Adeus

 

Um burburinho tímido começou a ganhar volume entre as pessoas, a maioria delas não sabiam quem – ou o quê – eu era, esticavam os pescoços e cochichavam entre si, e algumas delas torciam o nariz em desagrado por minha presença.
 A matilha – ou pelo menos a parte a qual eu era familiarizada – mostrou um pouco mais de compreensão pelo fato de eu estar ali, eles conheciam os poréns que deixaram eu e Jake em cantos opostos e talvez entendessem melhor a necessidade que me trouxe de volta. Meus olhos passearam pela cena, cheiros distintos me alcançaram de repente. Percebi os rostos jovens gravitando seu líder. Haviam mais lobos na matílha, garotos jovens, tão jovens que pareciam não ter mais de quinze anos. Foi só quando Sam falou: “Calma rapazes, ela não é uma ameaça.” que eu me dei conta do tremor que sacudia os três garotos. Esse deveria ser o primeiro encontro deles com minha espécie.
Eu não sabia o quê deveria fazer para acalmá-los, mostrar que eu não era uma ameaça, embora minha presença estivesse fadada a provocar sua natureza volátil. Jacob parecia alheio a tudo aquilo, e por um momento, nossos olhares se cruzaram, e eu quase perdi o segundo em que os três garotos se lançaram em minha direção. Naqueles breves momentos, onde todos permaneciam em choque e confusos com a situação, eu só consegui pensar: “Tenho que levá-los para longe dessas pessoas.” e foi o quê fiz. A sorte e a falta de habilidade dos garotos me renderam tempo suficiente para levá-los para as sombras das árvores, longe das vistas do povo de La Push, que mesmo sabendo das lendas, ainda permaneciam sob o seguro véu da ignorância. Assim que as árvores se fecharam sobre nós, eu senti o impulso quente explodindo às minhas costas. Três lobos jovens e descontrolados espumando atrás de mim, era uma ótima recepção!
Eu não podia simplesmente me virar e confrontá-los, então corri, desviei, saltei, fiz o diabo para mantê-los longe de mim, mas os três jovens lobos pareciam ter herdado a obstinação tão característica da espécie. Ok, podemos fazer isso a noite toda, eu pensei, mas uma súbita distração tola de percurso me levou aos grandes penhascos, do outro lado da costa. Enormes paredões de pedra que contornavam a praia de La Push. Oh merda! Eu teria que inventar uma desculpa suficientemente boa para devolver o delicado vestido de Alice aos pedaços, e eu tinha uma ligeira impressão de que três lobos descontrolados e raivosos não era uma explicação boa o bastante para me salvar dela. Eu tinha de admitir, os garotos haviam aprendido bem a lição sobre como encurralar uma presa, e fizeram isso com maestria. Circundaram-me pelos flancos, enquanto o terceiro avançou diretamente para mim. Preparei-me para saltar.
Quando apenas três metros me separavam da borda e pouco menos que isso os separava de meu pescoço, um rosnado grotesco incidiu atrás de nós. Os três lobos, ainda em formação de ataque, estacaram de súbito, como se suas patas tivessem ficado presas em alguma fenda do chão. Virei-me para eles e encarei os garotos com uma seriedade irrisória, eu não estava chateada nem nada, na verdade eu havia achado até divertido, mas minha breve condescendência foi soprada pelo grunhido febril que acompanhou o grande lobo castanho avermelhando sair das árvores. O comando do alpha pesou como blocos de pedra sobre os ombros inexperientes dos jovens lobos, eles se curvaram sobre as patas dianteiras, os focinhos encaravam o chão enquanto Jacob, em sua forma alpha-muito-puto-de-raiva caminhava tranquilamente até nós. Em uma comunicação muda, mas claramente hostil, ele despachou os garotos de volta para a reserva, com Seth, Embry e Quil como suas babás.
Fiquei ali, na beira do penhasco, observando a política da matílha ser efetivada. Quando todos já haviam retornado à praia e sobrara apenas Jacob e eu ali, dei a ele um minuto pra que se vestisse, enquanto tentava limpar minha mente, deixar meus pensamentos turvos se dispersarem no vento. Apesar da adrenalina da corrida ter se diluído em minhas veias, meu coração ainda batia num ritmo frenético, por motivos bem distintos.
– Peço desculpas pelos garotos. Você foi a primeira experiência deles com “os frios” de que tanto ouviram falar nas histórias. – Jacob saiu de trás das árvores vestindo jeans e camiseta, algo que Embry trouxe com ele quando veio à captura dos jovenzinhos empolgados. Obriguei-me a olhá-lo civilizadamente, e não como a selvagem que me arranhava por dentro quando o sentia assim, tão perto…
– Tudo bem. Acho que eu é quem devo desculpas. Invadi uma cerimônia privada e causei um tumulto dos diabos, me desculpe… eu não sabia que haviam mais caçulas no bando, e de qualquer forma não deveria ter ido até lá. – Jacob desviou o olhar, não mantia contato visual por mais de meio segundo. Nem eu me atrevia, apenas o observava de esguelha, enquanto encarava o horizonte inquieto a nossa frente.
– La Push sempre receberá você e sua família de braços abertos, não há problemas quanto a isso. Billy teria gostado de vê-la aqui novamente. – Ele apertou os lábios discretamente, as sobrancelhas curvaram-se sobre os olhos fundos, cansados. Ele fazia isso quando se sentia angustiado demais, poderiam se passar anos sem que eu o visse, mas sempre iria saber essas coisas sobre ele, esses detalhes, esses pequenos fragmentos dele enterrados sob minha pele.
– Sinto muito. – Foi o quê consegui dizer. Durante todo o meu trajeto até aqui, meu plano era manter um espaço seguro entre eu e ele, observar, ser a força invisível dele na escuridão. Nunca um plano havia falhado tão miseravelmente. Após alguns minutos de um silêncio dolorido, Jacob falou:
– Vamos, preciso terminar a cerimônia e temos um novo líder para coroar. – O segui em silêncio, evitando encarar suas costas. Quem teria sido designado para ser o novo ancião Quileute? Aquele que presidiria o conselho e cuidaria dos segredos de seus garotos pródigos.
Jacob agora tinha a responsabilidade toda em suas costas. Com seu pai morto, e sendo o único filho homem e além disso, o alpha do bando, todas as vertentes de poder se voltaram para ele. Jacob era líder por direito de sangue. Eu só não entendia o por quê outro líder seria coroado, senão ele. Contudo, pelo quê conhecia de Jacob Black, ele entregaria de bom grado a liderança do conselho para alguém de sua confiança. O sangue nobre que corria em suas veias não afetava a necessidade de liberdade em seu coração.
Hesitei um instante quando as luzes das fogueiras se abriram diante de nós. Era sensato me aproximar daquelas pessoas? Jacob virou-se, notando minha hesitação.
– Qual é o problema? – Perguntou ele.
– Acha que é uma boa idéia eu ir até lá? – Jacob andou até mim, o rosto sereno como uma brisa de primavera. Minha primeira reação foi me retrair, temia aquela aproximação, tinha medo que me queimasse. Jacob parou a minha frente, dois passos nos separava, percebi que ele temia aquela proximidade tanto quanto eu.
– Lembra-se de quando vinha aqui? Quando era pequena? – Disse ele, o olhar queimou em mim por meio segundo, então ele olhou para a praia a oeste, a costa rochosa, o manto de árvores envolvendo o litoral como um manto. Assenti em silêncio, tentando conter ao menos metade de tudo que estava borbulhando dentro de mim.
– Você sempre gostou dessa praia, desse pedaço de chão, dessas pessoas. Eles são seu povo também sabe… por mais que agora não saibam bem quem você é. – Ele respirou fundo, olhou por cima dos meus ombros, evitando me olhar nos olhos. – Está tudo bem. – Disse ele, agarrando meu pulso e puxando-me em direção às fogueiras. – Vamos.
Eu me deixei levar pelo toque quente dele, pela força que esquentava minhas veias. Estava meio desconcertada com aquilo, com sua atitude despreocupada.
Quando cruzamos as tochas fincadas na areia, de imediato vislumbrei o carro patrulha de Charlie estacionado na entrada da reserva, a uns cem metros de onde estávamos. Mais adiante, descendo as trilhas até a praia, Seth, Leah e Sue Clearwater acompanhavam um Charlie um pouco mais rechonchudo e um jovem casal. Meu pai olhou em minha direção assim que eu os vi, ele sorriu e minha mãe logo me localizou também, mas o sorriso calmo de meu pai foi sendo substituído por uma expressão carregada a medida que avançava pela praia e era tragado pelas mentes das pessoas ali presentes. Eu poderia jurar que todas elas ainda comentavam o estranho incidente envolvendo os garotos quileutes e a estranha que invadiu a cerimônia. “Um pequeno incidente já devidamente controlado” Pensei e sorri enquanto os observava se aproximar em passos humanos e civilizados.
– Ah minha querida, você veio. – Disse Charlie, se adiantando até mim. – Você escutou seu avô minha princesa! Que saudade Nessie, que saudade. – Charlie me pegou num abraço molenga, que para ele devia significar um abraço apertado, eu retribuí, e me senti melhor com aquela ingênua amostra de carinho, ao menos alguém ali não estava escondendo seus sentimentos.
– Oi Charlie, senti sua falta também. – Falei.
– Está tudo bem Ness? – Perguntou meu pai, um vinco de procupação em sua testa.
– Está sim. – Falei. Minha mãe veio a meu encontro.
– Por onde andou Ness? Tanto tempo sem voltar para casa, diga que vai ficar conosco agora. – Eu a abracei, tranquilizei-a por um instante, mas não pude prometer aquilo a ela. Desde o momento em que decidi vir para cá, eu estava ciente de que poderia ser minha ultima chance de vê-los novamente.
Veio aquela sucessão de perguntas que eu não poderia responder, aquela enxurrada de conselhos e votos para que eu ficasse. Vieram as condolências por Billy, a Jacob, a Rachel e a todos os outros, vieram as conversas baixas, os olhares discretos e toda aquela comunhão que precede o adeus final. A cerimônia abrandou-se numa normalidade confortável, o povo de La Push voltou sua atenção ao grande líder que Billy fora, contaram histórias sobre ele, relembravam os momentos de sua vida, e isso fez com que os estranhos caras pálidas fossem um pouco esquecidos. Sentei-me com meus pais e Charlie e conversamos coisas triviais entre nós, falamos um pouco sobre Billy, sobre Jacob, sobre as mudanças que estavam por vir. Percebi em certo momento que Charlie tentava evitar que a conversa entrasse na área “sobrenatural”, evitava falar dos lobos ou de nós, não perguntou onde estive ou o que estive fazendo, e eu agradeci por isso.
Houve um momento – um daqueles que você não tem certeza se aconteceu realmente ou não – em que me dispersei por alguns minutos da conversa, e olhando em volta, meus olhos cruzaram com os olhos de uma garota quileute. Ela olhava diretamente para mim, de um modo estranho, frio, como se soubesse exatamente o quê eu era. No entanto, o quê mais me perturbou foi a forma como ela sustentou meu olhar, como se estivesse me desafiando. Aquilo chamou minha atenção, humanos geralmente não tendem a esse tipo de comportamento. A moça levantou-se do tronco onde estava sentada, e ainda fitando-me entre a multidão, ela caminhou lentamente entre as fogueiras, como se quisesse que eu visse algo, que a seguisse… Meus olhos a acompanharam sob a luz das fogueiras, acompanharam seus pés delicados cruzar o círculo de comunhão e ir, tranquila, como se nada mais importasse, para junto da matilha. Ela passou por Quil, que a olhou com idolatria, e por Sam e Emily, e foi de encontro a Jacob. Ela o rodeou com os braços magros e nús e o segurou num abraço firme, sua cabeça mal chegava em seu peito. Jacob a olhou com um carinho quase paternal e a cercou com um abraço tímido. Do outro lado das fogueiras, eu podia sentir o olhar dela queimando em minha direção, e um sorriso felino se abrindo em seus lábios.
Desviei o olhar, me concentrei nas ondas quebrando na praia. Em minha cabeça uma imagem se montava em silêncio. Jacob casado com aquela moça, seus filhos brincando no quintal de Billy, o sorriso quente novamente estampando seu rosto e uma aura de normalidade e certesa pairando sobre sua casa. Era isso o que ele merecia, era isso o quê estava reservado para ele aqui. Eu não sabia quem era aquela moça, mas ela parecia nutrir por ele um sentimento nobre, sincero, o quê mais eu poderia desejar a ele? Alguém como ele, feita nas proporções de suas necessidades, alguém muito diferente de mim e de minhas buscas assassinas.
Todos levantaram-se subitamente, só então eu me dei conta do silêncio que envolveu a cena. No centro do círculo, Jacob prostava-se diante da grande pira funerário de seu pai. Trazia nas mãos uma tocha acesa que tremeluzia com o vento. A quietude se espalhou entre nós, até o mar pareceu abrandar suas ondas. Jacob falou algumas palavras em quileute e depois completou:
– Descanse em paz Pai.
A pira se acendeu num instante, e o fogo subiu! O calor fez meus olhos arderem, mas era bom em minha pele. Aquele povo de pele morena se tingiu de dourado, brilharam como moedas de ouro aos pés de seu líder. Adeus Billy Black, que nós sejamos tão sábios e honrados quanto você fora. Fechei meus olhos e fiz uma oração em silêncio. Acima de tudo, desejei força para manter aqueles que amo a salvo e para ser nobre o bastante para desistir daqueles que não posso fazer feliz.
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