Consegui adiantar um pouco o cap dessa semana. Espero que gostem!
PS: o capítulo ainda não foi revisado, desconsiderem os possíveis erros de digitação.
 
 
Cap 4. As Sombras no Jardim
A câmara escura e fria perdia-se entre pilares, perdia-se na escuridão para além dos meus olhos. Cheirava a umidade, mofo, abandono. Uma mesa de mármore entralhado reluzia com um brilho polido, refletindo os fiapos de luz das portas lá atrás.
Aquilo parecia o estômago de uma fera. Eu olhava pela primeira vez para o corpo de Willian, olhava realmente, e agora era como se eu não pudesse tirar meus olhos dele. Quanto mais eu o olhava, mais nítido se tornava a proporção do meu erro. Alec, de uma forma inconsciente, também havia colaborado para isso. O jeito como ele me olhou… As palavras que ele não disse.
Só o que fez foi tomar Lavínia nos braços e levá-la – ela e sua estátua viva – para o interior do casarão. Eu fiquei lá, em meio a escuridão, sob os olhares silenciosos daqueles estranhos, sem poder dizer ou fazer qualquer coisa. O que haveria para se fazer, afinal de contas? Minha tarefa estava concluida – pelo menos a primeira etapa dela – e eu agora podia seguir meu caminho. Lavínia estaria melhor aqui, ela poderia ser meus olhos de longe. Certamente ela já explicara a Alec tudo que ele precisava – e podia – saber.
Mas por quê meus pés não se moveram? Por quê tomei o caminho oposto?

Por quê eu estava aqui, participando desse velório do qual eu partilhava a culpa pelas mortes? Indireta ou diretamente, eu os havia matado – Willian e Lavínia. Eu não tinha o direito de estar aqui. “Então apenas saia.” eu pensei, mas meu corpo parecia não ouvir.
Tudo que eu conseguia pensar era na culpa me correndo por dentro.
Houve um movimento cadenciado lá fora, na superfície, alguém caminhando em nossa direção. Meio segundo após eu senti o cheiro de Benjamin adentrando a câmara.
Desviei meus olhos para ele, agradecendo silenciosamente sua presença. Benjamin era a materialização da calma, seu rosto estava tão sereno quanto a de Willian. Ele não falou nada. Colocou-se ao lado de Alec e Lavínia e juntou-se a eles naquela cerimônia muda.
Sem fazer ruído, saí de lá o mais rápido que minha discrição permitia.
Eu não entendia a fixação dos Volturi por câmaras subterrâneas, mas podia entender suas funcionalidades. Ademais, imortais também precisam de abrigo e segurança, mesmo assim, sentia-me claustrofóbica entre aquelas paredes, minha natureza clamava por ar livre, céu aberto. Fui para fora, para os jardins, a compania daqueles estranhos era, pelo menos, mais confortável. Observei alguns entre as árvores, nos telhados, espalhados pela propriedade como vultos sem rosto. Imaginei quem seriam, de onde vieram, quais eram suas histórias. Eu poderia roubar essas informações de suas mentes, mas não seria nada educado ou necessário. Fiquei em silêncio, numa imobilidade confortável, observando…
Quanto tempo eu demoraria para sair dali? Tempo o bastante para estar longe quando alguém desse conta? Lavínia mudara sutilmente desde que desenterramos Willian, talvez ela tenha deixado escapar sua gana por encontrar Aro, talvez ela estivesse curada de sua sede por vingança. E eu teria de continuar sozinha e de uma forma que até então eu deixara de reconhecer, isso era o que deveria ser feito.
– Ela pode mesmo encontrar Aro? – Disse Alec. Virei a tempo de ver Alec cruzar as portas que levavam ao jardim. A pergunta parecia deslocada no tempo e ele parecia outra pessoa, alguém mais velho fisicamente, mais cansado talvez. Olhei para ele por vários segundos, minha teia atemporal. Assenti em silencio sem me dar conta de que aquilo era uma conversa. O silencio parecia ser a única coisa correta ali. Alec encarou o grande jardim a nossa frente e de súbito eu percebi que estávamos sendo observados por no mínimo vinte pares de olhos distintos.
– Eu entendo por quê você fez. – Disse ele ainda sem me olhar. – Entendo seu desespero.
– Eu não estou desesperada. – Falei, minha voz soava fria, era como se eu tivesse trazido o inverno Siberiano dentro de mim.
– Olhe para você. Ainda se lembra de quem é? Lembra-se o por quê tudo isso aconteceu? – Alec se aproximou e deixou que seus dedos tocassem meu rosto. – Eu sinto que nem te conheço mais. – Disse ele, seu rosto ganhou uma expressão nova, eu podia sentir o vazio em meus olhos.
– Eu estava lá quando você chorou, estava lá quando pensou que havia perdido todos eles. Não finja que eu não sei o que sei e que não entendo o que vi, eu já vivi muito para ser chamado de tolo.
– Mas é isso que está sendo Alec. Um tolo! Não faz diferença se eu mudei ou não, isso não vai nos ajudar em nada agora. – Afastei as mãos dele e dei um passo atrás. Eu ainda não me sentia confortável com a proximidade dele, fazia tudo parecer mais errado.
– Sabe o quê ajudaria? – Falei, contornando a figura imóvel de Alec e indo em direção ao centro do jardim. – Escutem todos.
– Ness. – Falou Alec.
– Não, escute você também Alec. – Eu disse, erguendo a voz para que eles entendessem a seriedade de minhas palavras. – Nós estamos em guerra. Uma guerra que vai determinar o nosso destino e o destino da humanidade, daqueles que nem saberão o que os atingiu. Não se trata mais de quem vai liderar ou quem foi perdido, se não lutarmos juntos agora, Aro vai conseguir reunir poder suficiente para derrubar nossa resistencia. Ele não está apenas fugindo, não está apenas se escondendo, a cada minuto que ficamos parados aqui ele recupera mais forças. Ele tem Jane, mas ela é apenas uma. Se ficarmos juntos, o problema dele vai ser bem maior. – À minha volta um silencio maciço corria com o vento. Eu podia sentir seus olhos em mim como lanternas de luz negra. – Se querem viver, se valorizam sua existencia nessa terra, lutem. Uma guerra não se ganha com preces e lamentos.
Houve um pequena escilação à minha volta, uma inquietude no meio das árvores, mas eu não fiquei lá para observa-los se indignar com minhas palavras. Com gestos e passos puramente humanos, eu dei meia volta e segui caminhando de volta para o interior da mansão. Quando passei por Alec, deixei meus olhos o alcançarem por um breve segundo.
Ele me olhava em silencio, eu não sabia o que pensar. Enquanto caminhava, por rápidos dois segundos, senti novamente a sensação de humanidade , pura e simples, tomar conta de mim. Senti a temperatura à minha volta, e estremeci com o frio. Mas a sensação logo se foi, e eu continuei a caminhar apenas com o vazio gélido subindo por minhas pernas. Meu coração era a única voz inquieta na noite.
Os corredores serpenteavam no interior de cômodos amplos, uma porta, e mais outra, e mais outra, escadas levavam para cima e para o subsolo, a arquitetura era antiga, mas mantinha um brilho imaculado, como se apenas fantasmas vivessem ali, sem tocar ou alterar nada.
Eu não sabia onde estava indo, apenas precisava me manter em movimento, e quem sabe, encontrar um canto tranqüilo para descansar alguns minutos.
– Eles lutariam com você. – Disse uma voz grave e senil saindo das sombras de um aposento à minha direita. O manto negro de Marcus roçou o chão enquanto ele adentrava o corredor estreito.
– Você os lideraria melhor que Alec, ele não foi criado para lutar, um burocrata.
Marcus olhava-me atentamente, o rosto sereno emoldurado pelos cabelos cor de mogno deixavam-no um ar meio santificado, uma sombra amena de sabedoria e poder.
Devolvi o olhar, meio indiferente, não esperava vê-lo ali.
– Alec ficará bem. – Falei.
– Não creio nisso. Alec tem boas intenções, mas ele não está pronto para fazer o que é preciso quando a hora chegar. – Sob qualquer perspectiva dividir um especo tão extreito e sombrio com Marcus não me parecia uma boa idéia, eu simplesmente não conseguia confiar no ancião Volturi, nunca sabia o que esperar dele. Permaneci em silencio, olhando-o por trás de minha máscara de controle, o que ele pretendia com aquilo?
– Sabe, os anos passam e as guerras não mudam nunca. Sempre terá a mesma forma. Eu lutei em tantas, presenciei tantas… Guerras de homens e de criaturas, não importa. Todos se tornam monstros quando é matar ou morrer. – Marcus olhou-me de esguelha. – Quantos anos tens criança?
– Tecnicamente, estou me aproximando da primeira década. – Falei, e não pude conter um sorriso. Eu nunca me acostumaria com a estranheza daquilo.
– É poderoso não é? Ser sugado pelo tempo de forma tão violenta. Dez anos e você já está lutando suas primeiras batalhas reais. Tens mais coragem que muitos antigos que conheço, especialmente dois deles. – Disse Marcus agitando a mão poeirenta no ar.
– Vladimir e Stephan? – Falei. Marcus esboçou um sorriso. Eu nunca o vira sorrir antes.
– Vladimir e Stephan. – Concordou ele. – Sua fama os precede. Os leões de Gales nada mais eram que dois turcos velhos e vaidosos, naquela época seus seguidores os veneravam como Deuses e isso era tudo que importava para eles. Mas bastava a guerra apertá-los contra a parede, tão logo eles voltavam correndo para o buraco imundo de onde saíram.
– Não havia me dado conta de que eles eram turcos. – Falei, um vinco começava a se formar em minha testa e uma idéia respingara em minha mente. O que Dave havia dito sobre seguir a trilha de corpos? Era pouco provável uma palavra aparecer tantas vezes em conversas distintas: Turquia, a terra de Vladimir e Stephan.
– Poucos sabem na verdade. – Disse Marcus – Eles fazem questão de manter suas origens em segredo, se acham superiores a sua própria descendência. – Aquela idéia começava a ganhar consistência. Que melhor lugar haveria para se esconder além de sua própria terra? Bem, valia o tiro. Guardei aquela informação num local discreto, precisava dar uma passada pelas terras turcas antes de seguir para o norte – para o possível paradeiro de Aro. Fazia sentido o noticiário, os desaparecimentos, afinal, Vladimir e Stephan nunca foram conhecidos por sua discrição.
Estava tão distraída com aquela possibilidade que, a princípio, não notei o silêncio que embalou a voz de Marcus. Me dei conta de que estávamos imóveis, um diante do outro, tão silenciosos quanto a mobília da casa.
– Me desculpe, eu divaguei. – Falei, meio desconcertada. Marcus assentiu e lentamente se pôs a caminhar para o lado oposto do corredor. Ao passar por mim, inclunou-se levemente e disse:
– Leve a moça com você. Vai precisar dela, não fraqueje agora. – Disse ele num sussurrar gentil. – Eu teria tomado a mesma decisão para salvar a vida dos que amo. – Em seguida continuou a caminhar, devagar e silencioso como um espectro.
Me vi ali, sozinha, no meio da escuridão, tentando entender o que eu havia feito e o quê deveria fazer, tentando decifrar o que se esperava de mim e o que eu teria de suportar para não decepciona-los.
Bem, creio que já havia decepcionado muitas das pessoas que amo, e que agora só o que me restava era lutar pelo em delas, ou ao menos por sua sobrevivência. Continuei andando, e de súbito as palavras de Shakespeare me vieram à mente. “O mundo não pára para que você recolha seus cacos.” Mal sabia ele o quão literal poderiam ser essas palavras para mim.
Dei meia volta e comecei a descer as escadas até o subsolo. Eu precisava falar com Lavínia. De certa forma Marcus estava certo, eu precisava dela comigo, ou Aro me escorregaria entre os dedos e eu não tinha tempo para recomeçar. Precisávamos seguir com o plano, partir para o norte o quanto antes e seguir a trilha de migalhas. Não havia tempo.
Um tilintar agudo rasgou o silencio e ecoou pelas paredes vazias. Demorei meio segundo para reparar no pequeno aparelho prateado que jazia esquecido no interior de meu casaco. O visor mostrava um número conhecido.
– Oi pai. – Falei, o fone permaneceu mudo durante algum tempo. Esperei, escutando a estática na linha.
– Ness. – Falou uma voz conhecida. Franzi o cenho.
– Charlie? – Como ele havia conseguido meu número?
– Ness por favor venha para casa. – Disse ele, a voz grave engasgada na garganta.
– O quê houve? Onde estão meus pais? – Um aperto gélido começava a comprimir meu estômago.
– Eles estão bem, estão aqui em Forks comigo. – Disse Charlie. o que diabos eles estavam fazendo em Forks? – Ness, eu sei que está fazendo algo importante, mas precisamos de você agora. Jake precisa de você. – Meu coração martelava tanto que começava a atrapalhar meu raciocínio.
– O quê houve com ele? – Perguntei, um nó subindo por minha garganta.
– O Billy – Disse Charlie, eu podia ouvir a dor na voz dele. – Billy Black morreu.
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