resignado àquelas palavras que caíram como tijolos e produziam ainda ecos que deixavam minha cabeça zonza. Claire chorava copiosamente, presa aos braços confusos de Seth e Quil.
– Eles mentiram pra você Jake. O velho Ateara… ele sabe a verdade, é o último que ainda sabe. – Ela resmungava entre soluços.
Vi meu pai colocar uma mão sobre o ombro de Jacob, seu rosto contorcido numa expressão atormentada. Jacob se virou para ele e disse:
– O quê ela está dizendo? – Meu pai assentiu apenas.
– Não foi um acidente de carro Jake. Foram eles, os sanguessugas… Eu ouvi Billy e o velho Ateara conversando. – Disse Claire. Ela desvencilhou-se dos braços de Seth e Quil, que fitavam, boquiabertos, o espaço vazio, perdidos no mesmo turbilhão em que eu estava. – Jake, você tem que se vingar deles…
Eu não conseguia assimilar muito bem aquela informação, e enquanto olhava o rosto de Jacob se desfazer numa máscara de dor, só pude pensar em uma coisa. É claro que ninguém esperava por aquilo, de forma que nenhum deles foi capaz de me deter.
Claire tão pouco viu o que a acertou, estava concentrada demais em torturar Jacob com aquelas mentiras. Minha mão direita alcançou o pescoço delicado e de alguma forma o manteve intacto, bem, talvez não intacto, mas eu certamente não o tinha esmagado de imediato. O corpo magro foi içado no ar, suspenso por meu meu braço de encontro a uma árvore a vinte metros de onde a pequena víbora estava. Lembro-me de olhar nos olhos dela antes de meu pai me segurar num aperto de aço.
– Ness, solte-a! – Ouvi ele dizer, mas eu podia ter entendido errado, pois os rosnados de Quil formavam um estrondo, como um trovão vindo diretamente em minha direção.
Claire perdeu a consciência três segundos depois.

Anúncios