3. Relutância
Eu havia desistido de contar os dias. Lembro-me de ter contado o quinto e depois nada…
A sensação pesada multiplicava-se a cada passo, não me abandonava nunca, agora eu podia sentir o quão perto estávamos. A colina que alçava Montepulciano aos céus despontava no horizonte. As ruínas enegrecidas tornaram-se algum tipo de Meca, o marco zero onde tudo começara e onde tudo deveria ter terminado – mas não foi bem assim. Contudo, aqui estava eu, caçando fantasmas. A noite acabara de descer sobre nós, era preciso evitar a luz do dia, especialmente aqui, onde o sol brilha tão forte, onde seu lençol de luz se estende por sobre todas as superfícies e todas as criaturas. Nós precisávamos ficar a salvo numa terra onde se esconder era praticamente impossível.
Tentei não pensar em Alec nas horas de clausura da luz, especialmente por que ele, inevitavelmente, seria o primeiro a saber o quê fiz com Lavínia. E eu não podia deixar de sentir vergonha, não conseguia deixar de sentir culpa. Não havia outro jeito, Alec teria de ser informado, primeiro por quê estávamos em seu território, e passar despercebido por ele era impossível, e segundo por quê Alec era o responsável por zelar pelo corpo de Willian, e roubá-lo seria uma deslealdade e algo muito mesquinho, embora eu não pudesse negar que isso era exatamente o quê eu tinha vontade de fazer. Tentei amenizar os danos convencendo Lavínia a deixar-me procurar Alec sozinha, entregar à ele o corpo de Willian, e pedir – talvez implorar – que ele o mantivesse sempre a vista, e rezar para qualquer entidade maior, que ele não fizesse perguntas. Como na noite em que Lavínia bateu em minha porta clamando para ser transformada, ela, novamente, não cedera até eu dizer “tudo bem”. Eu estava começando a achar que talvez nunca fosse capaz de dizer não a ela.
Isso complicava as coisas num nível colossal. Alec saberia no mesmo instante que eu tinha planos dos quais nem minha família, nem os que partilharam da luta ao meu lado, tinham algum conhecimento. E ele saberia o que eu fiz com aquela humana e talvez chegasse à conclusão de que eu estava apenas usando-a para meus próprios fins.
Ele estaria errado em concluir isso?
Não havia nenhum argumento em minha mente que pudesse ser usado para explicar a ele por quê as coisas estavam do jeito que estavam, e isso só gerava uma apreensão trêmula e vacilante bem no centro do meu estômago.
“Muito bem” pensei comigo, adentrando a campina de trigo que, sob a luz do céu estrelado de Montepulciano, assumia um tom atípico, como num oceano morno, movendo-se num ritmo lento e constante com a brisa. A escuridão fazia qualquer buraco parecer mais fundo.
Lavínia estava anormalmente silenciosa nas horas que anteciparam nossa chegada, e nem eu tampouco, fui capaz de romper aquele silêncio sagrado. Não havia nenhum traço de cheiro humano ou imortal na campina, apenas rastros frescos aqui e ali. Marcus estivera aqui na noite anterior, eu reconhecia o cheiro agridoce, antigo… Nenhum rastro de Alec.
A caminhada silenciosa entre os ramos secos tornou-se uma dança. Deixei Lavínia ir à frente, encontrá-lo com seus novos sentidos, senti-lo com seu novo corpo. Inevitavelmente as imagens voltaram em minha mente. Os gritos de Benjamin “Tirem ele daí. Tirem logo”
“ Jake, quebre o pescoço.” Gritava minha mãe. A ruptura, o sangue. O gorgolejo sufocado da besta sendo atacada de todos os lados, os grunhidos morrendo sob suas mandíbulas.
E muitos pares de mãos arrancando, partindo, quebrando, torcendo… Não importa quanto tempo passe, eu jamais seria capaz de esquecer as coisas que presenciei naquele dia. Mesmo que Lavínia estivesse sofrendo uma dor inimaginável, ela jamais iria sentir o peso de tê-lo visto cair, ela jamais seria capaz de provar aquele gosto. Alice, por outro lado, estava lá quando Jasper sucumbiu.
Eu tentei escoar os pensamentos, deixar as vozes em minha mente serem levadas pelo vento, tentei ouvir o silêncio que me rodeava. Era como voltar para um sonho, revisitá-lo numa noite de insônia, com olhos mais despertos e mente mais limpa. Tudo parecia distante, assim, como se visto por trás de um tecido fino. “Rasgue-o” pensei comigo, “Rasgue-o agora, não há tempo para lamentar.”
Lavínia parou alguns metros a frente, para onde quer que olhássemos o horizonte se perdia na escuridão. Ela pareceu hesitar, agora eu teria de ser forte por ela.
Cavamos em silêncio por pouco mais de trinta minutos. A cada punhado de terra lançado para fora do buraco, o cheiro se tornava mais real. Era Willian ali, sob nossos pés.
Quando finalmente tocamos o tampo de mármore que o lacrava a quase cinco metros de profundidade, o mundo pareceu oscilar, e o quê até então parecia um sonho, de súbito, tornou-se real demais.
Lavínia afastou a pedra maciça como quem tira um graveto do caminho. Eu admirava a coragem dela, mesmo que não compreendesse sua dor.
O tempo parecia ter parado dentro daquele buraco. Ali era tudo mais silencioso, tudo mais frio, mais úmido, mais escuro. Nem o atrito metálico da pedra cedendo era capaz de quebrar a imobilidade ali.
O rosto surgiu como uma pedra cintilando na escuridão. Um brilho polido, inumano. Se não fossem os cabelos fartos, revoltos, nenhum humano poderia dizer que aquilo – Willian – não era uma escultura milagrosa.
Lavínia o encarava com o mesmo torpor paralisante. Tudo que eu queria era sair logo dali, não podia suportar olhar para ele por mais de meio segundo.
– Precisamos nos apressar. – Sussurrei para ela, incapaz de conter minha ansiedade.
Ela assentiu e se inclinou sobre o corpo de Willian.
– Tudo bem, eu faço isso. – Disse ela quando tentei ajudar. Não retorqui.
Lavínia envolveu o corpo de Willian numa túnica escura, com cuidado, como se ele fosse tão vulnerável quanto uma peça de porcelana.
Caminhei na frente, de volta para a estreita ruazinha de terra que nos levaria para a nova sede Volturi, um caminho sinuoso e escuro, porém o meio mais seguro para nos movimentarmos com um corpo – que nem era mortal – e não correr o risco de nos expor.
Tudo estava correndo como eu e Lavínia havíamos planejado enquanto corríamos – literalmente – para cá. Uma carta fora enviada a Alec, avisando sobre nossa visita, carta esta escrita por meu próprio punho, mas que não dava muitos detalhes sobre o teor de nossa súbita aparição. Naturalmente, ele não fora avisado sobre Lavínia, mas bastava para mim não pegar a todos de surpresa com uma visita inesperada, já que eu estive sumida no último ano, meio incomunicável, eu diria. Nem Alec nem ninguém sabia que Lavínia estava comigo, muito menos que, agora, ela também era uma imortal. Jake talvez suspeitasse, mas eu não queria pensar nisso…
De qualquer forma, esse era um passo que teria de ser dado mais cedo ou mais tarde, e talvez eu já tivesse utilizado o tempo que me cabia para pôr as cartas sobre a mesa. Pelo menos eu sentia, de uma forma meio estranha e desconfortável, que Alec era a opção menos difícil para uma revelação como esta. “Hey, olhe, eu fiz uma amiga para mim.”
– Ness, você pode ir buscar o carro? – Disse Lavínia subitamente. – Acho que é mais seguro escondê-lo enquanto temos a proteção dos arbustos. – Olhei para ela ali, sustentando o corpo imóvel e rígido, o sonho havia se tornado um pesadelo.
Assenti, e continuei andando até a estrada, imersa em pensamentos inconclusos.
Uns quarenta metros à frente, a Pick Up azul marinho se camuflava sob as árvores na orla da estrada. Eu a roubei de um estacionamento, era um empréstimo rápido. Tive o cuidado de optar por um modelo mais antigo, o quê me livraria de problemas com GPS’s e outras engenhocas que pudessem nos denunciar.
Pulei para dentro do banco do motorista e dei a partida. O ronco feroz parecia ecoar na imensidão do campo e alcançar quilômetros. O barulho me deixou nervosa, será que alguém – ou algo – teria nos ouvido?
Dei a ré até alinhar a Pick Up ao meio fio, Lavínia rapidamente se empoleirou na caçamba com Willian. Ela cobriu-se com outra manta enquanto o segurava junto de si.
Era como transportar dois cadáveres. Suspirei, era bom encher os pulmões com a brisa fresca dos campos, era bom dirigir na escuridão, faróis apagados, o motor ronronando sob meus pés. Deixei minha mente vagar livre, solta. Era estranho, mas, naquela hora eu senti meu corpo funcionando de uma forma mais humana. Senti fome de pão e sede de água, senti sono e cansaço em minhas pernas. Há muito eu não me sentia assim.
Menos de uma hora depois, meu surto de humanidade evaporou-se, quando cruzamos um portal de madeira que separava a estrada em duas. Havia uma ponte estreita de pedra que ligava a estrada a uma passagem ainda mais fechada pela vegetação, com um pequeno riacho correndo por baixo das pedras. Seguimos por mais dez minutos nesse caminho, e em todas as partes, eu podia sentir o cheiro e a presença de outros imortais. Eu estava apreensiva com Lavínia lá atrás. Eles poderiam atacá-la, já que não conheciam seu cheiro – seu novo cheiro.
Finalmente, depois de alguns minutos imersos em uma escuridão completa, uma casa despontou lá na frente. Casa provavelmente não era o nome ideal para uma construção daquela magnitude. Estava escuro o suficiente para perder de vista as laterais, de forma que só vi a fachada, com sua escadaria de pedra e seus portões de ferro fundido. Eu tencionava ligar os faróis, mas optei por continuar lentamente, chamando o mínimo de atenção possível. Estávamos cercados por imortais dos quais o cheiro eu desconhecia por completo. Exceto um.
Ele estava lá, no topo da escadaria, e me olhava com uma serenidade perturbadora.
Parei o carro a poucos metros do portal e sai. A minha volta ninguém ousava se mover.
– Fique aqui. – Disse a Lavínia, de modo que somente ela pudesse me escutar.
Segui andando até alcançar os portões de ferro. Deviam ter uns três metros de altura.
Estava aberto, eu só tive que empurrar. O ranger das dobradiças agitaram o ar imobilizado a minha volta. Enquanto eu avançava cautelosamente pelo gramado em direção as escadas, eu podia sentir os olhos imersos na escuridão presos em mim, ouvi vozes cochichando a minha volta, rostos e silhuetas imersas nas sombras do grande jardim. “É a mestiça” sussurrou uma voz. Mantive meus passos firmes e minha cabeça levantada, e só o que eu conseguia pensar era nas coisas que eu teria de dizer a ele, mesmo não sabendo como. Um rápido fragmento de memória agitou meus pensamentos. “Você pode ficar aqui, comigo. Diga-me que nenhuma parte de você deseja ficar. Diga.” – As últimas palavras que trocamos antes de partirmos para lados opostos… “Então eu sei que você vai voltar. Um dia.” E aqui estava eu, assim como Alec dissera.
Alec. Havia algo diferente nele, e provavelmente em mim também. Degrau por degrau. Eu procurei algo que pudesse ser dito, algo que não reacendesse velhas fogueiras, que haviam consumido muito de nós dois. Será que éramos apenas cinzas agora?
Deixei alguns metros nos separar e sorri – um sorriso pálido e sem graça, um sorriso de quem se desculpa, ou de quem não tem nada melhor a oferecer. Alec sorriu-me de volta.
– Eu te esperava mais cedo, alguns meses antes. – Disse ele. Só naquele momento eu senti o quanto ouvir a voz dele me fez falta, e quantas coisas minha mente simplesmente enterrara nos últimos meses.
– E eu não esperava ter de voltar aqui tão cedo. Como vão as coisas Alec? – Eu disse, forçando meus olhos covardes a encará-lo de frente.
– Nada bem, mas elas vão melhorar. Começando por essa noite. – Eu o olhei nos olhos e demorei algum tempo para entender o que eu estava vendo. Alguma coisa estava faltando ali e a ausência gritava, brilhava como pequenas fendas de sol. Os olhos de Alec não eram mais vermelhos.
– Seus olhos. – Falei, tão baixo que só ele me escutou. Ele sorriu novamente, um sorriso genuíno.
– Nosso mundo mudou, é natural que eu mude com ele. Se quero governar com justiça tenho que aprender a dominar o monstro que vive dentro de mim. Não faz sentido liderar quando se é escravo de algo, e eu não quero mais ser escravo da minha sede.
– É. Muita coisa mudou. – Eu precisava tomar qualquer dose de coragem que se apresentasse. – Esse é um dos motivos que me trouxeram aqui. Mas fico feliz em ver que você abraçou a causa, você será um ótimo líder. Eu vou estar aqui para me certificar disso.
– Mas por quanto tempo? – Disse Alec, assumindo aquele olhar que eu vinha tentando evitar desde o primeiro momento, e que se tornara mil vezes mais perigoso sem a chama vermelha que antes ardia em seus olhos.
– Preciso lhe mostrar algo. – Falei, sentindo um nuvem escura pairar sobre meu humor.
Alec assentiu e gesticulou para que eu entrasse.
– Não. – Eu disse. – Preciso que venha comigo.
Meu plano havia sofrido uma pequena mudança, e isso devia-se aos imortais lá fora. Testemunhas que eu, definitivamente não precisava.
– Confie em mim. – Falei, quando, por um momento, eu o vi hesitar.
Alec me seguiu em silêncio pelo jardim, enquanto os mesmos olhos curiosos nos fitavam atentos.
– Quem são eles? – Perguntei. Alec olhou em volta.
– Dissidentes da rebelião. Vieram de todas as partes do mundo pedir proteção a abrigo. Muitos tiveram clãs destruídos e muitos foram transformados acidentalmente por imortais que estavam fartos do anonimato e do controle de Aro. Estavam à deriva, esses recém criados. – Ele disse, acomodando as mãos nos bolsos do casaco. – Também vieram até mim os que procuram vingança, justiça, os que querem lutar contra Aro e contra a selvageria que se instalou lá fora.
– Então esse é o novo exército Volturi. O batalhão dos desgarrados. Não acho que isso seja o bastante para deter Aro. – Falei.
– Não é isso que pretendo oferecendo a eles abrigo, um clã, um lugar para chamar de lar. Não os aceito em troca de suas forças para somar a meu exército. Aqui só lutam aqueles que querem. Eles não servem a mim, eles apenas me seguem.
– Desculpe, eu não quis ser rude. É que eu estive lá fora, onde as coisas estão bem piores, e vi com meus próprios olhos a que ponto nossa espécie é capaz de chegar. De qualquer forma, você está fazendo um ótimo trabalho.
– Obrigado. – Disse ele. Chegamos ao portão, e de súbito senti-me apreensiva. Alec ainda não havia se dado conta, estava distraído, de guarda baixa.
– Alec. – Falei, virando-me de frente para ele. Num impulso toquei seu braço. – Tente entender… – Não consegui terminar a frase, as palavras morriam em minha garganta. Alec endureceu. Seus novos olhos cor de âmbar me fitaram apreensivos. Ele inspirou, e nos mesmo momento eu vi a compreensão no rosto dele.
– Ness, o quê foi que você fez?
Anúncios