5. Tempo, pt. Final

 

O cheiro das coisas era o quê tornava tudo mais real e assustador numa proporção quase simétrica. Eu podia identificar cada cheiro distinto… Paul e Embry indo para o leste depois do vale, suas pegadas humanas marcando a relva aqui e ali.

 Quil também passara por aqui há uns quarenta minutos. Leah, ao norte, em direção à reserva.

Vários outros traços de presenças humanas, várias assinaturas turvas que se misturavam e se fundiam. O cheiro daquela terra estava gravado a fogo em mim, os anos longe daqui tornaram esses detalhes ainda mais importantes, mesmo nas terras geladas da Rússia, se eu fechasse os olhos, podia sentir o cheiro da praia, dos pinheiros sempre verdes da reserva, o almíscar do ar e da pele dele.

 La Push era o lugar onde a presença dele tornava-se impossível de se ignorar, sempre seria a parte mundana de Jake, como se seu próprio corpo tivesse sido moldado a partir dessa terra úmida, dessas rochas altivas, dessas planícies inquietas. Jacob era isso, estava arraigado em sua essência e por isso eu me sentia num sonho ao voltar aqui depois de tanto tempo.

Enquanto caminhava com cuidado por entre as árvores, eu sentia uma sensação estranha, como se tivesse atravessado um portal, como se aquilo fosse tão frágil quanto um pensamento, tinha medo de que tudo de repente desbotasse, e eu me visse novamente na brancura gélida da Rússia.

 Contudo, a maior parcela do meu medo encontrava-se nas grandes chances que eu tinha de ser expulsa do velório de Billy, algo me dizia que eu não era mais bem-vinda ali, e a cada passo eu novamente me perguntava: o quê eu estou fazendo? Eu não deveria ter vindo aqui… Então eu fechava meus olhos e inspirava novamente as fragrâncias daquela floresta e isso era tudo que me fazia continuar, toda coragem que eu conseguia reunir. De qualquer forma, não havia como voltar atrás agora. Lavínia já não era meu segredo absoluto, como eu pretendia que fosse. Em poucas horas, duas das pessoas mais importante para mim viram com seus próprios olhos até onde eu fui capaz de chegar.

 A reação de Alice foi uma reprodução fiel a de Alec. Aqueles mesmos olhos chocados, aquele mesmo silêncio terrível… Será que ao menos algum deles teria a decência de gritar para mim o quão horrível eu fora? Eu mal soube explicar à Alice como isso fora possível, como, de uma hora para outra, eu me tornara capaz de transformar um humano.

 Então Alice apenas esboçou um sorriso e me agradeceu por estar fazendo tanto por Jasper. Talvez ela tenha concluído quais eram meus planos e por quê, afinal, transformei Lavínia. E talvez ela tenha entendido tudo errado. Alice havia me alertado sobre algo importante, algo que eu havia afastado de minha mente nessas últimas horas.

 “Como vai esconder uma recém criada dos outros? Especialmente do seu pai?” Disse Alice, e ela estava certa, era um problema, mas não um que não pudesse ser contornado. Aquilo trazia uma sensação de déja vú, de quando Jake me fizera a mesma pergunta.

Na época, porém, eu não tinha idéia do que estava fazendo, mas agora haviam certos truques que poderiam deixar Lavínia em segredo por um pouco mais de tempo… coisas que se aprende longe de casa. O cheiro, por outro lado, era um problema maior, especialmente em meio aos lobos. Fui obrigada a me lavar e Alice ficou feliz em me emprestar algumas roupas… Cheiro de Alice era melhor que cheiro de recém criada e terra de túmulo.

Era um pouco difícil caminhar pela mata com o vestido branco que Alice me dera, delicado como uma pluma, a peça mais discreta que consegui arrancar de seu closet, era devidamente apropriado para o que me esperava, embora não fosse algo que me deixasse a vontade. Roçava em meus joelhos e planava no vento da floresta… não combinava muito com minhas botas, afiveladas firmemente em meus tornozelos, então aproveitei um velho casaco de camurça que encontrei no antigo quarto de Rosalie.

 A noite não estava fria… por Deus, nenhuma noite seria tão fria depois dos meses em que fiquei nas montanhas Siberianas. Na verdade, eu estava adorando tudo, o céu, a brisa fresca carregada com o cheiro do mar, a umidade do solo que fazia meus pés afundarem na relva, me sentia dolorosamente em casa, embora soubesse que jamais poderia ficar.

Eu avistei a praia alguns metros a frente… As fogueiras acesas na areia formavam círculos em volta da grande pira fúnebre erguida ao centro. Todo o povo de La Push estava lá, cada um trazia nas mãos sua pequena vela acesa, suas pequenas preces diante de seu lider. Era como se a praia estivesse espelhando o céu, com suas estrelas distantes.

 Hesitei um momento na orla das árvores! Será que eu deveria continuar? Só haviam quileutes ali… nem meus pais – ou mesmo Charlie – não haviam comparecido. Estavam atrasados? Foram proibidos de participar da cerimônia? Eu não acreditava que Jake tivesse proibido até mesmo Charlie de partilhar desse momento, o último momento com Billy.

Isso fazia de mim a única intrusa aqui, era o bastante para deixar meus pés plantados ali mesmo. Eu poderia apenas observar de longe, ser um agente invisível naquela noite cerimoniosa, dar meu adeus a Billy em silêncio, no abrigo das árvores e longe da pessoa que me chamava como um canto de sereia para perto daquele povo tão simples e tão mágico.

Eu repetia para mim mesma, esse não é meu lugar, eu não posso me sentir em casa aqui, não se acostume com o quê não é seu, não deseje o quê você não pode ter… Mas sobrepondo-se a isso, só havia um pensamento. Preciso vê-lo, preciso dizer que sinto muito. Então ousei chegar mais perto, e mais perto… e quando me dei conta, a matilha já havia me percebido.

Era tarde demais para voltar. Será que eles me expulsariam? Ainda sob as sombras e cada vez mais próxima da luz das fogueiras, eu dei mais alguns passos e observei. Avistei todos os rostos conhecidos… tão parecidos, tão simetricamente iguais e distintos ao mesmo tempo. Era como se eu os visse em suas formas de lobo, cada qual com sua cor e suas galgadas firmes. Como homens, esse meninos eram apenas iguais. O tímido sorriso de Seth fez eu me encher de coragem. Escondi minhas mãos nos bolsos numa atitude puramente humana de humildade, eu sabia que era uma intrusa ali.

 – Eu estou muito atrasada? – Falei, era algo patético para se dizer e me arrependi no mesmo instante.

Logo ao centro das fogueiras, envolto em luz e sombras, Jacob enrijeceu.

Ficou de costas, hesitou em se virar, mas por fim o fez, e de súbito senti um medo monstruoso crescer dentro de mim.

 Medo de quê eu não conseguisse sair dalí nunca mais, medo da sensação terrível que eu vislumbrava no horizonte.

Eu estive tão enganada, fui tola o bastante por pensar que um dia fui forte, que um dia eu poderia vencer esse sentimento e priorizar outras coisas. Logo ali, a minha frente, estava algo que eu nunca poderia vencer.

 – Oi Jake.

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