Nightfall 5 Capítulo Parte II

 

Tempo (parte 2)

– Que merda Seth, já disse que carvalho não serve. Quer matar todo mundo sufocado com a fumaça? – O garoto estava tentando, mas nem eu, nem ele, conseguíamos nos concentrar no grande andaime que alçaria o corpo de meu pai naquela noite. Suspirei… o ar parecia pesado demais, o céu pesava toneladas acima de nós.
– Desculpe Jake. – Disse Seth, jogando o martelo que trazia nas mãos na areia. Ele agarrou um punhado de caibros de carvalho que trouxera da floresta, recolheu-os um a um em silêncio, eu podia ver o quão longe seus pensamentos estavam.
– Não… eu é que devo me desculpar. – Falei. Me deixei cair na areia, me sentia exausto como poucas vezes me senti na vida. Diante de nós, o mar estava inquieto. Eu podia ouvir a dureza das ondas quebrando na praia e o chicotear da água contra os penhascos. Eu cresci olhando para esse mar, ouvindo-o falar comigo, exatamente como agora. Se eu fechasse meus olhos podia ouví-lo dizer “o quê vai fazer agora Jake?” Mas eu não queria ouví-lo. Não agora, não quando eu não tinha nenhuma resposta.

Olhei para a pilha de madeira que começava a tomar forma e tentei imaginar meu pai ali. Tentei imaginar o fogo subindo pelas toras e consumindo toda uma vida em apenas um instante.
Acho que me acostumei com a idéia de vê-lo como alguém indestrutível, inabalável, uma fortaleza em sua cadeira de rodas. O tempo passou e eu devo ter me esquecido que ele não era imutável como eu, e que os dias dele esvaíam-se tão rápido quanto as águas dos rios que correm para o mar. É, acho que me esqueci de sua humanidade frágil, sempre escondida sob os olhos do líder, do ancião que deveria guiar seu povo e seus guerreiros. Aqueles olhos amenos me enganaram, por um momento eu achei que sempre os teria ali, olhando por mim.
Aquele último ano em que estive em casa… Acho que o fiz desejar que eu nem tivesse voltado. Foi um pesadelo. Estive todo o tempo desejando estar sozinho, tentando manter minha cabeça na superfície, e em nenhum momento o deixei se aproximar, queria ele longe da minha dor e agora… Agora, eu só queria que ele estivesse aqui, olhando para mim por sobre o jornal aberto na página de esportes. Ele resmungaria “Jake, a veia na sua testa vai explodir a qualquer momento, relaxe um pouco garoto” mas tudo que eu tinha agora era um silêncio gelado, uma sensação de que eu estava em algum lugar muito longe de onde deveria e a única coisa que me restara era dar a meu pai um enterro digno do líder que ele foi. Rachel teve que lidar com toda a burocracia governamental que dizia que que não podíamos cremá-lo na reserva, diante do nosso povo. Eu não sei o quê ela fez para conseguir uma permissão legal, mas eu não me importava de socar quantos idiotas engravatados fossem preciso para que nossos costumes fossem respeitados. Um líder precisava ser honrado com a purificação do fogo, uma fogueira na praia, sob o céu noturno de seu lar, onde suas cinzas se dispersariam ao vento enquanto o povo cantasse as velhas canções. É assim que teria de ser, eu estava aqui para me certificar disso. Eu estava aqui por meu povo, depois de tantos anos ausente.
Uma voz irritante em minha cabeça resmungou que não havia nobreza nenhuma no simples fato de eu estar aqui, afinal de contas, nem fora uma decisão minha…
As marteladas de Seth no andaime chamou minha atenção de volta à coisas mais importantes, eu tinha algo a terminar e não podia me render, não podia parar para olhar em volta nem dar ouvidos a esse vazio incômodo.
– Seth. – Chamei, ele não me ouviu, estava a quilômetros daquela praia. – SETH! – O garoto me olhou assustado, tinha nos ombros um pesi invisível, infinitamente maior que ele.
– O quê foi Jake? – Disse ele, descendo do andaime e caminhando em minha direção. Olhar para ele era como encarar um espelho.
– Na noite em que meu pai morreu… – Comecei, tentando impedir as imagens de voltar a minha mente. – Ele me disse que precisava me contar algo. Sabe de alguma coisa? Sam comentou algo? – Seth juntou as sobrancelhas, pensou algum tempo e por fim deu de ombros.
– Ninguém comentou nada comigo. – Disse. Assenti e em seguida tirei aquilo da cabeça, não queria reviver aquela última noite, queria pensar que fora um pesadelo, algo ocorrido em outra vida. Recomecei meu trabalho…
Por pelo menos duas horas ininterruptas eu só vi e ouvi o quê estava a minha volta. Um punhado de madeira recortada, as velhas ferramentas do galpão, o som do mar às minhas costas, o cheiro da tarde caindo sobre as árvores e a umidade que descia das nuvens. Aquilo era tudo que havia na minha cabeça naquelas últimas horas do dia, ao passo que, lá pelo início da noite, o trabalho estava concluído. Seth carregou o andaime até o local onde a cerimônia seria realizada, eu fiquei observando ele carregar o grande amontoado de madeira como se estivesse levando uma caixa de papelão nos ombros.
À duzentos metros ao longo da praia, as fogueiras começavam a ser acesas. La Push se iluminou naquele crepúsculo opaco, ofuscou os últimos raios de sol. Fiquei alguns minutos ali, observando a mobilidade confusa daquele entardecer, escutando os grilos na floresta atrás de mim. As horas seguintes voaram…
Dei-me conta de que estava sozinho. Todos os que trabalhavam na praia já haviam voltado para a reserva, e eu precisava me apressar. Mas não podia me mover, estava enterrado na areia como um baú pesado jogado na praia pelas ondas. Minha cabeça não conseguia emergir daquele vazio que se instalara em mim.
Pela primeira vez naquele dia, eu pensei nela. Um escorregão traiçoeiro da minha mente.
Onde ela estaria agora? Em que lugar desse mundo? Será que estava com o sanguessuga italiano? Edward teria me deixado saber disso?
Bem, não fazia diferença. Eu havia desistido de passar minhas noites em claro tentando imaginar onde ela estaria. Minha busca havia terminado em Amsterdã, naquela neve gelada era onde eu havia enterrado todas as minhas expectativas de finalmente poder ficar com ela. Estava acabado, e talvez eu nunca mais voltasse a vê-la, principalmente por quê eu havia desistido também de minha imortalidade.
Esse era o quinto mês sem que eu me rendesse uma só vez ao fogo perpétuo dentro de mim, e como contavam as lendas, eu já podia sentir a brasa amornando. Eu seria um líder apenas humano para meu povo, assim como meu pai havia sido. Não era bom para a matílha perder seus dois líderes de uma só vez, mas eu confiava em Quil, o terceiro na linha de sucessão, ele seria um líder justo e bom para nossos irmãos. Sam e eu havíamos chegado num ponto em nossas vidas em que o lobo dentro de nós machucava mais do quê nos consolava. Sam precisava de sua família, precisava estar lá por eles, e eu… Eu havia sido ferido em combate, de uma tal forma que não havia outra solução senão sacrificar o meu lobo. Agora ele dormia e observava em silêncio, ás vezes se inquietava, mas o tempo me deu o total controle sobre ele.
Éramos um só agora, e ambos esperavam se adaptar a essa nova vida, ambos esperávamos suprimir sentimentos proibidos. Enquanto caminhava até as fogueiras eu tentava assimilar essas coisas, essa nova realidade que me era tão estranha quanto usar salto alto. Eu não sabia como deixar de ser o velho Jake de ontem e ser o líder deles essa noite, mas eu teria de descobrir… as pessoas começavam a se reunir em volta das fogueiras, eu podia ouvir o som de seus pés afundando na areia úmida.
– Ah, aí está você. Te procurei por toda a reserva. – Claire! Quem mais estaria “me procurando por toda a reserva?”
– Precisa de algo? – Perguntei. Claire deu um sorrisinho animado e engatou seu braço no meu.
– Não, nada de especial, só queria ir com você ao funeral, sabe… para te dar forças. – Continuei minha caminhada, estava tão cansado que não quis discutir os mil e um motivos pelo qual ela não poderia chegar “comigo” no funeral do meu pai. Com um destaque especial para o fato dela ser o imprint do meu melhor amigo e, a partir dessa noite, atual líder da matílha.
– Você deveria acompanhar Quil, hoje será um dia especial para ele, a partir dessa noite a liderança da matilha será dele. – Claire fez um muxoxo e enrolou uma mecha de cabelo nos dedos.
– Quil nunca vai ser um alpha como você, não entendo por quê desistiu da liderança tão cedo. – Ela olhou para mim pelo canto do olho, tinha no rosto uma malícia que não condizia com sua idade. – A não ser que esteja pretendendo se casar Jake. – Disse.
Eu não sabia o quê estava havendo com Claire, a garotinha que vi brincar de recolher pedras na praia não preservara nada daquela doçura e inocência e para piorar ainda havia colocado na cabeça uma maluquice qualquer sobre mim, sobre nós. Isso não me deixava exatamente confortável diante de Quil e do resto da matílha.
– Sabe, eu também acho que o casamento faria bem a você, estive conversando com Rachel esses dias e…
– Claire. Eu não vou me casar. – Falei e continuei andando sozinho, as luzes já iluminavam toda a praia, as pessoas circundavam as fogueiras que por sua vez faziam uma meia lua em volta do andaime onde o corpo de meu pai repousava. Flores de todas as cores estavam dispostas ao redor dele, cada morador trazia nas mãos uma vela, que transferia sua chama de mão para mão.
Quando adentrei os círculos as pessoas pararam de falar, os olhares se voltaram para mim. Estavam todos ali, todos os rostos que eu conhecia desde a minha infância. Olhei para cada um deles, queria memorizá-los, quem sabe quanto tempo eu ainda tinha para fazê-lo?
Os que haviam se sentado nos troncos e pedras, levantaram-se, todos esperavam que eu dissesse algo. Olhei para minhas irmãs, Rachel e Rebecca, para meus irmãos de matílha, cada um deles parecia espelhar nos olhos a mesma dor dos outros.
– Acho que podemos começar. – Foi a única coisa que consegui dizer. De início eu não entendi a reação das pessoas, houve uma agitação incômoda entre a matílha, que despertou um murmúrio crescente entre os presentes. Seth olhou por sobre meu ombro, Quil e Embry deram um passo a frente, Sam se levantou e entregou Henry ao braços da mãe. Eu estava prestes a perguntar qual era o problema quando o cheiro me acertou em cheio.
Uma fisgada dolorida percorreu minha espinha quando identifiquei o odor quente, quase febril, e o som do coração pulsando depressa fez a noite cair como um meteoro em cima de mim. O choque imobilizou meu corpo, eu não ousava me virar, não ousava encarar aquela alucinação.
– Eu estou muito atrasada? – Ela falou.
A voz suave cortou fundo como uma lâmina. Virei-me devagar, como se estivesse prestes a encarar o juízo final. Ela estava lá, perfeitamente parada na areia, as mãos nos bolsos e um olhar calmo no rosto, o cabelo vermelho era como um fogo imortal na escuridão. Os olhos marrons pousaram em mim e foi o quê bastou para ferver dentro de mim tudo que havia se amornado com o tempo.
– Oi Jake
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