Agora são 1:16 da madrugada de sexta… daqui a cinco horas eu vou estar na ativa, pegar estrada pra fazer algumas fotos para um trabalho. Enfim, não deixarei vocês na mão novamente, digitei o capítulo e estou postando na madruga mesmo. Esse capítulo é dividido em duas partes. Porquê? Por quê a parte seguinte é narrada por outro personagem… quem será? Assim que eu conseguir finalizar, será postado, e como sempre…torçam por mim! Preciso dar conta de qualquer jeito… Boa leitura a todos!
 
 
5. Tempo
 
 
Eu não saberia dizer o momento em que decidi que precisava voltar, que precisava estar lá, de alguma forma. Lembro-me da voz de Charlie, e de como senti meu sangue congelar nas veias, e então veio o dejá vú… Era Alice do outro lado da linha, e ela dizia: nós viemos para o enterro de Renée, apenas algumas horas após Billy nos dar a notícia.
Esse era o tributo cobrado dos que são matéria imperecível num mundo de coisas efêmeras, frágeis… um mundo onde um minuto pode ser tudo, ou coisa nenhuma, e que faz de um piscar de olhos, a perda de um momento que poderia ter mudado tudo, irreversivelmente. Quando se é de pedra, o tempo veste-se de forma mais amena, mas nossos olhos são obrigados a ver o quão terríveis são os segundos com todas as coisas vivas. A morte lenta de cada coração pulsante, o lento declínio, o esmaecer das cores. Tempo… não houve outro momento do qual eu me recorde, em que o peso de sua mão esteve mais evidente sobre mim. Tempo…era tudo que eu gostaria de controlar. O relógio no fim do corredor da aeronave que me levava de volta para casa, infelizmente não retrocedia em cada milha que percorri pelo mundo, não fazia os dias voltarem, não trazia de volta as pessoas que se perderam em algum minuto daquelas horas infinitas. O tempo só estava ali para me torturar, e eu não podia evitar que meus olhos acompanhassem, ávidos, os círculos terríveis daqueles ponteiros.
Eu desejava poder dormir, fechar os olhos e afundar, lentamente, na inconsciência segura, atemporal, onde tudo submerge e perde o peso, onde até o quê é feito de pedra consegue flutuar. Em algum lugar de minha mente eu sabia que não agira da melhor forma com Alec, ou com Lavínia. Eu não agira bem com basicamente ninguém, essa era a verdade. Para Alec eu só levara problemas, perguntas e um silencio vazio. Após o telefonema de Charlie, as coisas simplesmente pareciam ter se liquefeito em minha mente, e eu me esqueci por um momento do que era prioridade, e do que parecia ser. Larguei tudo onde estava, do jeito incompleto e confuso em que se encontravam e fiz o que parecia ser a única coisa a ser feita naquela hora: peguei o primeiro vôo para casa.
Como num paradoxo ironicamente perverso, as horas desde então haviam se esvaído, e de súbito eu estava sobrevoando Washington. Em algum momento, de algum lugar de minha mente surgiu a consciência de que Lavínia estava ali ao meu lado, e que eu não poderia simplesmente descer do avião guinchando uma recém criada atrás de mim. No momento em que eu finalmente desenterrara uma pista de Aro, eu não podia deixar tudo ruir num único momento de insensatez, e era exatamente isso que eu estava fazendo. O que diabos eu estava pensando quando permiti que ela viesse comigo? Bem, eu não estava pensando, isso era certo. Eu precisava fazer algo, pensar em algo. Minha família simplesmente não podia saber da existência da “nova” Lavínia, não agora. Olhei para ela, sentada, imóvel na poltrona ao meu lado. Parecia injusto, sua presença ali era tudo menos confortável. Novamente estava sem respirar, e quase não se movia como um humano. Me perguntei há quanto tempo ela estava imóvel, e se alguém se dera conta disso.
– Preciso ligar para meus pais. – Falei. Ela pareceu sobressaltar-se. Olhou-me atentamente com seus olhos grandes, enegrecidos por lentes de contato tão perceptíveis quanto um chapéu de palha gigante.
– Vamos aterrissar em meia hora. – Disse ela. – Você está bem?
Assenti sem dizer nada, não sabia o quê responder. Afinal de contas, eu estava bem? Percebi que não tinha tempo para descobrir.
– Minha família não pode saber de você. Se eles virem o que eu fiz… – Suspirei e desci o zíper de minha jaqueta, estava me sentindo sufocada. – Eles têm que continuar pensando que eu estou por aí chorando minhas mágoas em algum canto, ou seja lá o quê eles pensem que eu estou fazendo.
– Vou esperar por você em algum local. Diga-me onde. – Disse ela.
– Estou pensando. – Perto o bastante para partirmos assim que possível, longe o bastante para estar a salvo dos olfatos irritantemente poderosos que se aglomerariam em La Push.
La Push… maldição! O quê eu vou dizer a ele? Sinto muito? Eu não tinha direito de estar lá, velando o pai dele, consolando-o. Eu roubei o único filho de Billy Black e o afastei de sua casa e de sua família, e por conta disso, os últimos anos de Jacob com seu pai foram anulados por uma pilha de coisas que, definitivamente, começaram a se acumular com a minha chegada a este mundo. E eu o abandonei, afinal de contas…
Droga, eu precisava dar um jeito em Lavínia primeiro… Jake depois…
– Ness. – Chamou Lavínia. Ela gesticulou, discretamente, para a pequena TV alguns metros a frente. Coloquei o fone.
O noticiário matutino relatava um grande incêndio na ilha de Gotland, que se iniciara naquela madrugada por razões até então desconhecidas, o repórter, em seguida, ditou uma seqüência de dez nomes de pessoas desaparecidas na ilha desde a última semana.
– No meu último vislumbre do homem desconhecido, eu vi o mar Báltico. Na noite passada, eu vi Goteborg. – Disse Lavínia.
– Está subindo pela Suécia. – Falei. – Acha que está indo para onde?
– Não sei, ele ainda não parou desde que saímos da Rússia. Está em constante movimento. Mas Ness… de uma coisa eu sei. Ele não está sozinho. – Encarei o rosto pálido de Lavínia, maquiado de forma a parecer o mais humano possível. Aquilo era bom, significava que tínhamos menos chances de estar seguindo uma criatura qualquer, aleatoriamente, que por alguma razão estava sempre na freqüência que pertencia a Aro no radar de Lavínia.
– Fique de olho nele. Eu já sei aonde vou deixar você. – A idéia veio como uma subida rajada de vento, e por mais que não fosse uma inspiração divina, era, ao menos, uma escolha aceitável, levando-se em conta o curto tempo que me esperava.
Quarenta e cinco minutos depois, eu e Lavínia pegávamos um vôo menor do aeroporto de Seattle até Port Angeles. Na mudança de cenário, eu sentia a angústia crescer e descobri, ali em silencio, enquanto observava o céu nublado, que voltar para casa era ainda mais difícil do que deixá-la, pois a pessoa que sai, nunca é a mesma que retorna, e isso faz seu próprio lar parecer estranho, mesmo que o único estranho ali seja você.
Quando enfim aterrissamos em Port Angeles, a primeira coisa que fiz foi alugar um carro com vidros escuros o suficiente para assegurar que o sol não alcançasse a pele de Lavínia, pelo menos não em público. Dirigir fez eu me sentir melhor, estar no controle de algo fazia meus pensamentos fluírem melhor, e então eu me certifiquei de mais uma coisa. Disquei um número há muito esquecido em minha lista de chamadas. No fundo, eu não esperava que ela atendesse.
– Ness? – A voz alegre e leve de outrora não era a mesma que chamava meu nome do outro lado da linha.
– Oi Alice. – Respondi, minha garganta se apertando.
– Não vi você chegando, mas senti as coisas oscilarem um pouco nas últimas horas. Está voltando pra casa? – Perguntou Alice. O quê eu poderia dizer a ela? E o que eu deveria dizer?
– Estou indo ao enterro de Billy, mas Alice, meus pais ainda não sabem que voltei, quero fazer uma surpresa, sabe me dizer onde eles estão agora?
– Na casa de Charlie, bem, Edward e Bella, pelo menos. Carlisle, Esme, Rosalie e Emmet estão em Denali, mas não me pergunte o que eles fazem lá, nem eu saberia lhe explicar.
– Ok. Alice… Preciso te pedir um favor. – Um silêncio que antes jamais estivera presente em minhas conversas com Alice, de súbito, encharcou aquele momento.
– Eu vejo uma estranha chegar Ness. Ela está com você? – Sorri…havia me esquecido como é viver sem segredos.
– Sim Alice, ela está comigo, e preciso que faça companhia a ela enquanto eu resolvo umas coisas.
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