Cap 7 Por ele

Tudo está bem quando acaba bem! É, pode apostar… Terminou rápido e tudo estava indo melhor do quê eu esperada – bem, pelo menos no que diz respeito as perguntas que eu não queria responder. Eu sabia que não ia durar muito, e que logo alguém tocaria no assunto. Por onde andei todo esse tempo? O quê estive fazendo? Por quê não voltei para casa quando a “luta” terminou? Mas por hora, a atenção de todos estava voltada para Quil. Sim, Quil.

 

Nem em um milhão de anos eu iria imaginar aquela cena que se desenvolvia diante de meus olhos. No quintal da pequena casa dos Black, uma grande mesa fora posta, e ao redor dela apenas os quê sabiam sobre o segredo tribal – a bênção em forma de fera que os mais fortes jovens quileutes hospedavam em seus corpos morenos. E claro, num canto mais afastado das luzes da ribalta, os inimigos naturais dos referidos heróis. O time dos “frios” – composto basicamente por mim, meu pai e minha mãe – fora amigavelmente convidado para participar da nomeação do novo líder da matilha. Eu estava sinceramente inclinada à negar educadamente e me retirar dali tão logo fosse possível, mas a outra escolha era voltar para casa e apresentar à meus pais minha mais nova “amiguinha” e isso incluía também, contar de quê nós andamos brincando enquanto estive longe de casa. Portanto, a solenidade quileute pareceu ser mais acolhedora – ou não. De qualquer forma eu estava ferrada e a única coisa que eu queria era ter acompanhado Charlie até sua casa e ter tirado o mais longo e imperturbável cochilo de toda minha curta e barulhenta vida. Mas isso não era possível nem viável, quando eu acordasse, o inferno estaria armado em forma de picadeiro.

– Alguém pode me explicar por quê diabos Quil está sendo “conclamado” líder? – Cochichei para meus pais assim que a distancia entre nós e o bando de super ouvidos quileutes se alongou.

Tudo estava indo bem quando, do nada, Jacob pediu um minuto de silêncio, e não era pela memória de seu pai, era para dizer para seus companheiros que Quil seria o novo líder, e eu pensei: como é? O ancião da tribo – lugar antes ocupado por Billy – era o cargo vago, e não Alpha do bando. Meu pai encarou-me com um olhar constrangido, parecia estar prestes a dizer que havia um alface enorme preso nos meus dentes. Minha mãe adiantou-se então:

– Jake não vai mais se transformar Ness. Ele optou por sua parte humana, assim como Sam.

A princípio eu não entendi, achei que havia ouvido errado, até que a compreenção me alcançou e eu, de súbito, me senti envergonhada.

Jacob havia desistido da imortalidade e dali a alguns anos, seria ele lá, na praia, sendo cremado e reverenciado por seu povo. A idade viria e o puxaria para baixo, para a terra, e talvez eu estivesse lá, o mesmo pedaço de carne morna, o mesmo rosto, a mesma alma aprisionada num corpo jovem. Eu o perderia para o tempo, um inimigo que eu jamais poderia derrotar.

– Mas… – Tentei verbalizar a fumaça cinzenta que anuviava meus pensamentos. – Por quê? – Minha voz saiu embargada, como a de uma criança que não irá ganhar um cachorrinho dos pais. Me senti patética.

– Ness… Jacob passou por muita coisa desde que nos conhecemos. – Falou minha mãe. – Ele era apenas um garoto quando sua vida virou de pernas pro ar. Jacob nunca encontrou seu lugar nessa loucura toda de Alpha, matilha e proteger a tribo, ele nunca quis isso, essa responsabilidade. Não posso dizer que apoio a decisão dele de abrir mão de tudo assim, mas posso compreender.

– Ele não irá suportar uma vida sem você Ness. – Disse meu pai.

– Edward! – Replicou minha mãe.

– Ela sabe Bella. No fundo ela sabe. – Ele respondeu.

Cerrei os dentes e senti meu punho ranger, estava tensa, com raiva, exausta… e não podia ceder um milímetro sequer. Como eu iria viver com isso? Como diabos eu deveria encarar isso? Eu deveria ir até ele e dar-lhe os parabéns? Isso era ridículo, Jacob estava sendo ridículo, essa situação era inteiramente ridícula.

– É melhor irmos embora. – Disse meu pai. Era o quê eu mais queria, mas de súbido percebi que ainda não podia deixá-los ir para casa. Eu ia inventar algum desculpa idiota quando minha mãe falou:

– Edward, precisamos caçar. Já adiamos uma semana, não é seguro andar por aí assim. – Meu pai assentiu. Claro, quando foi que ele negou a ela alguma coisa? Agradeci silenciosamente essa pequena ajuda.

– Não vamos nos demorar. – Disse ela. – Quer nos acompanhar? Ou prefere ir direto para casa?

– Vou ficar. – Respondi e me surpreendi com minha resposta. – Tenho… algumas coisas a fazer antes de ir. – Uma idéia que se formava naquele mesmo instante e que já doía por apenas ser cogitada.

– Você só precisa pedir a ele. – Sussurrou meu pai quando nos despedimos. Não respondi nada, não tinha nada a dizer.

– Nos vemos dentro de uma hora. Diga a Alice para abrir um pouco as cortinas, está uma noite agradável. – Disse minha mãe.

– Direi. – Eles se despediram de todos enquanto eu observava o quão irônica e deslocada era aquela cena. Nada ali parecia ser real, apenas parecia-se com um sonho estranho, colorido demais e tão improvável quanto.

A noite estava bem escura aquela noite, haviam poucas estrelas no céu. O quintal de Billy foi ficando mais vazio a medida que as horas avançavam. Até que restaram apenas eu, Jacob, Quil, Seth, Leah e a garota humana que parecia uma sombra de Jake. Ouvi chamarem-na de Claire, pensei um pouco e não me recordei de seu rosto nas vezes em que estive aqui. Ela parecia ser jovem, mas era alta, seu corpo fazia eu duvidar que tivesse menos de dezoito. Quem diabos era ela e por quê estava ali? A lei do silêncio dos quileutes permitia apenas que membros do conselho e da matilha participassem de reuniões como esta. A menos que… Bem, isso iria permanecer um mistério por enquanto, eu nem mesmo decidira se queria mesmo descobrir e tinha outras prioridades fervendo em minha cabeça.

Eu não tinha muito tempo e precisava tomar logo essa decisão, algo tão espontâneo que nem ao menos tive tempo de amadurecer, mas definitivamente, algo que precisava ser feito.

Jacob precisava saber sobre Lavínia. Hoje a noite, quando eu contasse a verdade a meus pais, ele precisava estar lá, precisava saber por quê o abandonei e por quê não podíamos ficar juntos. Apesar de parecer uma atitude nobre de minha parte, eu sentia-me mal, por quê grande parte do motivo que me levou a tomar essa decisão estava no fato dele ter escolhido a mortalidade. Era egoísmo meu, eu sabia, mas precisava fazê-lo entender que eu não havia o deixado por qualquer motivo idiota. Nada no mundo era mais importante para mim do quê ele, do que o bem estar dele. Talvez se ele soubesse, talvez se compreendesse… ele poderia apenas desistir dessa idéia tola, ele poderia me perdoar. As palavras de meu pai ecoaram em minha mente: “Ele não irá suportar uma vida sem você” Deus, como eu amei ouvir aquilo, e como me doeu como um maldito ferro em brasa saber que não podia fazer nada, saber que, não importa o que eu faça, ele iria sofrer da mesma forma.

– Ness? – A conversa ao fundo de súbito virou um uníssono. A voz de Seth me arrancou de meus pensamentos. Olhei para ele e depois para cada um deles. A garota – Claire – encarava-me com as sobrancelhas juntas, observando cada movimento meu.

– Desculpem, acho que divaguei. – Ensaiei um sorriso.

– Estávamos falando sobre aquele verão que passamos reformando a cozinha do velho Quil – Disse Seth. – Você tinha uns doze anos, bem… acho que isso equivale a uns cinco? Sempre me confundo com a contagem da sua idade. – Riu Seth.

– Cinco anos e dez meses. – Disse Jake do outro lado da mesa. Olhei para ele, nossos olhos se tocaram por um instante.

– É, Jake sempre foi melhor nisso que eu. Não é para menos, acho que Jake sabe mais sobre você do que a própria Bella. – Disse Seth, rindo inocentemente. Leah deu-lhe uma discreta cotovelada. Tentei sorrir para não deixá-lo tão desconfortável quanto eu com aquele comentário.

– Pois eu acho isso bem estranho. – Disse a garota, sentada ao lado esquerdo de Jacob. – Imagine só uma criatura que envelhece um ano a cada semana, é assustador.

Até aquele momento eu não havia olhado bem para ela, ou mesmo prestado atenção a sua voz. Algo naquela garota emanava uma leviandade que parecia deslocada em seu rosto infantil, era como uma criança malvada que não podia ser contrariada.

Um silencio constrangido recaiu sobre a conversa descontraída até que Quil pigarreou:

– Bem, está tarde. – Disse levantando-se. – Vamos Claire, vou levá-la até sua casa, sua mãe deve estar preocupada.

– Do quê está falando? Eu não vou embora com você. – Respondeu a garota com desdém. – Jake precisa de ajuda para arrumar essa bagunça, e também não vou deixá-lo aqui sozinho na primeira noite sem o pai.

– Jacob sabe se cuidar sozinho, vamos. – Disse Quil, paciente.

– Olha só, mal calçou os chinelos do Alpha e já está se sentindo. Você não me dá ordens Quil.

– Já chega. – Disse Jacob. – Claire, é melhor que vá com Quil

– Vou ficar. – Disse ela lançando-me um olhar desafiador. Jacob bufou e passou a mão pelos cabelos.

– Quil, pode ir, eu levo ela depois. – Quil assentiu e virou-se em silencio. O quê vi nos olhos dele naquele momento deixou tudo mais claro para mim. Claire. Aquela Claire. A garotinha que desfilava por La Push nos ombros de Quil. O imprint dele.

Como diabos aquilo fora acontecer?

– Hey Quil, me espere, eu vou com você. – Disse Seth levantando-se num átimo e derrubando a cadeira. O garoto não conseguia ver seus amigos na pior.

Aquilo era ridículo, aquela garota devia saber o incoveniente que estava causando ao se colocar entre os dois amigos. Quil e Jacob sempre foram como irmãos, essa situação devia estar acabando com ambos.

– Bem, já que faz tanta questão de ajudar Claire, me ajude com isso. – Disse Leah, levantando-se e empurrando para os braços de Claire uma pilha de pratos sujos. Claire a encarou por um instante, e então equilibrou os pratos e seguiu Leah para dentro da casa.

Enfim sós, eu pensei. Se pelo menos eu pudesse ir até lá e abraçá-lo… aproveitar a calma e o a serenidade do momento. Mas eu não podia fazer isso, não mais.

– Preciso que me acompanhe até minha antiga casa. – Falei sem rodeios. Jacob me encarou e desviou os olhos para a mesa.

– Por quê? Está com medo do escuro? – Ele brincou.

– Preciso que veja algo. – Jacob percebeu a seriedade na minha voz e o nervosismo em meus olhos, o tipo de coisa que só ele captaria.

– É importante? – Perguntou.

– Muito. – Jacob assentiu e se levantou, tirando a jaqueta pendurada nas costas da cadeira.

– Espere por mim aqui. Volto num minuto. – Ele disse e começou a andar em direção a casa.

– Jake. – Chamei, ele deteve-se diante de mim. Me levantei e procurei um lugar mais seguro para olhar enquanto falava.

– Por quê está fazendo isso? Por quê desistiu da imortalidade? Você adorava ser um lobo, a liberdade e tudo mais… – Por um momento achei que fosse ouvir alguma resposta, achei que ele me daria alguma coisa, mas após alguns segundos de inquietação, ele simplesmente me deu as costas e entrou na casa.

 

Eu podia entender aquele silêncio, mas isso não mudava o fato de que aquilo era errado. Jacob tinha todos o direito de me negar satisfações, assim como eu não tinha nenhum para contestá-lo, mas eu sabia, podia ver nos olhos dele que aquilo era suicídio. E era como me matar também. Tudo pelo qual eu estava lutando seria, inevitavelmente, soprado pelo vento algum dia. Eu o havia deixado justamente para evitar isso, para me certificar de que ele tivesse uma chance de viver, para que pudesse estar a salvo, perto daqueles que não o ferirão, talvez com alguém que pelo menos pudesse beijá-lo sem o matar.

Desistir da imortalidade, no entanto, não era o tipo de vida “normal” que idealizei para ele, pelo menos não em tempos como estes, onde nenhum de nós está realmente seguro, sendo imortal ou não.

Eu viera até aqui convicta de quê Jacob jamais saberia a verdade, vim certa de que, ficar no escuro, por hora, erao único modo dele, algum dia, encontrar a luz. Contudo aqui estava eu, com meus planos atirados na lama. Agora ele precisava saber, precisava abrir os olhos para quem eu realmente era. Essa era minha última esperança, a última cartada. Percebi, de súbito, que estava me agarrando com unhas e dentes nessa única e frágil possibilidade. Se meu pai estivesse certo… Se Jacob tivesse desistido da imortalidade por minha causa… Talvez se ele visse com seus próprios olhos o quê fiz, então tudo estaria anulado, talvez algo mudasse dentro dele. Eu estava pronta para pagar o preço, eu trocaria a única coisa boa que eu tinha pela vida e segurança dele. Nunca um preço fora tão alto.

Esfreguei meus olhos, sentia-me tensa, meus músculos doíam. Percebi uma agitação dentro da casa e apurei os ouvidos.

Jacob e Claire estavam discutindo.

– Você ao menos sabe o quê significa para ele? – Falou Jacob, pelo tom de sua voz eu podia advinhar seus olhos faíscando, seus ombros rígidos. A garota replicou:

– Só por quê Quil teve um imprint idiota comigo, não significa que eu tenha que amá-lo. – Disse ela.

– Claire, você não é obrigada a nada. O imprint é um fardo apenas para aqueles que o carregam, é uma de nossas maldições. – Houve um momento de silêncio, e em seguida alguns passos hesitantes cruzaram a sala.

– Jake. – Falou Claire quase num sussurro. – Eu não suporto vê-lo sofrendo tanto. Por quê não me deixa fazê-lo esquecer de… do passado?

– Por quê o passado insiste em bater na minha porta. – Disse ele, a voz embargada.

– Pois mande-a embora. Escurrace ela daqui!

– Eu não quis dizer isso. – Falou ele. – É só que… Não importa. Vamos, vou te levar para casa. Tenho coisas a fazer ainda hoje.

– Vai sair por aí com ela não vai? Vai deixá-la fazê-lo de cachorrinho de novo? – Vociferou Claire.

– Shhh! Fale baixo. Não interessa aonde vou. Tire essa idéia de se casar comigo da cabeça e concentre-se em algo mais produtivo. Isso não vai acontecer, entendeu?

– É por causa de Quil não é? Você é muito leal a ele. Jake, eu vou fazê-lo dar sua bênção para nós, você vai ver… ele vai entender. Quil sempre faz tudo que quero, ele não vai deixar que eu continue sofrendo.

– Se disse uma palavra para ele… – Jacob inspirou. – Você não entende, não é? Claire… ela é meu imprint… minha maldição, assim como você é a de Quil. Acha que um dia vou conseguir olhar para mais alguém? Acha que isso é algo que se contorne com um casamento? Você é uma criança, é apenas humana… jamais vai entender o quê é estar preso a alguém pelo resto da eternidade.

– Jake… Não! Não.. não é possível! Ela não pode ser… Jake, ela é um monstro. Um monstro sugador de sangue. Como você pode amar um monstro? Meus Deus Jake… por quê nunca ninguém me falou que você tinha um imprint?

E então eu decidi que havia ouvido o bastante. A voz daquela garota me nauseava, e ademais, o rumo daquela conversa já não importava. Eu só queria que ela tivesse a oportunidade de conhecer os verdadeiros monstros… Mas, o quê eu estava pensando? Não importava. Saí dalí, das sombras daquele quintal vazio. Voltei para o vale, mas não me distanciei muito. Eu tinha algo a fazer, por maior que fosse minha vontade de sair dali.

No abrigo das árvores encontrei novamente o cheiro da noite, o som do mar quebrando lá na praia, por hora aquilo bastava. La Push havia se tornado mais densa desde aquela manhã, quando cruzei a floresta e a antiga linha que separa os lobos e os “frios”. Agora tudo parecia ter se convertido em tragédia. Agora eu era o monstro sugador de sangue e não era mais bem vinda aqui. Eu queria correr, pôr algum movimento naquela noite estagnada, como fazia nas planícies descampadas da Rússia, mas eu precisava esperar, precisava ter calma… Da minha calma dependia o sucesso do meu plano. Trabalhe por um fim e não olhe para os meios, ultimamente esse novo mantra me ocorria sempre, embora eu não gostasse muito do modo como ele soava.

Conferi o visor do celular em meu bolso. A hora que meus pais me deram para retornar estava quase se esgotando. Então eu finalmente poderia tirar aquela parcela de peso de meus ombros. Daria a eles o quê queriam – respostas – e então iria em busca das que eu queria.

– Essas discussões geralmente levam horas… é melhor se sentar. – Disse Leah. Me surpreendi com a sutileza com quê ela se movia entre as árvores, parecia andar sobre um tapete.

– Não tenho tempo para me sentar. – Respondi. Eu não queria ser rude nem nada, mas estava difícil encontrar palavras doces naquele momento.

– E por quê tanta pressa Nessie? Está correndo de quê? – Disse ela acomodando-se num tronco tombado. Olhei-a de esgulha, tinha que ter cautela com Leah, ela sempre fora muito sensitiva.

– Tenho que me encontrar com meus pais dentro de meia hora. – Falei, desviando meus olhos para o outro lado.

– Ah eles podem esperar, não podem? Afinal, têm todo o tempo do mundo. – Leah deu um sorrisinho e encarou-me com seus olhos escuros. – Você está diferente. Há uma… escuridão dentro de você. – Sustentei o olhar dela.

– Não tem sido exatamente fácil para minha família desde Volterra. – Falei.

– Não tem sido fácil para nenhum de nós. – Ela concordou. Houve um minuto de silêncio em que tentamos não nos encarar, então Leah estava prestes a dizer mais alguma coisa quando meu celular tocou no bolso do meu casaco. O visor mostrava o número de Lavínia.

– O quê houve? – Falei, me afastando um pouco de Leah, não que isso fosse ajudar.

– Eu o localizei. – Disse Lavínia.

– Onde? – Perguntei, meu coração acelerou.

– Está na costa francesa, num cruzeiro… daqui dois dias vai estar atracando na Islândia. Temos tempo de pegá-los.

– Ok, eu já estou voltando. Fique preparada.

– E Ness… – Falou Lavínia, a voz fria. – Aro está mesmo com ele, eu o vi. Foi apenas um vislumbre, mas tenho certesa de que esse homem está com Aro. – Senti uma fisgada em minha cabeça, finalmente…

– Entendi, me espere… – Fui interrompida por um grunhido áspero vindo da casa dos Black. Eu e Leah trocamos um olhar e corremos em direção a casa. Guardei o celular no bolso enquanto corríamos, Lavínia teria que esperar um pouco.

– Mas que diabos… – Leah começou a falar, mas interrompeu-se assim que deparamos com a cena.

Quil, em sua forma de lobo, grunhia a ameaçava atacar Jacob. Atrás dele, Claire se encolhia e tremia como um coelho encurralado.

– O quê está acontecendo aqui? – Gritou Leah. Jake não a deu ouvidos.

– Calma Quil, não é o quê você está pensando. – Dizia Jacob. Eu entendi de imediato do quê se tratava.

– Está rolando uma cena de ciúmes aqui Leah. – Falei. – Não se preocupe, eles não vão se matar.

– Eu não teria tanta certesa. – Resmungou Leah.

– O quê quer dizer? – Perguntei.

– É a droga do imprint Ness, deixa eles cegos… Quil é capaz de fazer qualquer coisa se julgar que Claire está em perigo. – Disse ela.

– Mas Claire não está em perigo, só está sendo uma vadia. – Falei.

– Nós não sabemos o quê aconteceu para deixá-lo assim, é melhor não subestimar. – Leah deu mais alguns passos tentando circundar o corpo largo e peludo de Quil. Eu não sabia muito bem o quê fazer, para mim, aquilo nunca iria passar de uma briguinha entre amigos. Mas Leah estava certa, eu já não sabia do quê eles eram capazes. Assim como eu havia mudado, a matilha, aqueles garotos, também pareciam não ser mais os mesmos.

Observei Jacob e o modo como ele protegia Claire atrás de si, circundando-a com os braços. Ela agarrava-se a sua cintura com uma obstinação enfadonha.

– Jake, se transforme. – Falou Leah, se esgueirando feito um gato para perto de Quil. Jacob não tirava os olhos de Quil, mas naquele momento eu o vi vacilar. Ele estava hesitando. Não queria estragar tudo se transformando novamente.

– Jake! – Insistiu Leah. Jacob deu alguns passos para atrás, levando Claire com ele para o abrigo da garagem. Quil rosnou, tentou avançar, mas Leah se pôs na frente dele.

– Que merda. – Grunhiu ela. – Lá se vai meu jeans preferido. – Numa manobra hábil, ela recuou e explodiu no lobo cinzento, suas roupas espalharam-se pelo quintal como uma chuva de confetes. Respirei mais aliviada, Leah cuidaria de Quil e eu levaria Jacob logo dali. Conferi o celular. Duas chamadas de Lavínia e apenas quinze minutos para meus pais retornarem. Eu precisava agilizar as coisar.

Fui até os fundos da casa, onde Jacob se escondia com Claire. Ela ainda tremia, sentada num caixote de madeira, enquanto Jacob vigiava.

– Jake, precisamos ir. – Falei, pegando-os de surpresa. Jacob olhou para mim, e por um momento era como se ele estivesse pedindo desculpas.

– É melhor mesmo eu me ausentar enquanto ele se acalma. – Disse ele.

– Jake, por favor não me deixe sozinha. Eu estou com tanto medo… – Disse Claire, correndo até Jacob e abraçando sua cintura. Esperei pacientemente.

– Claire, eu já liguei para Seth, ele está vindo para levá-la para casa. – Disse ele, se desprendendo de seus braços.

– Mas eu não quero o Seth. Jake, você tem que ficar… por favor! – Jacob retirou a lona preta que cobria sua motocicleta, ela jazia empoeirada ali na garagem por sabe-se lá quanto tempo, eu não havia me dado conta de que ele ainda mantinha aquilo ali.

Claire o observava atônita, um desespero meio histérico começava a se formar em seu rosto. Jacob deu partida na moto, o motor rugiu de primeira, abafando os lamúrios de Claire.

– Vá para casa Claire. – Disse Jacob, a garota chorava. Ele olhou para mim, convidando-me a me acomodar em sua garupa. Caminhei tranquila até a moto, finalmente…

– A propósito… você está devendo um jeans novo a Leah. – Falei. A garota me encarou com fogo nos olhos, se fosse imortal, ela seria uma espécie de Jane versão quileute.

Subi na garupa e me acomodei o mais longe de Jacob que o espaço me permitia, o quê não era o bastante.

– Essa coisa anda mais rápido que um camelo? Precisamos nos apressar… – Falei, enquanto o vento vinha de encontro a nós. Jacob deu uma olhadela por sobre o ombro e acelerou.

Lá atrás Claire gritava como uma criança abandonada no parquinho. Então eu pensei: “Bem, que mal há?” e segurei firme em Jacob. Ele estremeceu e girou um pouco mais o acelerador. Pela primeira vez em muito tempo eu me senti curada, eu não sabia bem do quê, talvez fosse da tal escuridão que Leah enxergara em mim, talvez fosse do medo, do ódio, da dor… Fechei os olhos e tentei preservar aquele momento. Em dez minutos tudo estaria acabado.

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