2. As vozes do outro lado

À medida que as terras geladas iam ficando para trás, o cheiro dos humanos se intensificava no ar, a atmosfera parecia diminuir, como se o céu estivesse deslizando sobre nós. Tudo se tornava mais quente a cada hora deixada para trás. Lavínia me seguia de perto, mas nunca ousava tomar a dianteira, mesmo que, com toda sua força de recém criada, ela pudesse facilmente fazê-lo. Ela estava com medo, eu podia sentir em cada passada febril que quase nem tocava o solo, podia sentir na rigidez dos músculos que levavam o corpo dela para frente em movimentos inconscientes. Lavínia não estava respirando há quatro horas. Contudo, eu não conseguia dizer a ela para relaxar. Era a primeira vez, desde Amsterdã, que estávamos nos aproximando da civilização, e como naquela vez, Lavínia estava seguindo meu conselho mais básico: “não respire até estarmos longe o bastante.”
Eu ainda estremecia ao pensar naquela noite, em como o desespero tomava conta de mim a cada segundo da espera infinita até que ela despertasse. Era como buscar por um sonho quando eu tentava reviver aqueles momentos, como se eu estivesse olhando para outro alguém, ali, debruçada sobre o corpo trêmulo daquela humana, envolvendo-a nos braços enquanto meus dentes rasgavam a pele fina e o gosto amargo descia pela minha língua, contaminando ela. Às vezes eu tentava reviver os detalhes, buscando uma explicação plausível para aquilo ter dado certo, mas não conseguia me lembrar como tudo fora, ou como supostamente teria sido. A única coisa que permanecia suficientemente viva em minhas lembranças, era o uivo dolorido que soava lá fora enquanto eu cometia meu erro mais imperdoável.
Jacob nos procurou por três dias. No quarto dia, eu tirei Lavínia de Amsterdã e apaguei meus rastros e minhas esperanças de uma só vez. Foi como brincar de roleta russa, aquele meu plano suicida dificilmente teria funcionado uma segunda vez. Eu calculei, com nenhuma base de certeza, que Jacob não arriscaria se aproximar das cidades em sua forma lupina, e conhecê-lo como conheço ajudou muito quando escolhi o local onde eu e Lavínia ficaríamos presas até a transformação terminar. Milhares de pessoas a nossa volta, cheiros e mais cheiros nos cercando como um muro de concreto. Jacob não conseguiria nos encontrar em forma humana, o muro de pessoas barrava o lobo, deixando-o longe de nós – longe de mim. Aquilo realmente havia funcionado? Jacob não adentrara a cidade como um lobo gigantesco, rosnando e grunhindo atrás de mim? Era difícil dar créditos às minhas memórias.
Lembro-me de ter classificado a recém-criada como o maior dos meus problemas. Como tirá-la de uma cidade repleta de pessoas sem que ela atacasse ninguém? Meu estômago se contorcia só com a idéia do que fora aquilo. Um salto suicida no escuro.
Eu quase conseguia acreditar em uma força maior, olhando pelos demônios na terra. Era a única explicação para eu estar aqui agora, com Lavínia, controlada e educada, me seguindo por um mundo aos avessos. Ela não era um monstro, eu não criei um monstro sedento e descontrolado. Saber disso tornava a respiração mais fácil.
O muro, aquele que nos protegeu de Jacob nas três primeiras noites, ainda continuava em pé. E eu que pensei que ele cairia assim que eu colocasse meus pés para fora, eu que pensei secretamente que o veria de novo. Nada disso aconteceu.
Contudo, aqui estava eu, construindo e cultivando muros por onde quer que eu fosse.
Um grunhido áspero soou às minhas costas de repente, me arrancando de supetão de meus devaneios. Estaquei no mesmo segundo e corri os olhos pelas árvores a nosso redor. Lavínia havia parado também, e adotara uma postura defensiva, seus olhos varriam a escuridão como dois faróis.
– Fique calma. – Eu disse a ela. Lavínia abafou os grunhidos em sua garganta, mas não relaxou sua postura. Eu entendia – pelo menos em partes – a insegurança de um recém criado na presença de outros imortais.
Eram três. Corriam juntos pela noite. Já haviam nos percebido também.
Não foram muitos os que esbarramos em nossas andanças. Como Willian dissera uma vez, a Rússia era particularmente disputada pelos nômades. Uma das coisas boas de nossa espécie, é que sabemos quase no mesmo instante quando estamos sendo observados e quando o observador é hostil ou apenas um curioso. Lavínia, porém, ainda não tivera tempo de aprender sobre isso.
– Só estão de passagem. – Sussurrei para ela. – Eles nos perceberam também, mas não parecem ser hostis. Não conheço o cheiro deles, não se trata de ninguém que esteja atrás de briga. – “Eu acho” Pensei comigo mesma. Lavínia assentiu em silêncio, mas não conseguia tirar do rosto aquela apreensão que caracteriza tanto nossa espécie como seres obstinados por auto preservação. – Estão curiosos a meu respeito, eles não sabem o que eu sou.
O silêncio se instalou a nossa volta, o mínimo estalar de um graveto poderia estremecer a terra. Lavínia parecia petrificada, a apreensão exalava de cada fibra de sua roupa.
Os nômades se aproximaram, vinham cautelosos em nossa direção. Estavam permitindo que nós os víssemos, estavam nos sondando, queriam fazer contato. Era seguro permitir?
Nas circunstâncias atuais que estávamos vivendo, era preciso desconfiar de todos, principalmente os que se alimentam de sangue.
Me aproximei de Lavínia – já que, aparentemente, ela não conseguia fazer o mesmo. Trocamos um breve olhar enquanto acompanhávamos os passos cautelosos do grupo.
Em seguida, fiz o que havia treinado fazer quando encontrasse meus inimigos.
Durante meio segundo eu roupei pequenos fiapos de pensamentos, lascas de memória. Eles tampouco perceberam minha invasão, isso significava que eu estava melhorando.
Foram preciso meses para que eu conseguisse encontrar o ponto onde deveria romper a ligação de minha mente com a mente oposta, sem danificar nada ou mesmo ser percebida. Eu não tive muitas mentes a meu alcance para praticar, mas os animais que de vez em ou outra passavam despercebidos pelos campos a noite, serviam como uma espécie de gancho nos quais eu me segurava, treinando meu controle. Não havia muito o quê roubar da mente deles, mas eu podia me segurar lá e praticar meu alcance. Era como boliche, tudo que eu tinha que fazer era lançar minha mente para o alvo, derrubar suas barreiras e entrar. Strike!
– Eles estão caçando. – Olhei para Lavínia. – Estão atrás da mesma coisa que nós! – O olhar dela faiscou e voltou-se na direção dos estranhos. Eu não conseguia identificar as reações dela ao saber que aqueles três nômades também estavam caçando Aro. De súbito, tomei uma decisão arriscada.
– Aproximem-se. – Eu falei. – Nós estamos de passagem também. – Houve uma breve hesitação nos passos do grupo, e, há uns cinqüenta metros, eu pude ouvi-los cochichando.
Aquele era um grupo distinto. Na maioria das vezes, nômades não se sentem tentados a fazer contato, são desconfiados e muitas vezes hostis. Bem, algumas coisas mudaram em nosso mundo desde então, talvez nossa espécie tenha sofrido mudanças, afinal.
A mulher foi a que vi primeiro. Nos espreitou como uma puma encurralada por de trás das árvores, os olhos vermelhos cintilavam na escuridão. Era pequena, de constituição frágil. Asiática. Os dois homens pareciam anglo-saxônicos. Ambos eram altos e magros. O que diferenciava gritantemente um do outro, certamente eram os olhos. Não a cor, ou mesmo a anatomia – essas também continham a mesma textura incandescente, vermelhos e febris – mas o modo como, logo num primeiro instante, eu decidi em quem deveria confiar. Isso era um dom, ou apenas uma característica?
– Que bom encontrar alguém nessas terras que afinal fala nossa língua. – Disse o primeiro rapaz, o de olhos gentis. Era britânico, cabelos claros e tosados de modo irregular, tinha modos bastante civilizados para um nômade. A mulher permanecia na orla das árvores, meio encoberta pela escuridão, não sentia-se a vontade com nossa presença. O outro homem, louro e silencioso como um fantasma, apenas observava com uma expressão insondável no rosto. Não deixei de notar que o primeiro homem, apesar de claramente perceber minha condição de “ser extraterrestre” não mencionou ou fez qualquer pergunta de imediato, o que, de várias maneiras, era uma gentileza.
– Sou Nessie, essa é Lavínia. O que trazem vocês aqui? – Ah, eu sabia exatamente o quê era!
– Eu sou Dave. Esse é meu irmão Dylan e aquela é Akemi, ela não fala muito bem nossa língua. Nós estamos de passagem também, estamos procurando por alguém.
Me espantou o fato dele ter sido sincero quanto estar procurando por alguém – Aro.
Eu queria saber mais, sondar mais, mas tinha medo de ser pega invadindo a mente dele.
A mulher – que mais parecia uma garotinha – fixou em mim seus olhinhos puxados, duas fendas sinistras que não ornavam com a delicadeza de seu rosto. Me perguntava se algum deles seria talentoso e se eu deveria arriscar descobrir.
Akemi resmungou algo para Dave, uma pena não ter dado ouvidos a meu pai quando ele tentou me ensinar nihongo*. Dave sorriu para ela e assentiu com movimentos delicados demais para um imortal daquele tamanho. Ele a respondeu no mesmo japonês fluente.
Eu e Lavínia trocamos um olhar.
– Desculpem. – Disse Dave sorrindo. – Akemi está incomodada com seu coração acelerado, ela não sabe o que você é.
– E você sabe? – Perguntei.
– É claro – Disse ele. – De onde eu venho as lendas sobre os íncubos são contadas nas fogueiras em noites de Beltane.
– Beltane? Você não parece ser tão antigo assim. – Resolvi ignorar a parte do íncubo.
– Eu e Dylan descendemos de uma linhagem muito antiga, um clã celta que foi extinto há muitos anos.
O outro irmão – Dylan – se impacientou atrás de Dave.
– E a garota? Ela não parece ser exatamente celta. – Perguntei.
– Akemi está conosco há apenas dois anos, encontramos ela em nossas andanças. O clã dela também foi extinto.
– E o que fez vocês, garotos de linhagem nobre, se tornarem nômades? – Dave sustentou meu olhar.
– Já lhe disse. Estamos procurando por alguém. – Aparentemente, ele não iria me dar mais nenhuma informação de graça. Decidi testar minhas chances.
– Bem Dave, acredito que já estejam sabendo da queda de Aro e da destruição de Volterra. A situação não está boa para nós, não é exatamente a melhor hora para andar por aí procurando coisas ou pessoas. – “Afinal de contas, quem vai por as mãos em Aro sou eu.” – pensei comigo. Eu estava contando com minha teatralidade para não transparecer que eu e Lavínia estávamos justamente atrás da mesma pessoa. Ninguém, nem mesmo estranhos, poderia saber de nossos planos, essa era a única condição que os mantinham estáveis e funcionais.
– Com todo respeito senhorita Nessie, nós estamos a par dos recentes acontecimentos, mas agradeço mesmo assim sua preocupação. – Disse Dave. Às vezes o cavalheirismo britânico me inspirava uma grande irritação. Bem, eu teria que ser mais direta.
– E para onde estão indo, se me permitem perguntar?
– Turquia. – Eu não esperava de fato que ele respondesse assim tão prontamente, nem tampouco seus companheiros, que lançaram-lhe olhares gelados. De imediato me veio à mente o noticiário russo em um bar qualquer na beira da estrada, por onde eu e Lavínia passamos na noite anterior. O repórter falava rápido, quase mecanicamente e relatava os acontecimentos bizarros ao redor do mundo. Lembro-me de ouvi-lo falar sobre as mortes violentas e a taxa alarmante de desaparecimentos na Turquia. Guardei a informação para mim e olhei-o displicente.
– É uma longa caminhada. Ainda faltam alguns quilômetros até chegarmos a Samara, creio que irão querer evitar as cidades.
– Naturalmente, como a senhorita mesmo disse, são tempos difíceis para nossa espécie. É preciso o dobro de cautela para não ser notado por outros dissidentes.
Não pude evitar uma risada, o modo como ele se referia aos “rebeldes sem causa” de nossa espécie que ameaçavam nos expor era quase como um sermão de padre ou algo assim.
– Foi algo que eu disse? – Dave perguntou.
– O jeito que você fala… me lembra meu pai. – Sim, era como ouvi-lo discursar sobre a ética rígida de não atacar humanos, com todos aqueles termos piegas sobre o que não devemos fazer.
– Então você conhece seu pai? – Ele perguntou.
– É claro que conheço. – Os olhos gentis de Dave me perscrutaram por um momento, e de subido eu entendi o que os levara a se arriscar se aproximando de nós. Eu talvez fosse a primeira mestiça que eles encontravam em séculos, e muito provavelmente a última. Mas o quê ele estava pensando? Que eu era algum tipo de cria bizarra de demônios ou monstros molestadores
Aquele silêncio constrangedor se tornou audível de mais para mim, escapei do olhar curioso de Dave e encarei o caminho que se estendia diante de nós.
– Bem, então seguiremos nosso caminho. – Falei
– Ainda não nos disse o quê fazem por aqui. Como a senhorita mesmo disse agora a pouco, não é seguro perambular por territórios desconhecidos nesses tempos conflituosos. – O olhar inocente que Dave adotou naquele momento me fez perceber que ele provavelmente sabia mais do que aparentava. Eu não podia deixar margens de dúvida em relação a mim e a Lavínia, eu nem mesmo conhecia aquelas criaturas, eles poderiam muito bem ser parte de algum plano maior. Ou eu estava apenas ficando paranóica? Sorri para ele ao dizer:
– Estamos apenas tentando sobreviver e ficar longe dessa guerra infernal, mas, como podem ver, nas montanhas não há muitas opções que nos sustentem. Eu e minha companheira estamos fartas do sangue animal, se é que me entende. – Dave assentiu, parecia satisfeito com minha resposta, então ponderou por um momento e disse:
– Muito bem, todos precisam se alimentar adequadamente não é. Mas antes de nos despedirmos, gostaria de perguntar-lhe algo. – Consenti sem dizer palavra.
– Há algum tempo nós não temos notícias do ocidente, e bem, você certamente é americana. Será que saberia nos informar como anda a situação dos humanos desaparecidos? Houve aumento na contagem, focos específicos? – A expressão leve e neutra de Dave de repente assumiu um tom sério, eu diria até preocupado. O quê me intrigava era que, estava evidente que ele e seus companheiros se alimentavam de humanos, por que diabos alguém como ele iria se importar com os humanos, além de comida, o que mais eles eram para ele?
– Eu soube o que provavelmente todos sabem. O número de desaparecidos aumentou no meu país e na Europa, esta se estendendo pela Ásia e Africa. O novo governante Volturi está enfrentando sérias resistências tanto com os que se rebelaram como também com os antigos. Escutei no noticiário de algum bar na beira da estrada que na Turquia não houve apenas desaparecimentos, mas também mortes violentas em vários cantos do país. Será que querem mesmo ir para lá? – Por trás da minha pergunta havia algo que Dave seria capaz de entender. Algo como, “que coincidência não é mesmo?”
Ele assentiu em silencio e ponderou enquanto me encarava. O vento soprava furioso por nós, e acima de nossas cabeças uma tempestade começava a se formar. Akemi se impacientou por um momento, e então Dave falou:
– Estamos seguindo a trilha de corpos, como nos velhos tempos de batalha com nossos antepassados. Sempre foi o melhor jeito de localizar o inimigo. – Era isso, Dave sabia que eu conhecia seus propósitos. Talvez tivesse percebido no instante em que entrei em sua mente e coletei um pedaçinho de pensamento. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Dave se voltou para a mesma direção que tinha vindo, seus companheiros seguindo seu comando silencioso. Eles estavam partindo.
Dave olhou para mim por sobre o ombro e curvou levemente a cabeça num comprimento cortez e discreto. Disse-nos antes de partir:
– Talvez nos vejamos em breve senhoritas. Mantenham-se vivas até lá.
Acenei de volta para ele e no segundo seguinte eu já estava encarando a escuridão.
Lavínia olhava-me com tantas perguntas que, minha única reação imediata foi virar-me e continuar andando.
Uma hora foi o máximo de tempo em que ela conseguiu manter-se em silêncio.
– Ness, nós precisamos encontrar Aro antes dessas pessoas. – Disse ela.
– Eu sei. – Suspirei. Quem saberia quantos imortais nós teríamos que vencer nessa corrida.
– Ele é nossa única chance de encontrar uma cura.
– Talvez haja uma outra. – Falei. Era algo que não saía da minha cabeça há meses.
– O quê você quer dizer? – Ela perguntou.
– Estive pensando que talvez seja um pouco mais fácil encontrar as pessoas que forneceram a Aro os pergaminhos contento a localização dos filhos da noite. Se eles tinham esse conhecimento, talvez saibam algo sobre o veneno. Eu vi a barganha na mente de Aro, Vladimir e Stephan pareciam abominar aquelas criaturas.
– E eles ainda estão a solta também. Acha que podemos encontrá-los? – Perguntou ela.
– Talvez Lavínia. – Falei. – Mas você nem mesmo os conheceu pessoalmente, não tem nada deles para seguir, apenas uma idéia. – Lavínia não disse nada e por um momento apenas o silêncio caminhou conosco.
Eu estava as voltas com pensamentos amargos demais, e estava com medo do que estávamos indo fazer.
Foi uma decisão conjunta, algo que tínhamos que ter feito mais cedo.
Willian precisava ser desenterrado e levado para um local mais seguro. Ao contrário do que todos pensavam quando o enterraram nos campos que margeavam a extinta Volterra, Willian retornaria a vida. Aquilo tinha sido um dos gestos mais covardes e conformistas que eu já presenciara, e nisso Alice estava coberta de razão. Enterrá-los era como enterrar nossas esperanças. Bem, Willian teria de ser içado de volta para este mundo. Ele teria de aguardar e talvez, torcer para que nós não morrêssemos antes. Se alguém o encontrasse… Se Aro conseguisse por as mãos no corpo dele… Um arrepio desesperado viajava por meu corpo quando eu pensava nisso, e em conseqüência minhas pernas eram impulsionadas a andar mais rápido, mais rápido… antes que o tempo seja curto demais.
Nós tínhamos mais quatro ou cinco dias de viajem até a Europa, e talvez mais três dias até a Itália. Aviões e trens, ou qualquer outro meio de transporte era arriscado demais. Estávamos vivendo tempos primitivos novamente. Os imortais estavam lutando por poder, estavam caçando como as bestas da antiguidade caçavam, estavam voltando a ser temidos como os demônios de antigamente. Agora, nós só andávamos a noite, por que o dia era dos humanos.
Certas noites, eu só conseguia desejar um banho quente e uma noite de sono em lençóis limpos. Porém, na noite fria e escura que atravessávamos, era difícil sequer imaginar algo assim, algo bom e confortável. Quente, aconchegante, algo como um lar.
Tirei aquilo de minha mente, era como um oásis na escuridão, mas não servia-me para nada.
Acelerei um pouco os passos, Lavínia estreitou o espaço também, voltamos ao nosso ritmo de expectativa, de apreensão, voltamos a correr. Precisávamos chegar antes de qualquer um ao túmulo de Willian. Nunca uma distância pareceu tão grande.
A tempestade que o céu nos prometera finalmente caiu. No meio dos vales escuros e enlameados nada se ouvia além do barulho das gotas e um rápido zunido anunciando nossa passagem. Pelo menos a água fria iria apagar todo e qualquer sonho tolo com lençóis limpos da minha cabeça.
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