Cap 8. Promessas (Completo)

*Sequencia após os Asteriscos*

Cap 8. Promessa (Completo)

Eu gostaria de ter tido mais tempo para olhar bem para aquelas árvores, era como se cada uma delas fosse um marco, como folhas dobradas nos cantos, marcando as páginas em que paramos. E eu havia parado bem aqui, meu quintal encantado de outrora.

Agora eu só conseguia enxergar as linhas que delimitaram as fases tão rápidas de minha vida, e conseguia ver em especial, a linha que cruzei quando sai daqui, a linha que dividiu minha vida em duas.

Aquela outra Renesmee estava lá, do outro lado, e olhava-me com olhos curiosos e ao mesmo tempo assustados, olhava-me com uma ingenuidade plena que brilhava na escuridão.

Os olhos dela ainda tinham um brilho de humanidade. Eu via a diferença entre nós, era quase gritante. Eu parecia apenas o reflexo distorcido daquela outra versão, e tal como um reflexo, me sentia fria e meio desbotada. A noite estava intransponível, sólida como uma parede de concreto sobre nossas cabeças, escura demais até para meus olhos. Era estranho… a sensação de estar de volta, só de passagem. Era como vizitar um cemitério e velar o próprio passado. Eu olhava em volta, mas não conseguia vizualizar minhas melhores lembranças ali, era como se nunca tivessem acontecido, como se não passassem de um sonho. Quando o motor barulhento da moto de Jacob silenciou a alguns metros da entrada principal, tudo o quê eu podia ouvir era um farfalhar entre as arvores e um par de corações barulhentos tamborilando sob nossas roupas. – Por quê paramos aqui? – Perguntou ele. – Meus pais… disse que esperaria por eles aqui. – Respondi, ensaiando um ar casual enquanto passava minhas pernas pelo assento de couro e tentava recolocar a distância entre nós. Jacob observou em silêncio enquanto eu me afastava discretamente. – A casa fica logo ali, por quê não podemos esperar por eles lá dentro? – Insistiu ele, um olhar desconfiado começava a se formar sob as sombras de suas sobrancelhas escuras. Jacob olhou em volta, por sobre os arbustos, eu podia ver que me encarava de esguelha. – Eles chegarão logo aqui. – Tentei parecer displicente, mas eu não estava convencendo aquela noite. Ficamos em silêncio por alguns minutos, um silêncio que inchava e quase nos espremia mesmo em céu aberto. Contudo, não havia nada que pudesse ser dito agora. Assim que Jacob se desse conta da recém criada lá, dentro da casa, assim que a reconhecesse, tudo estaria acabado. O quê mais eu poderia dizer? – Tem algo errado. – Disse Jacob de súbito, desencostando da moto. Meu coração deu um salto. – Jake… – Ness, tem algo errado aqui… – Repetiu, dando alguns passos nervosos em direção a casa. Eu estava prestes a segurá-lo a força quando ouvi uma leve movimentação junto as árvores, a cem metros. Respirei aliviada… meus pais estavam aqui. Jacob parou e virou-se em direção as árvores, ficamos ali por breves cinco segundos, aguardando… A tensão dos ombros de Jacob me deixava ainda mais nervosa.

– Olá Jake, não sabia que também viria nos encontrar. – Disse minha mãe, saindo da escuridão das árvores. As roupas dela e de meu pai estavam impecáveis, era como se tivessem voltado de um jantar romântico em algum restaurante caro.

– Nessie pediu que eu viesse. – Disse Jacob, pousando os olhos em meu pai. Bem, era hora, e provavelmente meu pai já havia descoberto tudo.

– Pai. – Falei. – Leve minha mãe até a casa, Jacob pode acompanhá-los também. – Os olhos de meu pai permaneceram imóveis num dourado quente, me observando, tentando entender o quê estava vendo em minha mente.

– Vá. – Eu disse. Ele hesitou um momento e então tomou a mão de minha mãe, os dois seguiram para a entrada da casa. Enquanto eu piscava eles já haviam alcansado a porta.

Jacob os seguiu com seus passos humanos, um pouco descompassados, acelerando e reduzindo a medida que os músculos de seu corpo se retesavam.

Eu cogitei esperar ali, na verdade cogitei fortemente sair dali, mas covardia nunca fora meu forte. Segui em direção da casa, mal podia ver o quão bela era a fachada. Ao chegar a porta eu ouvi os murmúrios, a confusão que começava a subir o volume. A primeira que vi foi Alice, sentada nos degraus da escadaria.

– Ness, quem fez isso? Quem fez isso com ela? – Perguntou minha mãe apontando para Lavínia, os olhos inquietos iam de Lavínia para mim com uma velocidade atordoante. Meu pai permaneia imóvel, encarando o chão empoeirado, eu podia ver os pensamentos de todos passando por ele, atravessando-o como facas. – Eu. – Falei. Jacob arregalou os olhos, minha mãe congelou.

– Fui eu quem transformou Lavínia. – Em todas as vezes que me imaginei dizendo aquilo para minha família, eu sempre idealizava uma confusão dos diabos, mas agora, quando realmente acontecera, tudo estava imóvel, suspenso no ar.

– Eu gostaria de dizer que fui eu quem… – Começou Lavínia.

– Lavínia. – Intervi. – Isso não importa. – Caminhei para o centro da sala e me obriguei a encará-los.

– Eu quis que vocês soubesse disso por quê não sei quando os verei de novo.

– Ness, o quê está dizendo… – Deixe-me falar mãe, pode ser sua última chance de me ouvir… – Respirei fundo, eu precisava ir até o fim agora.

– Eu não sei explicar de uma forma científica como eu consegui transformar um humano, eu só sei que quando foi preciso eu consegui criar o veneno, consegui fazer com quê meu corpo o concentrasse, enfim…

Nos últimos anos eu venho contrariando tudo em que nossa família acredita, e não há nada que eu possa fazer agora para remediar isso.

Não posso pedir que me perdoem por quê isso também não mudaria nada… A única coisa que posso fazer agora é terminar o quê começei.

Obriguei-me a olhar para aqueles rostos congelados de perplexidade, esses eram meus últimos momentos com eles.

 

***  ***

O silêncio perdurou até o ponto em que eu comecei a sufocar. Eu apenas precisava dizer algo, mas minhas palavras ficavam deslocadas, não havia sentido em minha mente naquele momento. Minha mãe olhava-me de uma forma estranha, como se procurasse por uma filha que já não existia em mim, como se soubesse que havia me perdido em algum ponto inevitável da vida. Jacob e meu pai, entretando, não conseguiam me olhar, e isso até facilitava as coisas para mim, ajudava-me a manter a clareza, se é que ainda restava-me alguma. Eu fiquei ali, por um tempo infinito, lutando com minha mente para encontrar palavras que explicassem coisas que não poderiam ser explicadas, mas nada do que eu dissesse iria deixar aquilo mais bonito. Era o quê parecia ser… um erro terrível.
– Estou partindo ainda hoje. – Me ouvi dizer, foi a única coisa que eu conseguira verbalizar. Não houve resposta. Comecei a sentir que alguma coisa havia se rompido naquela família, e sabia de quem era a culpa. Dei alguns passos em direção a porta.
– Ness, você não vai a lugar algum. – Disse meu pai. Eu estava de costas, mas podia ver seu rosto através de sua voz, através da dureza que me pegou de surpresa e congelou meus pés.
– Só há uma maneira de sair daqui… – Disse ele. – Eu e sua mãe iremos com você.
– Não! – Falei, virando-me num átimo. – Isso não é problema de vocês, serão mais úteis procurando uma forma de reverter o veneno para trazer Jasper e Willian de volta.
– Isso não está aberto para discussão. – Ele replicou, o rosto sombrio não deixava margens para contestação. Mas eu precisava contestar.
– Não foi para isso que eu vim até aqui, não é por isso que estou deixando que saibam que eu tenho veneno correndo por minhas veias…
– E por quê então? – Disse Jacob, as mãos tremiam levemente. Olhei para ele por um segundo, desejei ser capaz de fazê-lo entender. – Por quê voltou aqui Ness?
Eu pensei no que deveria ser dito, a resposta eficaz… mas em minha mente, a resposta já era uma rocha estável.
– Vim por meus pais. – Não era uma mentira, era apenas parte da verdade, isso bastaria para ele por agora, isso ajudaria eu estancar a hemorragia que estava prestes a explodir em mim.
– Você sabia que seria assim, sabia que ninguém desistiria de você por isso. – Ele falou, gesticulando para Lavínia. Jacob esfregou os olhos, passou a mão pelos cabelos, estava tentando se conter, estava falhando miseravelmente…
– Sabe o quê é pior? – Ele continuou, um sorriso amargo desenhou-se em seus lábios. – Você foi aquela que quebrou o pacto entre os Cullen e meu povo, de todas as criaturas que andaram por essas terras, foi você… – Sustentei o olhar dele.
– Isso não é verdade Jake. – Minha mãe interveio.
– Infelizmente é Bella. Quando Edward te transformou, você estava morrendo, e mesmo assim, foi sua escolha, você era um caso perdido.
– O quê está querendo dizer com isso? – Disse minha mãe.
– Eu entendo Jake. – Falei. – Vocês terão sua justiça… mas não agora. Me dê um mês. Quando meu prazo terminar eu volto e enfrento meu julgamento.
– Não sejam ridículos vocês dois. – Grunhiu minha mãe. Meu pai foi para junto dela, uma sombra funesta cobria-lhe o rosto.
– Essa conversa está indo além do limite. – Disse ele. Eu havia visto aquela expressão poucas vezes no rosto de meu pai. – Jacob, se realmente acredita que nosso pacto de paz tenha sido violado, então nós enfrentaremos as consequências como uma família. Mas agora… eu estou contando com seu bom senso. Nós estamos em uma crise, ninguém está a salvo enquanto Aro não for detido. Lutar entre nós agora iria nos enfraquecer e nos deixar expostos. É um risco que a ideologia do seu povo não tem o direito de nos impor.
– Proteger as pessoas é supostamente a única razão de minha espécie existir. Você está me pedindo que eu feche os olhos para uma coisa grave demais Edward.
Aquilo desceu por minha garganta como uma bola de fogo incandescente. Não pude conter meu próprio instinto. Num átimo, cruzei a sala e fiquei frente a frente com Jacob, o homem que eu amava e que agora tinha a responsabilidade de acabar com minha vida.
– Então me mate agora Jake, me mate… por quê se eu tiver que transformar mais alguém para acabar com Aro e trazer Willian e Jasper de volta, Deus me ajude, mas eu vou fazer. – Jacob sustentava meu olhar e era como se uma corrente de força nos prendesse, esquentando ambos os lados e nos queimando. Ninguém era capaz de soltar.

Foi então que a coisa mais estranha aconteceu, a mais estranha em meio a uma tempestade de coisas estranhas. Minha mente deu uma daquelas escorregadas em que eu vislumbrava lapsos de outras mentes, e por meio segundo eu vi Aro através dos olhos de Lavínia, que por sua vez o via através dos olhos de uma terceira pessoa. Ao mesmo tempo, eu conseguia sentir os ecos daquela visão alcançando Alice e meu pai. Quatro mentes conectaram-se num único instante em que Aro oscilou diante de nossos olhos. O choque e a estranheza daquela situação me fez demorar uns três segundos para compreender o quê estava vendo – o quê Lavínia havia visto.
– É Jane. – Falei e fui em direção de Lavínia. Nós estávamos vendo Aro através dos olhos de Jane, eu podia sentir isso.
– O quê está havendo? – Perguntou minha mãe, Jacob já estava em alerta antes de saber o quê estava acontecendo.
– A recém criada é talentosa. – Explicou meu pai, o peito meio arfante pela rápida conexão de nossas mentes. – É uma rastreadora. – Ignorei as explicações dele por um momento e peguei as mãos de Lavínia. Os olhos dela estavam vidrados e seu rosto estava inteiramente encoberto pelo instinto da caça.
– É Jane não é? – Sussurrei, ela assentiu. – Acha que eles estão se movendo?
– Islândia. – Ela murmurou de volta. – Temos que nos apressar.
Olhei para meus pais e depois para Jacob, a pequena Alice estava logo atrás dele, silenciosa, seus olhos vagavam pela sala, inconscientes, sempre retornando para o andar de cima.
Eu precisava fazer uma escolha.

– Essa é nossa única chance. – Falei, obrigando-me a olhar meus pais nos olhos. – Por favor, apenas… apenas me deixem fazer isso.
– Foi por isso que você a transformou? – Perguntou Jacob. Eu não queria olhá-lo, não queria confrontá-lo, não agora.
– Ela é a única que pode encontrá-lo. Ela é nossa única chance. – Falei. Jacob assentiu.
– Foi por isso que ela nos procurou em Londres, queria ser transoformada para encontrar Aro. Queria vingança. – Ele encarou Lavínia. – Muito bem então. – Disse ele. – Eu irei com vocês.
Encarei-o atônita.
– Nem pensar. Como diabos pretende nos acompanhar se desistiu de sua outra forma? Vai lutar contra Aro com o quê… um bastão de baseball e sua moto? – Ele sorriu, escárnio toldando suas feições.
– Eu não posso liderar meu povo como um homem se não for capaz de lutar com monstros e vencê-los, e isso me inclui também.
– Jacob, talvez seja melhor ficar na reserva. Toda essa área vai ficar desprotegida quando partirmos. – Disse meu pai.
– Quil é o líder agora… Eu sou o que sempre fui. Um desgarrado.
– Temos que avisar os outros. – Disse minha mãe. Não havia nada que eu pudesse dizer para tirá-los disso? Jacob estava certo, eu deveria saber que não conseguiria sair daqui sem que eles me seguissem. Foi um erro, eu sempre soube que era um erro.
Fiquei observando eles fazerem planos, ligações foram feitas e instruções foram passadas, e em certa altura, a bola de neve já havia me esmagado.
Tudo pelo qual eu havia trabalhado nos últimos meses havia desmoronado bem ali.
– Sabe, foi melhor assim no fim das contas. – Disse Alice, sentando-se a meu lado na escadaria central. – Fico mais tranqüila em saber que você não está sozinha nessa. – Fiz um muxoxo, Alice sorriu.
– Ninguém, nem mesmo criaturas como nós, merecem morrer sozinhos. Se essa for a última batalha dessa família, então nós estaremos juntos.
– Eu luto para que ninguém tenha que morrer Alice.
– Todos nós estamos nos colocando o tempo todo a frente do outro, amparando os golpes para poupar aqueles que amamos. Isso vai acabar matando a nós todos. – Disse ela.
– Eu sei. – Falei. Me levantei, o velho cansaço pesava sobre meus ombros como nunca antes havia pesado. – Não se preocupe, eu vou trazê-lo de volta. – Beijei o topo de sua cabeça e pensei naquela promessa. Eu poderia cumpri-la? Eu viveria para cumpri-la? As mesmas perguntas sem resposta.
– O quê faremos agora? – Perguntou Lavínia quando passei por ela a caminho da porta.
– Agora avançamos, não dá mais pra esperar. – Olhei para meus pais, para o corpo agitado de Jacob gesticulando no ar, tentando explicar algo a minha mãe… pareciam confiar cegamente um no outro.
– Ele falou sério sobre o tal pacto? – Voltei-me para ela, retomando meu caminho rumo ao ar puro.
– Parece que vou ter de descobrir.
A noite lá fora era tudo que eu precisava, uma escuridão confortável, um silêncio razoavelmente pacífico. O quê havia acontecido era apenas inevitável, eu sabia que cedo ou tarde minha família estaria novamente sob a mira, e que era questão de tempo até eu perder o controle sobre o anonimato dos meus planos. Enfim, estava acontecendo.
Ouvi a porta principal se abrir e passos pesados descerem as escadas em direção ao gramado. Eu estava sob os abetos do canteiro, meio envolta na relva que alcançava minha cintura. Não havia me dado conta de que caminhara até ali.
Fiquei observando ele me procurar. Dalí era difícil de acreditar nas coisas que ele havia dito. Era difícil de aceitar como havíamos terminado… exatamente como no início. Eu sendo caçada por ele. Tantas voltas nos trouxeram no mesmo lugar.

– Está cometendo um erro. – Falei, me aproximando silenciosamente. Ele me aguardava paciente, as mãos nos bolsos da calça, um olhar longínquo.

– Essa pode ser sua última chance de viver uma vida normal.
– É, eu sei. E eu estou jogando ela fora. O quê posso fazer, sou um babaca.
Ficamos em silêncio observando as árvores se moverem com o vento. Pensei em tanta coisa naqueles minutos ali, ao lado dele, tão longe quanto jamais estivera.
– Eu soube em Londres. – Falei. – Lavínia havia plantado a idéia em minha cabeça, mas era apenas uma idéia, eu não sabia que podia fazer o quê fiz. Agora você sabe por quê não podemos ficar juntos. – Não arrisquei olhá-lo, sentia-me presa num torpor maciço, um vazio gelado começava a ganhar cada vez mais partes de mim.
– Eu teria pago o preço. – Ele disse.
– Mas eu não. Me desculpe.

Saí pela noite, primeiro caminhando, e em alguns instantes acelerando rápido por entre as árvores. Deixei meu instinto mais básico tomar conta de toda minha consciência.

Eu não comia há dias – ou bebia – e isso era uma boa desculpa para sair dali. Deixei o cheiro da noite me tragar para dentro da escuridão, me levar à fonte de calor mais próxima, por quê calor era tudo de que eu mais precisava naquele momento. Corri rápido demais, a sensação era a de estar fugindo e não caçando.

As coisas estavam realmente estranhas agora, confusas demais para mim, eu não sabia se era capaz de lidar com a idéia de que eu tinha uma dívida a ser saldada com o povo quileute, eu havia quebrado um pacto de quase um século, e eu teria de lidar com isso em algum momento.

Claro, sendo otimista o bastante para imaginar que eu sairia inteira dessa, talvez Jacob não tivesse mesmo que acobertar um erro meu por muito mais tempo.

Bem, se eu tivesse a chance de escolher, eu preferia morrer pelas mãos daquele que foi meu único amor neste e em quaisquer outros mundos.

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